FLÁVIO FERREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Com o aumento das ações do crime organizado na Amazônia, a Polícia Federal está criando três novas delegacias em cidades do interior do Amazonas e do Pará. O objetivo é conter a expansão das facções criminosas e combater crimes contra o meio ambiente.
Informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e especialistas em segurança pública mostram que o grupo mais ativo na região é o Comando Vermelho (CV), que faz negócios com traficantes da Colômbia.
As cidades escolhidas para receberem essas delegacias são Tefé (AM), Humaitá (AM) e Itaituba (PA).
O delegado Renato Madsen Arruda, que coordena a Proteção da Amazônia, Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural da PF, diz que a unidade em Tefé (cerca de 520 km de Manaus por avião) terá muito trabalho, principalmente no combate ao tráfico de drogas.
Tefé fica às margens do rio Solimões, uma rota importante para o comércio ilegal de drogas na região, segundo Arruda.
Relatórios da Abin e da Direção Nacional de Inteligência da Colômbia (DNI) apontam que Tefé é estratégico também para a extração ilegal de ouro.
O documento mostra que Tefé e a cidade vizinha Coari têm papel fundamental no transporte de combustíveis e insumos para as áreas de garimpo ilegal.
No município, parte do ouro extraído na região da fronteira com a Colômbia é vendido diretamente, sem registros oficiais.
Além disso, a Abin e a DNI dizem que parte do ouro segue para centros de ‘esquentamento’, como Itaituba, onde é inserido na economia formal com notas fiscais falsas ou irregulares.
Essas agências indicam que Itaituba pode ser ponto de partida para transporte aéreo do ouro para outros estados e países, usando pistas de pouso oficiais ou clandestinas nas redondezas.
Itaituba, a cerca de 1.300 km de Belém, recebe uma delegacia por ser um dos principais pontos de extração e comércio de ouro do país, explica o delegado Arruda.
Conhecida como ‘cidade pepita’, Itaituba é cortada pela BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), e pela rodovia Transamazônica (BR-230), que conecta o litoral do Nordeste ao sul do Amazonas.
Humaitá, a terceira cidade com a nova delegacia, está perto do final da Transamazônica, na vizinha Lábrea, e também é atravessada pela BR-319, que une as capitais do Amazonas e Rondônia.
“Humaitá é uma área de grande importância estratégica, com muitas unidades de conservação, terras indígenas, áreas federais protegidas e o rio Madeira, onde há muita extração de ouro”, afirma o delegado.
Para Melina Risso, diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, uma ONG de segurança pública, a instalação de delegacias na Amazônia é fundamental não só para reprimir o crime e os danos ambientais, mas para esclarecer esses crimes complexos.
Segundo ela, “a operação policial é importante para parar o crime na hora, mas não desmonta a organização criminosa”.
“A chegada dessas delegacias reforça a capacidade de investigação para que os criminosos sejam levados a julgamento e condenados, pois esses crimes são muito complexos”, explica.
Ela destaca que é importante entender essa complexidade para aplicar punições adequadas aos crimes.
Como exemplo de crimes ligados ao ambiental, Melina cita a falsificação de documentos e o pagamento de suborno a fiscais diante do desmatamento ilegal.
Por sua vez, o delegado Arruda menciona o fenômeno da convergência criminal, quando diferentes tipos de crime se unem para obter maiores lucros, como o uso conjunto de aviões por traficantes e garimpeiros ilegais na floresta.
“Vemos um compartilhamento de meios logísticos para crimes diferentes”, comenta.
A Polícia Federal já está comprando equipamentos e veículos para as novas delegacias, que terão pessoal formado nas próximas turmas da academia da instituição, conclui o delegado.

