SILVIA FRIAS
CAMPO GRANDE, AL (FOLHAPRESS)
A cerimônia oficial de celebração da ligação da ponte entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta, no Paraguai, chamada de “beijo das aduelas”, foi cancelada devido ao tempo nublado.
Mesmo assim, autoridades dos dois países se encontraram no ponto exato da ponte de 1.294 m sobre o rio Paraguai para marcar o avanço simbólico da Rota Bioceânica, que pode diminuir em até 17 dias o tempo das exportações brasileiras para a Ásia via oceano Pacífico.
Na realidade, olhando as duas pontas da ponte, percebe-se um atraso na obra. Do lado brasileiro, ainda falta construir o acesso de 13,1 km da BR-267 até a ponte, com custo estimado em cerca de R$ 250 milhões, que não está previsto no orçamento. No lado paraguaio, a pavimentação dos 3,8 km até a rodovia PY-15 está em andamento.
O governo brasileiro prevê terminar o acesso em 2027, enquanto o Paraguai espera concluir até novembro deste ano.
Além dos acessos, os governos precisam definir como será realizado o controle aduaneiro unificado, aprovado pelo Paraguai após um ano e meio de negociações. Também é necessário melhorar ou pavimentar estradas no Chile e Argentina, outros países da Rota Bioceânica.
A Rota Bioceânica é uma iniciativa federal que conecta o oceano Atlântico, pelo Porto de Santos, ao Pacífico, através dos portos chilenos de Antofagasta e Iquique.
Esse corredor passa por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, e um dos principais marcos é a construção da ponte sobre o rio Paraguai. Enquanto a ponte não fica pronta, a travessia nessa parte do Pantanal é feita por balsa.
Com a rota pronta, a ideia é agilizar e tornar mais eficiente a saída da produção brasileira para mercados na Ásia e Oceania. Hoje, as cargas exportadas pelo porto de Santos fazem rotas longas ao redor da África ou pelo canal do Panamá, aumentando o tempo e os custos.
A nova rota deve reduzir cerca de 7.000 km e economizar entre 17 e 20 dias no transporte entre Brasil e Ásia.
Os trabalhos concentram-se em terraplenagem e infraestrutura de apoio, com 10,1 km já feitos, conforme o Dnit.
Até agora, 38,1% do projeto foi concluído, incluindo sete obras especiais, como pontes e um viaduto. Duas estruturas estão prontas, e as outras em diferentes estágios.
Do investimento total de R$ 472 milhões, R$ 220,7 milhões já foram empenhados e R$ 184,7 milhões usados. Os R$ 36 milhões restantes vão para terminar as obras especiais. O Dnit pode pedir mais verba conforme o andamento.
Do lado paraguaio, estima-se que 45% a 50% dos trabalhos estejam prontos, segundo João Carlos Parkinson, diplomata brasileiro responsável pelas negociações da Rota Bioceânica.
O Consórcio Binacional PYBRA cuida da construção da ponte e do acesso no lado paraguaio.
René Gomez, engenheiro civil e superintendente da obra, estima que 30% do acesso paraguaio esteja feito, com previsão de conclusão até o fim do ano ou janeiro de 2027.
Parkinson reconhece um pequeno atraso, explicando que os desafios são diferentes, pois o lado brasileiro tem terreno pantanoso que exige mais terraplenagem e custo maior.
Os R$ 251,3 milhões restantes podem vir do Tesouro (via Itaipu Binacional) ou de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
O dinheiro também será usado para o Centro Integrado de Controle da Fronteira (Ciof), onde os dois países farão fiscalização conjunta, acordo fechado este ano.
Erivelto Moyses, superintendente-adjunto da Receita Federal na 1ª Região, destaca que após finalizar os acessos, é preciso focar na construção da Área de Controle Integrado do Ciof, fundamental para comércio exterior e despacho aduaneiro.
Parkinson informa que já há presença da Receita Federal, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal em Porto Murtinho, mas pode faltar pessoal no Ministério da Agricultura e na Anvisa.
Segundo o Dnit, o projeto do Centro Aduaneiro ainda está em adaptação para atender novas demandas das instituições de controle de fronteira.
Condições
Entre 30 de maio e 8 de junho, uma equipe da Receita Federal viajou 4.000 km pela Rota Bioceânica, passando por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, para avaliar infraestrutura, logística e fiscalização.
Moyses aponta que a missão identificou potencial para reduzir custos e tempo, mas encontrou vários desafios a superar.
No Paraguai, as estradas pavimentadas são boas, mas a infraestrutura de aduana e imigração em Carmelo Peralta e Pozo Hondo é precária, com instalações improvisadas. Há trechos sem pavimentação e obras em andamento rumo à Argentina.
O Paraguai também tem estradas com problemas como pontes com limite de peso, falta de acostamento e infraestrutura fraca nas fronteiras.
No Chile, as estradas e portos de Iquique e Antofagasta foram bem avaliados pela capacidade de operação e planos de expansão, mas a travessia da Cordilheira dos Andes exige adaptações logísticas e preparo dos motoristas devido às restrições para caminhões.
