Chegar na ocupação Nova Jerusalém é como voltar no tempo. A primeira rua é a única com meio-fio, que ainda está pintado desde a Copa do Mundo, e apenas oito postes de luz garantem alguma iluminação. O restante é terra vermelha com poeira levantada por veículos e vento. Não existem casas de alvenaria; todas são feitas com madeira, madeirite, papelão, lonas e pedaços de vidro para janelas. Mesmo assim, o local é bem organizado.
A Rua 1 fica próxima à BR-060, perto do Núcleo Rural Vale da Bênção, e as casas são distribuídas com tamanho semelhante, cada uma com um quintal pequeno. A energia elétrica é fornecida por uma fiação pública que passa pelo local, e cerca de 800 famílias vivem ali. A água vem de poços artesianos, mas no passado era levada por caminhões-pipa pagos pelos próprios moradores. Segundo Cícero Eronildo, presidente de uma associação local, a água era de má qualidade, ao ponto de causar a perda de uma gravidez.
Cícero é pastor, líder comunitário e pedreiro, e ele comenta que eles evitam construir casas de alvenaria para não atrapalhar o processo de regularização fundiária, que é demorado. A ocupação começou em 2017, ligada ao Movimento Sem Terra (MST) e batizada inicialmente como “Acampamento Che Guevara”, em homenagem ao guerrilheiro argentino.
Com o tempo, novas famílias chegaram, incluindo a de Fábio Dias, pastor que se mudou para lá em 2019. Em 2022, o nome foi trocado para Nova Jerusalém, refletindo uma inspiração bíblica de orientação neopentecostal e um claro apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro nas últimas eleições.
A luta pela regularização da terra
Após a crise causada pela covid-19, começaram os processos oficiais para regularizar a terra, mas a falta de liderança consistente atrasou os avanços. Uma divisão entre os moradores originou a criação da Associação de Moradores Urbanos e Rurais da BR-060 (Asmob), liderada por Cícero. No começo deste ano, buscaram apoio na Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) e outras instituições.
Foi então que Irany Domingos Gomes apareceu na ocupação, apresentando-se como assessor do deputado distrital Hermeto, oficializado para tratar da regularização fundiária. Desde março, ele organizou os moradores, designou representantes locais e afirmou estar trabalhando para garantir os direitos da comunidade.
No entanto, em maio, surgiram conflitos. Em 9 de maio, Irany usou palavras agressivas contra membros da associação, dizendo que queria que a associação “se foda”, de acordo com relatos e áudios coletados. Ele também reclamou que os moradores buscaram ajuda de outro deputado para resolver a regularização, causando mais tensão.
Nesse mesmo dia, Irany teria mostrado uma arma de fogo na cintura em uma conversa com moradores, o que resultou em um boletim de ocorrência. Uma manifestação foi registrada no Ministério Público, que está acompanhando o caso com sigilo.
Irany confirmou os áudios e disse que armou uma armadilha por suspeitar da formação de grupos criminosos na região, negando que suas ações fossem autorizadas pelo deputado Hermeto.
Desentendimentos e ameaças
A partir daí, a situação só piorou. Irany começou a desqualificar membros da comunidade, como Fábio Dias e Cícero, além de outros envolvidos. Em uma ocasião, um morador ouviu Irany gritar insultos contra o pastor Fábio. O assessor também mencionou possíveis crimes envolvendo as lideranças comunitárias, sem que essas acusações tenham sido confirmadas.
Irany apresentou documentos referentes à regularização das terras, explicando que há entraves judiciais devido à posse dividida entre a Terracap e um fazendeiro.
Em áudios, ele pediu um terreno para si e para um operador de máquinas ligado à Secretaria de Governo, oferecendo melhorias em troca, incluindo combustível para trabalhos no final de semana.
Ele orientou moradores a não pagarem diretamente ao operador e disse que eles poderiam acionar ele se houvesse problemas, afirmando que estava tentando ajudar a comunidade e criticando pessoas que tentam se aproveitar da situação.
Irany informou que o maquinário usado é alugado por contratos oficiais e que o combustível foi obtido legalmente, mas não apresentou documentos que comprovem. Ele também afirmou que muitos moradores não são analfabetos e que enquanto metade precisa de ajuda, outra parte busca benefício próprio.
A Secretaria de Desenvolvimento Social comunicou que a Unidade de Proteção Social (UPS) está fazendo um levantamento sobre a situação da comunidade, com visitas técnicas e velocidade acelerada do processo, prevendo concluir o relatório em 60 dias, podendo prorrogar, para depois repassar às autoridades responsáveis e tomar as providências adequadas.
