ANA BOTTALLO
FOLHAPRESS
Um estudo inovador realizado em 12 países, inclusive no Brasil, descobriu que uma única pílula com três remédios para pressão baixa em doses pequenas diminui em 39% o risco de um AVC acontecer de novo e reduz em 60% o risco de sangramento no cérebro em pessoas que já tiveram esse problema.
Essa pílula também ajudou a prevenir outras doenças do coração por até sete anos de acompanhamento. Não houve mais efeitos colaterais no grupo que tomou o remédio comparado ao grupo que tomou placebo.
A pesquisa foi publicada na revista médica NEJM, uma das mais respeitadas no setor.
O estudo começou em 2017 e acompanhou os pacientes até 2024. Foi liderado pelo Instituto George para Saúde Global, na Universidade de Nova Gales do Sul, Austrália, com apoio do Ministério da Saúde do Brasil. No Brasil, 10 centros participaram em várias cidades.
A combinação dos remédios, chamada GMRx2, inclui telmisartan 20 mg, amlodipina 2,5 mg e indapamida 1,25 mg. Participaram pessoas que já tiveram sangramento cerebral e pressão arterial entre 130 e 160 mm/Hg.
Ao todo, 1.670 pacientes de 61 centros em 12 países foram incluídos. A média de idade era 58 anos.
Depois de duas semanas tomando a pílula, os participantes foram divididos em dois grupos: um continuou com o remédio e o outro recebeu placebo.
No grupo com o remédio, ocorreram 38 casos de AVC (4,6%) contra 62 casos (7,4%) no grupo placebo, o que significa uma queda de 39% no risco. Para o AVC com sangramento, a queda foi de 60%.
O remédio também reduziu outros problemas do coração, como ataques cardíacos e mortes por causas cardíacas, de 9,8% para 6,6%.
O AVC com sangramento, embora menos comum, é mais perigoso e tem menos opções de tratamento. A maioria dos AVCs (80%) é causada por entupimento dos vasos sanguíneos.
Craig Anderson, responsável pelo estudo, disse que o estudo surgiu para ajudar pacientes que têm alta pressão e prognóstico ruim após AVC, pois as soluções atuais são limitadas.
Ele afirmou que manter um estudo clínico por tanto tempo é difícil, mas que estavam satisfeitos com os resultados.
Esta combinação de remédios em uma única pílula está sendo fabricada pela startup George Medicines e foi aprovada pelo FDA nos EUA em maio do ano passado. Os medicamentos usados já existem e são comuns, mas agora estão juntos em dose baixa para maior eficácia e menor risco de efeitos colaterais, além de facilitar o uso pelos pacientes.
Sheila Martins, neurologista e líder da Rede Brasil AVC, que coordenou o estudo no Brasil, acredita que essa nova pílula pode ser incorporada ao SUS (Sistema Único de Saúde).
Ela explicou que a hipertensão é o maior fator de risco para AVC com sangramento, mas ainda é mal controlada no país. O Ministério da Saúde apoiou o estudo e ela acredita que pode ajudar a mudar os tratamentos atuais.
A neurologista destacou que o controle rigoroso da pressão arterial é a única forma atual de prevenção para AVC com sangramento e que essa nova forma mais fácil e eficiente de controlar a pressão pode trazer um grande benefício para a saúde pública.
