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A IA e as ciências sociais já foram próximas, mas se separaram

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Pesquisa analisou artigos sobre Inteligência Artificial e concluiu que computação está enfrentando questões éticas sem se comunicar com as ciências sociais

Filme Inteligência Artificial: obra de Steven Spielberg traz questões éticas sobre um futuro em que há robôs com consciência (Inteligência Artificial/Reprodução)

Pesquisadores de inteligência artificial estão empregando algoritmos de aprendizagem de máquina para auxiliar tarefas tão diversas quanto dirigir carros, diagnosticar problemas médicos e selecionar candidatos a emprego. Essas aplicações levantam uma série de questões sociais e éticas novas e complexas.

Assim, à luz desses desenvolvimentos, que pensamentos diferentes os cientistas sociais devem ter sobre as pessoas, a economia e a sociedade? Como os engenheiros que criam esses algoritmos devem lidar com os dilemas éticos e sociais que suas criações representam?

“Esses são os tipos de perguntas que você não pode responder apenas com as soluções técnicas”, diz Dashun Wang, professor associado de administração e organizações da Kellogg. “Elas são questões fundamentalmente interdisciplinares”.

Na verdade, os economistas que buscam prever de que forma a automação terá impacto no mercado de trabalho precisam entender quais habilidades são mais ideais para as máquinas desempenharem

Ao mesmo tempo, os engenheiros que desenvolvem software para diagnosticar tumores podem querer saber o que os filósofos têm a dizer sobre os dilemas morais que sua tecnologia apresenta. Programadores e psicólogos precisarão trabalhar juntos para garantir que os algoritmos de software de recrutamento não amplifiquem os vieses humanos.

Alguns pesquisadores conseguiram atravessar as barreiras departamentais. Por exemplo, um inovador realizado no ano passado explorou como milhões de pessoas em todo o mundo tomariam as decisões difíceis que os veículos autônomos enfrentam (por exemplo, diante da escolha entre matar um pedestre ou um passageiro, qual vida eles prefeririam?). Os pesquisadores pretendem usar esse trabalho para garantir que as novas tecnologias reflitam valores universais.

No entanto, um novo artigo de Wang e colaboradores conclui que o vínculo entre a IA e as ciências sociais (e outros campos) enfraqueceu ao longo do tempo.

Os pesquisadores analisaram várias décadas de trabalhos publicados no campo da IA, assim como nas ciências sociais, humanidades, ciências naturais, engenharia e medicina. Eles descobriram que, cada vez mais, os cientistas da computação estão enfrentando questões sociais por conta própria, sem depender profundamente de insights dos acadêmicos que as estudam. Ao mesmo tempo, acadêmicos de ciências sociais, físicas e humanas também parecem estar perdendo contato com os rápidos avanços da IA.

Juntos, os resultados demonstram uma necessidade renovada de os pesquisadores colaborarem entre as disciplinas, diz Wang.

“Justo agora que a IA está se tornando cada vez mais relevante no mundo todo, ela está se tornando cada vez mais isolada”, diz Wang. “Nós realmente precisamos fechar essa lacuna”.

Inteligência artificial na sociedade levanta novas questões

Há séculos, as pessoas vêm lutando contra as consequências sociais e filosóficas da tecnologia, assinala Wang. Tomemos, por exemplo, o livro Frankenstein de 1823. “A IA nasceu desse tipo de fascínio”, diz ele. “Tinha raízes muito profundas nas ciências sociais”.

Mais recentemente, pesquisadores de IA começaram a enfrentar os dilemas da vida real que a tecnologia apresenta.

Considere, por exemplo, quando a Amazon tentou desenvolver ferramentas de aprendizagem de máquina para classificar os candidatos a emprego. Como o software usava dados de candidatos anteriores para prever quais pessoas seriam as mais adequadas para a empresa, surgiu um problema evidente: como muitos dos candidatos anteriores eram homens, o programa penalizou os candidatos cujos currículos continham a palavra “mulheres” ou mencionavam algumas faculdades exclusivamente para mulheres como sua base de formação acadêmica.

Onde quer que o viés já exista, a IA “apenas ampliará esse viés”, diz Wang. (O programa da Amazon foi descontinuado.)

