A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) elaborou novas orientações para o tratamento da fibromialgia, atualizando as recomendações feitas em 2010. O foco está no acompanhamento clínico e no uso cuidadoso de medicamentos.
José Eduardo Martinez, reumatologista e presidente da SBR, explica que a fibromialgia é caracterizada por dor crônica espalhada pelo corpo, mesmo em áreas sem lesão aparente. Além da dor, a pessoa pode sentir cansaço, sono não reparador, problemas de memória e concentração, e até alterações no intestino.
O novo documento, dividido em duas partes (tratamento com medicamentos e sem medicamentos), é baseado em uma revisão detalhada de estudos científicos recente.
Na parte sem medicamentos, destaca-se a importância de usar ferramentas que medem a intensidade dos sintomas para avaliar se o tratamento está ajudando. Exemplos dessas ferramentas são o Revised Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQR) e o Fibromyalgia Survey Questionnaire (FSQ), que já estão disponíveis em português e são usados na prática clínica.
O tratamento principal continua sendo a prática regular de exercícios físicos, especialmente os aeróbicos e de baixo impacto. Exercícios de alongamento e fortalecimento também são recomendados, segundo Martinez.
Outras estratégias comprovadas incluem educar pacientes e familiares para garantir o tratamento correto, terapias psicológicas, atividades que combinam exercício e redução do estresse como tai chi chuan e jogos que envolvem movimento (exergames), além de terapias como acupuntura e neuromodulação — uma técnica que usa estímulos elétricos no cérebro para controlar a dor.
Martinez destaca que a neuromodulação é uma novidade importante e pode ser incluída no tratamento sem substituir a prática de exercícios.
Uso de medicamentos
Na parte com medicamentos, continuam indicados remédios como fluoxetina e pregabalina. Medicamentos como a amitriptilina, apesar de não terem indicação oficial para fibromialgia, têm respaldo científico para seu uso.
Outros antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), e canabinoides ainda não têm evidências suficientes para recomendação formal.
Martinez comenta que, em relação aos medicamentos, não houve grandes mudanças, mas agora os tratamentos têm melhor suporte na literatura científica.
Causas e gatilhos
Entre 2,5% e 3% dos brasileiros têm fibromialgia, que foi reconhecida por lei em 2025 como uma deficiência.
As causas ainda não são totalmente esclarecidas, por isso a fibromialgia é considerada uma síndrome. Acredita-se que ocorreu uma alteração na forma como o sistema nervoso central processa a dor.
A doença é mais comum entre mulheres. Embora existam hipóteses relacionadas a fatores genéticos e hormonais, não há consenso científico até o momento.
Martinez explica que não se pode afirmar que seja uma doença genética, mas que existe uma predisposição familiar. Isso pode significar uma maior sensibilidade à dor, mais do que a doença em si.
O principal fator que pode desencadear a fibromialgia é o estresse constante, que altera a forma como o corpo percebe a dor. A doença pode aparecer em qualquer idade, mas é mais frequente entre 20 e 50 anos.
O tratamento ideal é personalizado e feito por equipes multidisciplinares, incluindo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas. Deve se basear em informação, educação sobre a doença e prática regular de exercícios.
Estadão Conteúdo
