PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Desde o início de 2025, quando passaram a operar legalmente no Brasil, as empresas de apostas esportivas e cassinos online têm aumentado suas receitas, impostos recolhidos, número de jogadores e negócios, com expectativa de ainda mais crescimento com a chegada da Copa do Mundo.
Esse crescimento acontece em meio a debates sobre o endividamento da população, dependência do jogo e a existência de casas de apostas ilegais.
Informações da Receita Federal mostram que a receita das apostas licenciadas dobrou nos primeiros quatro meses de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, mesmo com limitações impostas pelo governo e pela Justiça para beneficiários de programas sociais e pessoas com dívidas.
A arrecadação tributária desse setor aumentou de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões no mesmo intervalo, um valor próximo ao recolhido pela indústria do tabaco e pela agricultura, que pagam cerca de R$ 1 bilhão por mês cada.
Considerando que as casas de apostas pagam 37% de impostos sobre sua receita, a receita total delas no primeiro quadrimestre deste ano chegou a R$ 12,2 bilhões.
Em 2025, o faturamento do setor foi de R$ 36,9 bilhões. O desempenho sofre influência de eventos sazonais, como finais de campeonatos de futebol, com previsão de grande crescimento ainda neste ano.
Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional das Jogo e Loteria (ANJL), afirma que o setor está se firmando no mercado.
Lauro Gonzalez, da Fundação Getulio Vargas, diz que o crescimento está ligado ao aumento da publicidade das apostas na sociedade.
A Copa do Mundo deve trazer uma receita extra, com previsão de aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões em valores apostados durante o evento, segundo a consultoria H2 Gambling Capital.
Entretanto, o valor exato do ganho depende dos resultados dos jogos, pois o faturamento é calculado pelo saldo após o pagamento dos prêmios aos vencedores.
Quem são os jogadores e as bets
Desde a regulamentação em 2025, o Ministério da Fazenda aprovou 85 licenças para empresas de apostas, cada uma autorizando até três sites. Atualmente, há 187 sites licenciados no Brasil.
Em 2025, dez marcas dominavam quase 70% do mercado, com a grega Betano liderando com 23% da receita, seguida por Bet365, SportingBet, Esportes da Sorte e Superbet.
Principais marcas do mercado brasileiro em 2025
- Betano – 23%
- Bet365 – 15,1%
- Superbet – 7,3%
- SportingBet – 6,1%
- Esportes da Sorte – 4%
- Blaze – 3,3%
- BetNacional – 3,2%
- EstrelaBet – 2,5%
- CassinoPix – 2,3%
- Bet7K – 2%
Os maiores patrocínios no futebol brasileiro são feitos por empresas de apostas, como a Betano, que investiu R$ 268,5 milhões em três anos no Flamengo, e a Esportes da Sorte, que gastou R$ 150 milhões em três anos no Corinthians.
O total de apostadores aumentou para 25 milhões em 2025, sendo 17 milhões no primeiro semestre do ano.
Há também preocupações quanto aos jogadores que desenvolvem dependência e risco de dívidas, com um estudo da Unifesp apontando que 4,4% dos apostadores têm problemas sérios de jogo, valor acima da média mundial.
Em 2025, o gasto médio mensal dos jogadores em apostas online foi de R$ 123, já descontadas as premiações recebidas.
Para onde vai o negócio do jogo
Marco Túlio Oliveira, CEO da Ana Gaming, que controla marcas como Bet7K e CassinoPix, acredita que o crescimento dos sites de apostas deve desacelerar, esperando aumento de 10% a 15% em 2026.
Ele destaca que o mercado está em processo de consolidação, com alguns sites menores podendo fechar ou ser adquiridos por competidores maiores.
A Fazenda aponta que cada apostador possui, em média, contas em quatro sites diferentes.
Ed Birkin, da H2 Gambling Capital, comenta que o mercado está saturado de pequenas empresas com desempenho fraco.
Apesar do crescimento, as apostas online são alvo de críticas por contribuírem para o endividamento das famílias, especialmente as mais vulneráveis, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
André Guelfi, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e executivo da Betsson, defende o setor, alegando que o endividamento também afeta as próprias casas de apostas.
Clandestinidade e lobby
Além das empresas licenciadas, o mercado enfrenta concorrência de apostas clandestinas e mercados de previsão como Kalshi e Polymarket, que não pagam impostos nem seguem normas de publicidade, oferecendo prêmios mais altos para atrair jogadores.
Essas operações ilegais não possuem mecanismos de exclusão voluntária para jogadores, ao contrário das autorizadas pelo Ministério da Fazenda.
Um estudo da LCA estima que o mercado clandestino representa entre 41% e 51% do total, equivalente a R$ 26 bilhões a R$ 39 bilhões.
O governo determinou a retirada desses sites ilegais em abril, mas sua atividade continua, conforme o IBJR.
Segundo a H2 Gambling Capital, a movimentação financeira do mercado ilegal alcançou R$ 16,3 bilhões em 2025, embora não existam números oficiais.
Somando apostas legais e ilegais, a receita saltou de R$ 41 bilhões para R$ 51 bilhões entre 2024 e 2025, quando começou a regulamentação.