Wang queria saber com que frequência os pesquisadores de IA estavam envolvidos com disciplinas como psicologia, filosofia, economia e ciência política, o que poderia ajudá-los a lidar com essas inevitáveis questões éticas e sociais. Uma medida desse envolvimento é se os pesquisadores de IA estão citando outras disciplinas em seus trabalhos acadêmicos. Para investigar, Wang colaborou com Morgan Frank, Manuel Cebrian e Iyad Rahwan do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

A equipe aproveitou um conjunto de dados recém disponibilizado do Microsoft Academic Graph (MAG), que indexa artigos acadêmicos. Os dados incluíram citações de periódicos tradicionais, bem como anais de conferências, um local importante para descobertas de IA. Foram capturadas as relações das citações entre artigos, ou seja, sempre que um estudo fazia referência a outro.

A panelinha de IA

Wang e seus colaboradores examinaram os dados do MAG de 1950 a 2018. Eles descobriram que o número de publicações sobre IA e subcampos relacionados (como visão computacional e processamento de linguagem natural) aumentou exponencialmente durante esse período, de centenas para dezenas de milhares de trabalhos por ano. Esses campos agora dominam a pesquisa em ciência da computação.

Para quantificar as interações entre IA e outras disciplinas, a equipe desenvolveu uma medida que capturou a frequência com que os trabalhos em uma área citam uma outra área, controlando o número total de trabalhos publicados na segunda área.

Primeiro, a equipe analisou como os artigos da IA citaram outras áreas acadêmicas. Eles descobriram que, na década de 1960, os pesquisadores de IA citaram artigos de psicologia com uma frequência acima de cinco vezes mais do que se esperaria se tivessem escolhido trabalhos para citar aleatoriamente de um conjunto. Hoje, no entanto, eles citam artigos de psicologia com uma frequência de menos da metade disso.

Da mesma forma, ocorreram quedas dramáticas nas citações de filosofia, economia e arte. Não é de se surpreender que os documentos da IA de hoje citam ciência da computação e matemática muito mais vezes.

Em seguida, os pesquisadores consideraram o problema inverso: Quantas vezes outras disciplinas citaram artigos de IA, enquanto controlava o crescente número de publicações de IA a cada ano? Aqui, eles descobriram que áreas como psicologia, filosofia, negócios, ciência política, sociologia e economia tornaram-se menos propensas a usar as pesquisas de IA. Por exemplo, os psicólogos nos anos 60 citavam artigos da IA cerca de quatro vezes mais do que seria esperado se fosse ao acaso. Hoje, no entanto, eles citam a IA com menos frequência do que se escolhessem artigos para citar de forma totalmente aleatória.

Conclusão geral: “A IA se tornou cada vez mais clichê”, diz Wang.

Uma possível explicação é que simplesmente ficou mais difícil para os cientistas sociais acompanharem os rápidos avanços nas pesquisas cada vez mais complexas de IA.

Além disso, a onda de interesse pela IA poderia, paradoxalmente, ajudar a explicar seu isolamento. Alguns congressos de IA são tão requisitados que os cientistas sociais podem ter dificuldades em participar, segundo o coautor de Wang, Morgan Frank. Em uma postagem no blog, Frank observou que um encontro popular “esgotou as vagas de inscrição em menos de 15 minutos, dificultando a participação de pesquisadores ativos em IA, e muito menos de cientistas interessados de outras áreas”.

Quem está fazendo pesquisa em IA?

Outro fator é a mudança em quem domina a pesquisa de IA hoje.

Os pesquisadores examinaram quais instituições estavam publicando os artigos mais “centrais” de IA, aqueles citados mais frequentemente por outros artigos altamente citados.

Enquanto universidades como a MIT, Stanford e Carnegie Mellon figuravam como centros de pesquisa de IA por excelência, os pesquisadores descobriram que hoje esses trabalhos tendem cada vez mais a sair de empresas privadas como Google e Microsoft.

O fato dessas empresas estarem cada vez mais se envolvendo com IA é que elas contam com recursos para adquirir infraestrutura cara. “Não é um esporte barato”, diz Wang. “É preciso ter toda uma enorme quantidade de unidades de processamento gráfico, poder computacional e armazenamento”.

