TULIO KRUSE
FOLHAPRESS
Uma empresa está sendo investigada por suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master na venda de carteiras de crédito ao BRB (Banco de Brasília). Essa empresa é mencionada no inquérito que apura indícios de lavagem de dinheiro envolvendo o artista Ryan Santana dos Santos, conhecido como MC Ryan, e seus parceiros do meio artístico, que são suspeitos de ligação com o crime organizado Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Polícia Federal informou que a empresa Cartos Sociedade de Crédito Direto SA forneceu tecnologia bancária para uma firma envolvida na lavagem de dinheiro oriundo de apostas ilegais, falhando em verificar adequadamente os dados dos clientes.
Além disso, a Cartos está sob investigação em duas operações: Compliance Zero e Sem Desconto, que apuram suspeitas relacionadas ao Banco Master e descontos indevidos no INSS. A menção à Cartos no inquérito da Operação Narco Fluxo, que investiga MC Ryan, foi inicialmente divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Folha.
A Cartos é uma fintech que firmou contrato com a Broker Platinum, uma corretora que alegou ser autorizada para atuar no mercado de títulos e valores mobiliários, com capital social de R$ 10.000. Contudo, segundo a PF, essa corretora é de fachada e integrada a uma rede que movimenta dinheiro proveniente de apostas ilegais.
Os investigadores afirmam que a Cartos pode ter agido com negligência ao firmar contrato com a Broker Platinum, pois ela não é autorizada pelo Banco Central ou pela Comissão de Valores Mobiliários para exercer essa atividade, e possui capital considerado muito baixo.
A Cartos enviou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) um relatório sobre a Broker Platinum que foi considerado superficial e contraditório.
A PF declarou que a falsidade das informações poderia ser facilmente detectada por uma consulta pública ao Banco Central, e que a Cartos falhou gravemente nos procedimentos de Conhecimento do Cliente (KYC), aceitando dados claramente incorretos e incompatíveis.
A Cartos, em nota, disse não ter conhecimento de investigações ou buscas relacionadas ao caso, e negou qualquer vínculo com atividades ilícitas, repudiando as acusações.
Na Operação Narco Fluxo, a Broker Platinum aparece como parte de um grupo que processa pagamentos de alto risco, fornecendo conta bancária intermediária para movimentação de dinheiro e facilitando a pulverização dos pagamentos para dificultar a fiscalização.
A Broker foi criada em novembro de 2023 e, segundo a PF, recebeu grandes volumes de depósitos de vítimas de golpes digitais, que eram depois repassados em parcelas para empresas ligadas a MC Ryan. Um relatório do Coaf indicou que um assessor próximo ao artista recebeu R$ 100 mil em dois meses da Broker.
O advogado do artista, Felipe Cassimiro, afirma que todos os pagamentos recebidos por MC Ryan são legais e comprovados, e que sua posição como principal artista do funk brasileiro explica os altos valores recebidos.
A Defensoria Pública da União, representando uma sócia da Broker Platinum presa recentemente, afirmou que não poderia comentar em nome dela, que já possui advogado particular.
Caso Master
No caso Master, a Cartos está envolvida na operação de venda de carteiras de crédito para o banco de Daniel Vorcaro. Documentos mostram que a Cartos firmou acordo com a consultoria Tirreno para essa transação. Henrique Souza e Silva Peretto, ex-sócio da Cartos e fundador da Tirreno, também foi alvo de prisão temporária.
Reportagem da Folha mostrou que a Tirreno usou a estrutura da Cartos para essa operação, mas depoimento de Vorcaro à PF indica que a Cartos negou ter cedido as carteiras, levantando suspeitas de que os créditos envolvidos seriam falsos.
A fintech afirmou que mantém controles rigorosos de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, além de robustas políticas de governança e gestão de riscos, garantindo segurança jurídica e operacional a seus parceiros e ao mercado.
Sobre o contrato com a Broker Platinum, a Cartos declarou não ter conhecimento de uso ilícito de contas e se considera possível vítima no caso.
