CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS
Diante do aumento dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes, o Hospital Moinhos de Vento, localizado em Porto Alegre, está liderando um projeto inovador para desenvolver estratégias que previnam a depressão antes que ela apareça.
Chamado Idea-Impact (Identifying Depression Early in Adolescence for Maximising Prevention and Clinical Translation), o projeto recebeu mais de 5 milhões de libras esterlinas, cerca de R$ 34 milhões, do Wellcome Trust, uma das maiores instituições de apoio à pesquisa científica no mundo.
O estudo, que durará cinco anos, reúne pesquisadores do Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Paquistão e África do Sul. O líder do projeto é o psiquiatra especializado em infância e adolescência Christian Kieling, professor da UFRGS e diretor da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do hospital.
“Nossa motivação é transformar a identificação dos riscos em ações concretas de prevenção”, explica Kieling. “Apenas prever o risco não basta, é preciso agir.”
A adolescência é o período em que surgem a maioria dos novos casos de depressão e, no Brasil, os indicadores mostram um aumento considerável do sofrimento emocional entre jovens.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos relatam sentir tristeza com frequência, 42,9% dizem sentir irritação ou nervosismo e 18,5% pensam repetidamente que a vida não vale a pena.
Especialistas destacam que o crescimento de ansiedade, depressão e automutilação nessa faixa etária resulta da combinação de vários fatores, como os impactos da pandemia, o uso intenso da internet, a exposição constante às redes sociais, o cyberbullying, a instabilidade financeira e a falta de redes de apoio.
Apesar da maior demanda, o acesso a cuidados de saúde mental continua limitado, especialmente em países com renda média e baixa, onde vivem quase 90% dos adolescentes do mundo. É nesse cenário que o projeto visa atuar.
O ponto de partida é uma ferramenta criada por pesquisadores brasileiros há quase uma década: o Idea-RS (Identifying Depression Early in Adolescence Risk Score), um índice de risco desenvolvido com base em dados de adolescentes da coorte de Pelotas (RS), um dos maiores estudos de saúde do mundo.
O grupo analisou 11 aspectos sociodemográficos e psicossociais coletados quando os jovens tinham 15 anos para prever quem poderia desenvolver depressão até os 18 anos. Esses fatores incluem relações familiares, experiências de violência, emoções e condições sociais.
Kieling conta: “A pergunta inicial era simples: seria possível identificar cedo quem tem mais risco de depressão?”
Depois, o método foi testado em populações do Reino Unido, Nova Zelândia, Nigéria, Nepal, Estados Unidos e também no Brasil.
O modelo mostrou boa precisão para prever o risco, com índice de 0,78 em uma escala de 0 a 1, algo considerado elevado para esse tipo de avaliação. Kieling compara o resultado ao famoso escore de Framingham, usado para medir riscos cardíacos.
Durante o processo, os pesquisadores entenderam que informar um adolescente sobre o alto risco de depressão sem dar suporte pode ser problemático. Por isso, o projeto terá quatro frentes.
A primeira busca adaptar o índice para diferentes culturas. A segunda amplia os fatores analisados para incluir novos aspectos, como o uso das redes sociais, o cyberbullying e o uso excessivo da tecnologia.
Também serão estudados padrões de sono, marcadores de inflamação, hormônios e características da fala dos jovens. Outra frente investiga fatores que protegem, como boas relações familiares, amizades, apoio da comunidade e habilidades emocionais.
No entanto, a etapa mais esperada é a quarta: criar uma intervenção preventiva simples e direcionada para adolescentes com maior risco de depressão.
Diferente dos métodos tradicionais, a intervenção será desenvolvida com a participação direta dos jovens. Adolescentes que já passaram por sofrimento emocional serão consultores do projeto, e alguns serão treinados para ajudar na revisão de estudos e interpretação dos dados.
Kieling explica: “O conhecimento que vem da experiência de vida complementa o conhecimento técnico.”
O grupo realizará oficinas e grupos de discussão para entender como os jovens preferem receber apoio e que estratégias funcionam na prática. Também querem descobrir os melhores locais para a intervenção funcionar, seja em escolas, unidades de saúde, plataformas digitais ou uma combinação delas.
Esse trabalho será feito simultaneamente no Brasil e no Paquistão, países com culturas e realidades sociais bastante diferentes.
Os dados iniciais indicam que a conexão social é um ponto fundamental na prevenção. Solidão, afastamento e isolamento são fatores que aparecem consistentemente relacionados ao risco de depressão.
“Quando o adolescente começa a recusar convites, se afasta dos amigos e perde relacionamentos, isso alimenta os sintomas depressivos”, diz o psiquiatra.
Por outro lado, os pesquisadores não veem a tecnologia apenas como um problema. Apesar do uso excessivo das redes sociais estar associado à piora da saúde mental, o ambiente online também pode ser um espaço de pertencimento e apoio.
Kieling comenta: “Um adolescente LGBTQIA+ de uma cidade pequena pode encontrar na internet conexões que não consegue formar pessoalmente.”
O objetivo do projeto é, além de ajudar jovens, aliviar a pressão sobre os serviços de saúde mental, atuando antes que os casos se agravem.
Entre os parceiros do projeto estão o King’s College London, a Brown University, a George Washington University, o Global Institute of Human Development e a Global Mental Health Peer Network.
Kieling destaca que o financiamento do Wellcome Trust é um reconhecimento da qualidade da ciência feita no Brasil. “Isso mostra que é possível produzir ciência de alto nível no país, focada nos problemas reais da nossa população.”