Isso pode ajudar a explicar a crescente desconexão entre a IA e as ciências sociais. Em seu estudo, Wang e colaboradores descobriram que os pesquisadores em sociologia, filosofia, ciência política, negócios e economia são menos propensos a citar publicações produzidas por empresas do que as da academia. Como tal, a concentração da pesquisa em IA no setor privado poderia estar contribuindo para o enfraquecimento do relacionamento com as ciências sociais.

E, assim que conseguem uma vantagem inicial, é mais provável que as grandes empresas continuem produzindo uma parcela desproporcional da pesquisa em um fenômeno de “rico ficando cada vez mais rico”, diz Wang. As equipes do setor desenvolvem sistemas melhores, atraem mais usuários e geram mais dados, que podem ser usados para treinar seus sistemas para se tornarem ainda mais precisos. “É um mecanismo de auto reforço”.

Preenchendo a divisão de IA

Apesar do rápido crescimento da IA, Wang teme que a nova tecnologia fique aquém do seu potencial máximo se não incorporar melhor os insights das ciências sociais e de outras áreas.

Para preencher esta lacuna, Wang recomenda que as universidades incentivem mais colaborações entre a IA e outros departamentos. Por exemplo, a Northwestern University iniciou um programa chamado CS+X, que conecta cientistas da computação a pesquisadores em áreas como medicina, jornalismo, direito e economia.

Algumas pesquisas existentes sugerem como os desenvolvedores de IA podem efetivamente integrar descobertas de outros campos. Por exemplo, o estudo explora como os carros autônomos podem refletir melhor a moralidade humana (coautoria do colaborador de Wang, Iyad Rahwan, um acadêmico de IA) baseado em pesquisas de psicologia, filosofia moral, economia e até mesmo ficção científica.

No entanto, permanece o fato de que tais bibliografias abrangentes são relativamente raras.

Assim como os cientistas da computação precisam consultar especialistas de fora de sua disciplina, diz Wang, os cientistas sociais não podem mais ignorar os desenvolvimentos em IA. À medida que as máquinas reformulam o modo como trabalhamos, pensamos e tomamos decisões, ele argumenta, está se tornando mais crucial do que nunca que economistas, filósofos e psicólogos estejam a par dos mais recentes desenvolvimentos da ciência da computação e vice-versa.

“É uma via de mão dupla”, diz Wang. “A IA precisa prestar mais atenção às ciências sociais. Os cientistas sociais precisam prestar mais atenção à IA”.

Texto publicado originalmente no site Kellogg Insight, da Kellog School of Management

 

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Ciência

Estudo contesta uso de maconha no tratamento de dependentes de cocaína

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Pesquisadores da USP acompanharam dependentes de cocaína e crack em reabilitação e observaram maior índice de recaída e pior funcionamento cognitivo

Maconha: pesquisadores da USP acompanharam dependentes químicos por seis meses (OpenRangeStock/Getty Images)

Pesquisa brasileira publicada na revista Drug and Alcohol Dependence contesta o uso recreativo de maconha como estratégia de redução de danos para dependentes de crack e cocaína em reabilitação. Dados do artigo indicam que o consumo da erva piorou o quadro clínico dos pacientes em vez de amenizar, como esperado, a ansiedade e a fissura pela droga aspirada ou fumada em pedra (crack).

O estudo acompanhou um grupo de dependentes por seis meses após a alta da internação voluntária de um mês no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). Os pesquisadores do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) e do Laboratório de Neuroimagem dos Transtornos Neuropsiquiátricos (LIM-21) da Faculdade de Medicina da USP constataram que a maconha prejudica as chamadas funções executivas do sistema nervoso central, relacionadas, entre outras atividades, com a capacidade de controlar impulsos.

“Nosso objetivo é garantir que políticas públicas para usuários de drogas sejam baseadas em evidências científicas. Quando as políticas de redução de danos foram implementadas no Brasil, para usuários de cocaína e crack, não havia comprovação de que seriam benéficas. Os resultados deste estudo descartam completamente essa estratégia para dependentes de cocaína”, disse Paulo Jannuzzi Cunha, autor do artigo.

O professor do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do LIM-21 foi bolsista de pós-doutorado da FAPESP.

Foram incluídos na pesquisa 123 voluntários divididos em três grupos: dependentes de cocaína que fizeram uso recreativo da maconha (63 pessoas), dependentes de cocaína que não consumiram a erva (24) e grupo controle (36), composto por voluntários saudáveis e sem histórico de uso de drogas.

