CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Muitos idosos brasileiros enfrentam dificuldades por falta de acesso a fraldas, banheiros adequados e orientação correta sobre cuidados básicos, o que resulta em problemas de higiene e saúde.
Esse assunto, pouco discutido no Brasil, foi tema de uma reunião na Fiesp, em São Paulo, com pesquisadores, profissionais da saúde e gestores públicos.
A ideia central é que a incontinência urinária deixe de ser um assunto constrangedor e privado, passando a ser prioridade nas políticas públicas de saúde para idosos.
Segundo o especialista britânico Peter Lloyd-Sherlock, há necessidade de uma nova abordagem social para o tema.
O silêncio em torno da incontinência é um estigma semelhante ao que existia sobre a pobreza menstrual anos atrás. Hoje já se fala abertamente sobre higiene menstrual, mas a incontinência ainda é pouco discutida.
Lloyd-Sherlock destaca que até a ciência negligencia o tema, com poucos estudos focados na população idosa, o que demonstra uma exclusão preocupante para um problema tão comum.
Essa negligência ocorre por dois motivos principais: a saúde do idoso é pouco prioridade em agendas globais e há constrangimento social ao tratar de assuntos relacionados a urina e fezes.
Essa situação dificulta a obtenção de dados confiáveis, pois muitos idosos sentem vergonha de relatar suas dificuldades, atrasando diagnósticos e cuidados.
Mais de 3 milhões de idosos no Brasil, cerca de 10% dessa população, relatam sintomas de incontinência urinária, e a maioria das pessoas vai vivenciar esse problema em algum momento da vida.
A falta de visibilidade gera uma série de consequências negativas: reduz informação, dificulta diagnósticos precoces e leva famílias a usar alternativas inadequadas ou caras, como o uso excessivo ou a falta de fraldas descartáveis.
A enfermeira Larissa Chaves Pedreira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), relata que o acesso às fraldas fornecidas pelo governo é complicado, exigindo documentação, cadastros presenciais e longas esperas, dificultando a vida dos idosos e seus familiares.
Muitos idosos reclamam também da baixa qualidade das fraldas disponíveis, com vazamentos e tamanhos inadequados que levam ao uso de múltiplas unidades simultaneamente.
Além das fraldas, os custos com cremes e pomadas para evitar irritações na pele são altos e nem sempre considerados.
Lloyd-Sherlock chama atenção para os altos gastos em fraldas de baixa qualidade e para a falta de investimento em soluções que promovam autonomia, como exercícios para fortalecer os músculos pélvicos e adaptações na casa, como barras de apoio e vasos sanitários elevados.
Essas medidas não só valorizam a dignidade dos idosos, mas também podem reduzir gastos com hospitalizações e cuidados médicos.
A má condição dos banheiros em muitas residências torna difícil o uso por idosos, especialmente aqueles com mobilidade reduzida, aumentando o risco de acidentes e o uso constante de fraldas.
Em alguns casos, idosos precisam tomar banho sentados no vaso sanitário, por falta de condições adequadas para o banho no chuveiro.
Lloyd-Sherlock destaca os impactos para o sistema de saúde, pois infecções decorrentes da falta de higiene e do manejo inadequado da incontinência são causas comuns de hospitalizações e aumentam a resistência a antibióticos.
O envelhecimento da população brasileira na próxima década tornará este problema ainda mais grave, e é urgente tomar medidas para evitar custos elevados para o sistema público de saúde.
A professora da USP Yeda Duarte ressalta que discutir higiene para idosos é discutir direitos humanos e dignidade.
Ela critica práticas hospitalares que podem piorar a situação, como o uso automático de fraldas e grades hospitalares para pacientes que poderiam usar o banheiro com ajuda, o que aumenta a dependência e os riscos de infecções e quedas.
Yeda também sugere repensar hábitos de cuidado doméstico, lembrando que o idoso nem sempre precisa de banho completo diário para manter a higiene e evitar acidentes.
Ela cita como exemplo o uso de urinóis ao lado da cama durante a noite, uma solução simples que pode prevenir quedas e desconforto, embora ainda seja pouco aceita socialmente.

