Apesar dos avanços recentes, o Acre ainda tem uma das menores taxas de vacinação contra o HPV no Brasil. No último ano, a cobertura foi de 59% para meninas e 50% para meninos, ficando abaixo da média nacional, que é de 86% para meninas e 74,5% para meninos.
Essa queda na vacinação está ligada a um episódio de 2017, quando 74 adolescentes no Acre apresentaram sintomas após receber a vacina. A investigação comprovou que a vacina não causou esses problemas, mas o caso teve grande repercussão e gerou muita desinformação.
Renata Quiles, coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, explicou que o número de notificações de possíveis efeitos colaterais subiu de 14 para 127 em seis meses, devido ao medo da população. Doze jovens com sintomas mais sérios foram avaliados na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e os especialistas identificaram que dois irmãos tinham epilepsia genética e os outros apresentavam crises psicogênicas, que são respostas físicas ao estresse.
Especialistas e entidades médicas afirmam que essas reações não têm relação direta com a vacina. No entanto, Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, ressaltou que o movimento antivacina aproveitou o caso para espalhar medo, além da resistência de alguns pais que associam a vacina ao estímulo de sexualidade precoce, agravando o problema.
O impacto negativo foi maior entre os adolescentes, que em 2018 e 2019 tiveram uma baixa procura, com menos de 10% se vacinando no estado. Renata Quiles destacou que a investigação oficial não teve a mesma divulgação da desinformação, dificultando a recuperação da confiança da população.
Desde então, profissionais de saúde e gestores têm adotado medidas para melhorar a cobertura vacinal. Entre as ações estão treinamentos para os profissionais de saúde, incluindo aqueles que atendem comunidades indígenas e isoladas, além de capacitação em comunicação para reduzir a hesitação sobre a vacina.
Em Porto Walter, cidade próxima ao Peru, a vacinação chegou a 72% das meninas e 68% dos meninos em 2025. O coordenador de Imunizações, Anderson Cleiton Baraúna, destacou iniciativas nas escolas e o projeto Cinema da Imunização, que oferecia ingressos para adolescentes vacinados assistirem a filmes, imunizando mais de 200 jovens com essa estratégia.
Especialistas afirmam que os efeitos da desinformação podem ser superados, mas é necessário tempo e a combinação de várias estratégias. A vacinação contra o HPV é essencial para prevenir diversos tipos de câncer relacionados ao vírus.
Um estudo recente indicou que os cânceres vinculados ao HPV causam cerca de 7.500 mortes por ano no Brasil. O câncer do colo do útero, o mais comum, deve registrar cerca de 19 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028, e o Acre está entre os cinco estados com maior incidência.
A vacina oferecida pelo SUS protege contra quatro tipos do vírus, incluindo os tipos 16 e 18, que têm maior risco. Além disso, o Ministério da Saúde mantém o programa de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não receberam a vacina na idade indicada, com mais de 217 mil jovens imunizados até o momento.