Um mês após receberem alta, 77% dos dependentes de cocaína que fumaram maconha mantiveram a abstinência. Já entre aqueles que não fizeram uso de maconha, 70% não tiveram recaídas.

Mas três meses após a internação a situação se inverteu e a estratégia de redução de danos mostrou-se pouco efetiva. Entre os que não fumaram maconha, 44% permaneceram sem recaídas, enquanto só 35% dos que fizeram uso recreativo da maconha mantiveram-se abstinentes. Ao fim dos seis meses de acompanhamento, permaneceram sem recaídas 24% e 19% dos voluntários, respectivamente, mostrando que os pacientes que usavam maconha acabaram recaindo mais no longo prazo.

“Os resultados desbancam a hipótese de que o uso recreativo de maconha evitaria recaídas e ajudaria na recuperação de dependentes de cocaína. Um quarto daqueles que não fumaram maconha conseguiu controlar o impulso de usar cocaína, enquanto só um quinto não teve recaída entre os que supostamente se beneficiariam da estratégia de redução de danos. O uso pregresso de maconha não traz melhoras de prognóstico no longo prazo, o estudo até sugere o contrário”, disse o psiquiatra Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, primeiro autor do artigo.

Prejuízo cognitivo

De acordo com os resultados, os dois grupos de dependentes de cocaína em reabilitação apresentaram déficits neurocognitivos importantes em tarefas que incluíam memória operacional, velocidade de processamento, controle inibitório, flexibilidade mental e tomada de decisão, quando comparados ao grupo controle.

Porém, aqueles que fizeram uso recreativo de maconha apresentaram resultados ainda piores em relação às chamadas funções executivas – relacionadas à capacidade de sustentar a atenção em determinados contextos, memorizar informações e elaborar ou planejar comportamentos mais complexos. Também apresentaram lentidão no processamento mental e maior dificuldade para frear impulsos.

Durante todo o projeto foram realizados testes cognitivos e exames de neuroimagem. Os voluntários também fizeram exames de urina para verificar o eventual uso de drogas.

“Um dos limitadores do nosso estudo foi a impossibilidade de analisar o tipo de maconha usada pelos voluntários. Era a droga que eles consumiam em casa ou no seu contexto social”, disse Cunha.

Um preparado de maconha é composto por pelo menos 80 tipos diferentes de canabinoides. Dois deles têm maior relevância: o THC, associado aos efeitos de relaxamento da droga, à dependência e a danos neurológicos; e o canabidiol, que poderia modular os efeitos do THC. “Nosso trabalho não envolveu uma avaliação específica dos possíveis efeitos do canabidiol, que pode até ter potencial terapêutico, mas se apresenta em proporção muito menor na maconha fumada e é muito difícil de ser extraído puro da Cannabis”, disse.

Dados do artigo também indicam que, quanto mais precoce foi o uso de maconha e cocaína na vida dos dependentes, maiores as chances de recaída durante a reabilitação por cocaína.

“Trabalhos anteriores demonstraram que a precocidade prejudica o neurodesenvolvimento e a organização de importantes redes neurais no cérebro. Portanto, a exposição precoce à maconha teria um prognóstico pior não só em relação à própria maconha, como também a outras substâncias”, disse Oliveira Júnior.

“Esse dado é preditivo e sugere o impacto negativo da maconha e da cocaína no processo de maturação cerebral e na caracterização de um pior prognóstico da doença”, disse Oliveira Júnior.

Redução de danos

O uso de substâncias como a metadona (narcótico do grupo dos opioides) tem sido considerado uma estratégia de redução de danos eficaz na reabilitação de dependentes de heroína e outras drogas injetáveis, atingindo, desde os anos 1990, determinado sucesso em diferentes países.

Com base nos resultados com dependentes de heroína, trabalhos anteriores não controlados vinham sustentando a hipótese de que o uso recreativo da maconha poderia ser também uma estratégia eficaz na redução da fissura em dependentes de cocaína e crack. “Isso resultou, inclusive, na implementação de organizações na área de redução de danos e políticas públicas que indicavam o uso da maconha fumada como estratégia para redução da ansiedade e fissura pelo uso de cocaína. Nosso estudo contradiz esse tipo de estratégia”, disse Oliveira Júnior.

