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quinta-feira, 14/05/2026

Programa Desenrola facilita renegociação, mas não resolve dívidas, alertam especialistas

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JÚLIA GALVÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O novo programa Desenrola tem o objetivo de ajudar famílias com dívidas a aliviar a pressão financeira. No entanto, especialistas avisam que, quando usados isoladamente, os programas de renegociação não garantem que as pessoas sairão das dívidas de forma definitiva. O Desenrola oferece descontos de até 90% em dívidas bancárias e é destinado a quem tem renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105).

Economistas e especialistas em finanças afirmam que o retorno ao endividamento está ligado não apenas aos juros altos, mas também ao hábito crescente de usar crédito para despesas cotidianas e à falta de planejamento financeiro após a renegociação.

“Renegociar uma dívida sem mudar os hábitos financeiros que causaram o problema é como tentar tirar água de um barco com um balde, sem tampar o buraco. O alívio é temporário, mas o problema continua”, explica a especialista em finanças pessoais, Carol Stange.

Segundo Carol, o erro principal é considerar a inadimplência como um problema isolado. O risco de voltar a dever é maior entre autônomos, quem tem renda variável e famílias que passaram por dificuldades como desemprego, doença ou separação, devido à instabilidade financeira.

Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, sugere que o Desenrola deveria incluir etapas de educação financeira para conscientizar sobre o consumo durante a renegociação.

“Se você renegociar e continuar gastando mais do que ganha, vai enfrentar o mesmo problema novamente. É importante reorganizar o orçamento, cortar gastos excessivos e criar uma reserva financeira. Caso contrário, teremos um Desenrola 3.0 em breve”, alerta Domingos.

Reginaldo Nogueira, diretor nacional do Ibmec, aponta que o crescimento da inadimplência está ligado a fatores estruturais, como baixos aumentos salariais reais e juros muito altos. “Muitas pessoas usam cartão e parcelamento não para consumir mais, mas para fechar o orçamento do mês”.

Antes de renegociar, organize o orçamento

Domingos destaca que, antes de fechar qualquer acordo, é fundamental entender se o orçamento permite assumir novas parcelas. “A dívida pode ser uma ferramenta útil, mas o problema é gastar mais do que pode pagar no vencimento”, ele diz.

Isso exige uma revisão detalhada dos gastos para cortar excessos, o que pode incluir mudar serviços contratados e reduzir padrões de consumo.

Carol Stange recomenda consolidar dívidas em linhas de crédito mais baratas, controlar o uso do cartão para valores que podem ser pagos integralmente e automatizar pequenos depósitos mensais para criar uma reserva emergencial.

Ao reorganizar as finanças, especialmente em famílias de baixa renda, é importante priorizar despesas essenciais como moradia, alimentação, energia e água.

Nogueira ressalta que dívidas relacionadas a serviços básicos geralmente têm prioridade na renegociação pelo risco de corte do serviço.

O problema piora quando as pessoas comprometem gastos essenciais para pagar dívidas antigas, caracterizando superendividamento.

Dívidas com garantia real, como financiamentos de imóveis e veículos, também precisam de atenção, pois o atraso pode levar à perda do bem. Depois disso, o foco deve ser o custo dos juros, especialmente do cartão de crédito e cheque especial, que são os mais caros e devem ser renegociados primeiro, explica Carol Stange.

Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, comenta que os juros crescem rápido, e esperar descontos maiores pode não ser a melhor escolha. Muitos consumidores deixam para negociar mais tarde esperando abatimentos maiores, mas podem acabar pagando mais juros.

Ele recomenda quem tem várias dívidas negociar por etapas para não comprometer muita renda em parcelas de renegociações simultâneas.

Educação financeira é fundamental

A nova medida provisória do Desenrola exige que as instituições financeiras participantes destinem pelo menos 1% dos valores garantidos pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO) para ações de educação financeira, que devem ser feitas em parceria com o Ministério da Fazenda em até um ano.

Especialistas veem essa exigência como um dos pontos mais importantes do programa, embora ainda haja dúvidas sobre sua implementação prática. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) apoia a iniciativa, mas afirma que ainda está focada em colocar o programa em funcionamento.

Essas ações podem ajudar consumidores a escolherem linhas de crédito mais adequadas à sua realidade e necessidades.

Reginaldo Nogueira destaca que a medida é positiva, mas falta clareza sobre como os recursos serão aplicados e a avaliação de resultados, o que pode limitar o impacto das ações, deixando-as restritas a material informativo com pouco efeito real.

O mito da dívida que desaparece em cinco anos

Ao falar sobre renegociação, muitas vezes surge a ideia errada de que a dívida some após cinco anos.

Fernando Gambaro, especialista da Serasa em educação financeira, explica que após esse prazo perde-se apenas a negativação do CPF nos órgãos de proteção ao crédito. A dívida continua existindo e pode ser cobrada pela empresa credora, além de dificultar futuras concessões de crédito.

“Ignorar a dívida não a elimina. Só adia o problema para um momento em que você terá menos força para negociar”, conclui Carol Stange.

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