Cunha explica que a diferença de resultados na política de redução de danos entre usuários de heroína e cocaína ou crack se dá pelas peculiaridades de cada droga. “A abstinência por heroína traz sintomas corporais, fisiológicos e biológicos muito rapidamente. Se o usuário fica sem um opioide, começa a suar frio, passar mal, pode ter convulsões e problemas físicos graves”, disse.

O pesquisador afirma que uma estratégia farmacológica de redução de danos que ajude na remissão dos sintomas e que seja um passo intermediário até que o paciente consiga se manter abstinente é completamente apropriada.

“Já o usuário de cocaína em abstinência vai ter mais sintomas de humor, como irritabilidade e depressão. Pode ter uma depressão logo após cessar o uso, mas nada equiparável aos efeitos físicos observados em usuários de drogas injetáveis. Por isso, nesse caso, são importantes as estratégias comportamentais que ensinam o paciente a lidar melhor com as emoções e o ajudam a se manter sem uso de drogas, sendo bem mais eficientes em longo prazo”, disse.

De acordo com os pesquisadores, as abordagens mais indicadas são terapia cognitivo-comportamental, manejo de contingências (reforço de comportamentos desejáveis) e o tratamento médico-psiquiátrico de eventuais doenças associadas, como depressão, transtornos de ansiedade e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH).

Esses transtornos mentais tendem a ocorrer, em muitos casos, paralelamente à dependência química e prejudicam a aderência ao tratamento e a recuperação do paciente. “Um tratamento integrado e com base em evidências científicas tem mais chance de apresentar eficácia no médio e longo prazo. Além do atendimento multidisciplinar, é indicada a participação em grupos de apoio formados por ex-usuários”, disse Cunha.

No que concerne à internação, o grupo do LIM-21 defende que seja feita apenas durante o período de desintoxicação dos dependentes químicos. Cunha enfatiza a importância de a reabilitação ser conduzida em caráter voluntário e sem isolar o paciente da sociedade, tendo em vista que se trata de um processo passível de recaídas.

“Buscamos fazer um trabalho de fortalecimento para que ele enfrente os problemas reais e no seu próprio contexto de moradia, aprendendo estratégias para desvencilhar-se da tentação de usar a droga novamente. Longas internações, além de custosas financeiramente, tiram o paciente da realidade e não garantem que, ao sair da reclusão, não terá recaídas”, disse.

O artigo Distinct effects of cocaine and cocaine + cannabis on neurocognitive functioning and abstinence: A six-month follow-up study (doi: 10.1073/pnas.1904384116), de Hercílio Pereira de Oliveira Junior, Priscila Dib Gonçalves, Mariella Ometto, Bernardo dos Santos, André Malbergier, Ricardo Amaral, Sergio Nicastri, Arthur Guerra de Andrade e PauloJannuzzi Cunha pode ser lido em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0376871619304193?dgcid=raven_sd_aip_email.

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Ciência

Estudo liga síndrome de burnout com batimento cardíaco irregular

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Nova pesquisa aponta relação entre exaustão vital e fibrilação atrial, que causa batimentos cardíacos irregulares

Síndrome de burnout: estudo aponta ligação da condição com problemas cardíacos (Skynesher/Getty Images)

São Paulo – A síndrome de burnout, um distúrbio psíquico normalmente associado com a vida profissional, é identificada quando o indivíduo está com sintomas de cansaço, falta de energia e estresse recorrentes, seja no trabalho ou em casa. Diferentemente de casos de depressão, a síndrome de burnout é caracterizada por exaustão vital e pode ser a causa de um quadro clínico de frequência cardíaca irregular, que pode vir a ser fatal. É isso que mostra uma pesquisa feita por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia e publicada no periódico científico European Journal of Preventive Cardiology.

Chamada de fribilação atrial, essa condição aumenta os riscos de ataque cardíaco e é a forma mais comum de arritmia cardíaca. Junto com sua equipe, Parveen K. Garg, cardiologista e professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, analisou indicadores de mais de 11 mil indivíduos, como os níveis de exaustão, raiva, uso de antidepressivos e baixo apoio social durante cerca de 25 anos, para compreender o desenvolvimento da fibrilação atrial.

Os participantes que demonstraram níveis mais altos de exaustão também apresentaram um risco 20% maior de desenvolver a condição cardíaca, quando comparados com os que tiveram pouca evidência dos sintomas de burnout. O estudo apontou que o sofrimento psicológico, gerado tanto por situações profissionais quanto familiares, é um possível fator de risco para a fibrilação atrial – no entanto, essa é a primeira vez que os resultados para a comparação são mais positivos do que mistos.

Ainda que sejam necessários mais estudos para comprovar a relação apontada, Garg apontou que os dois fatores, quando crônicos, podem prejudicar o tecido cardíaco e ocasionar o desenvolvimento da condição: “A exaustão vital está associada ao aumento da inflamação e à ativação aumentada da resposta fisiológica ao estresse do corpo. Quando essas duas coisas são acionadas cronicamente, elas podem ter efeitos sérios e prejudiciais no tecido cardíaco, o que pode levar ao desenvolvimento dessa arritmia”, comenta, em nota, o médico.

No entanto, o único sintoma que apresentou uma relação com a fibrilação atrial foi exaustão – raiva, uso de antidepressivos e falta de suporte social não apresentaram conexões. “As descobertas de raiva e apoio social são consistentes com pesquisas anteriores, mas dois estudos anteriores encontraram uma associação significativa entre o uso de antidepressivos e um risco aumentado de fibrilação atrial. Claramente, ainda há muito trabalho a ser feito”, complementou o autor do estudo.

 

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Ciência

Empresa oferece congelamento de cérebros para possível futura imortalidade

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A russa KrioRus cobra US$ 36 mil para congelar o corpo inteiro; especialistas classificam empresa como “puramente comercial e sem base científica”

Cérebro: empresa oferece congelamento de corpos para caso a ciência descubra forma de reviver os mortos (Arquivo/Getty Images)

Quando a mãe de Alexei Voronenkov faleceu, ele pagou para congelar o cérebro dela e armazená-lo na esperança de que descobertas científicas possam um dia trazê-la de volta à vida.

Ele é um dos 71 cérebros e cadáveres humanos – que a empresa russa KrioRus chama de “pacientes” -que flutuam em nitrogênio líquido em um dos tanques de vários metros de altura em um galpão nos arredores de Moscou.

Eles são armazenados a 196 graus Celsius negativos com o objetivo de protegê-los contra a deterioração, embora atualmente não haja evidências de que a ciência será capaz de reviver os mortos.

“Fiz isso porque nós éramos muito próximos e acho que é a única chance de nos encontrarmos no futuro”, disse Voronenkov, que pretende se submeter ao procedimento, conhecido como criogenia, quando morrer.

O chefe da Comissão de Pseudociência da Academia Russa de Ciências, Evgeny Alexandrov, descreveu a KrioRus como “uma empresa exclusivamente comercial que não possui nenhuma base científica”, em comentários ao jornal Izvestia.

É “uma especulação fantasiosa sobre as esperanças das pessoas em ressuscitar os mortos e sonhos de vida eterna”, afirmou ao jornal.

Valeriya Udalova, diretora da KrioRus, que congelou seu cachorro quando ele morreu em 2008, disse que é provável que a humanidade desenvolva a tecnologia para reviver pessoas mortas no futuro, mas que ainda não há garantia que funcione.

A KrioRus diz que centenas de clientes em potencial de quase 20 países se inscreveram no seu serviço de pós-morte.

Congelar o corpo inteiro custa 36 mil dólares e 15 mil dólares apenas para o cérebro se o cliente for russo. Os preços são um pouco mais altos para estrangeiros.

A empresa diz que é a única do setor na Rússia e região. Criada em 2005, a KrioRus possui pelo menos duas concorrentes nos Estados Unidos, onde a prática existe há ainda mais tempo.

Voronenkov disse que depositou suas esperanças na ciência. “Espero que um dia atinjamos um nível em que possamos produzir corpos e órgãos artificiais para criar um corpo no qual o cérebro de minha mãe possa ser integrado.”

A diretora da KrioRus, Udalova, argumenta que os que pagam para ter os restos mortais de seus parentes preservados estão mostrando quanto os amam.

“Eles tentam ter esperança”, disse ela. “O que podemos fazer por nossos parentes próximos da morte ou por quem amamos? Um bom enterro, um álbum de fotos”, disse ela. “Eles vão além, provando seu amor ainda mais.”

 

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