PEDRO S. TEIXEIRA
FOLHAPRESS
Kalshi, Polymarket e outras empresas que operam no chamado mercado de apostas previsto, conhecidas por oferecer apostas sobre eleições, esportes, reality shows e personalidades, foram bloqueadas pelo governo federal na última sexta-feira (24).
A seguir, explicamos de forma simples o que é esse mercado de apostas previsto e o motivo pelo qual esses sites foram proibidos no país.
Como funciona o mercado de apostas previsto
Essas empresas vendem contratos do tipo “sim ou não” sobre acontecimentos reais. É possível apostar em resultados de jogos de futebol, finais de reality shows, casamentos de famosos e até eleições. Quem acerta o palpite recebe um pagamento; quem erra, perde o valor apostado.
Essas companhias afirmam que o pagamento para quem acerta é baseado nos valores investidos, funcionando de forma semelhante à Bolsa de Valores. Os contratos podem ser negociados a qualquer momento.
Elas ganham dinheiro cobrando taxas sobre as vendas dos contratos, pelo tráfego em seus sites e pela venda de dados estatísticos obtidos com as apostas.
Diferença entre esse mercado e as apostas comuns
As casas de apostas afirmam que não há muita diferença entre o mercado de apostas previsto e as apostas tradicionais, e têm pedido regulações específicas desde o início do ano.
Nos dois casos, as pessoas apostam em acontecimentos, ganhando dinheiro se o palpite estiver certo. A diferença está nos contratos e na forma de cobrar taxas.
Nas apostas comuns, o valor pode ser fixo ou variar conforme o mercado, enquanto no mercado previsto a cobrança de taxa nem sempre ocorre, pois as empresas têm outras fontes de receita.
O tamanho do mercado
O setor movimentou cerca de US$ 51 bilhões em 2025 e ganhou destaque oferecendo apostas nas eleições americanas de 2024 entre Donald Trump e Joe Biden. Ele se expandiu para esportes, criptomoedas, personalidades e eventos relacionados a conflitos.
A consultoria Bernstein projeta que o mercado pode crescer para até US$ 1 trilhão em fluxo de dinheiro até 2030, impulsionado por empresas como Kalshi e Polymarket, que anunciaram expansão para mais de 140 países, inclusive o Brasil.
Bloqueios em outros países
Usuários de 53 países já não podem acessar esses mercados, geralmente em nações que regulam apostas e bloquearam o acesso a sites sem licença local.
Exemplos:
- Reino Unido: exige licença da Gambling Commission.
- França: bloqueou a Polymarket por não ter autorização.
- Itália e Austrália: restringem sites offshore sem representação legal.
Principais empresas
Kalshi e Polymarket são as maiores, avaliadas em US$ 22 bilhões e US$ 15 bilhões respectivamente, fundadas por jovens empreendedores.
Kalshi recebeu US$ 1 bilhão em investimentos e é líder do setor, adaptando-se às regulações nos EUA.
Polymarket captou US$ 400 milhões recentemente e cresceu rapidamente.
No Brasil, outras 26 empresas menores foram bloqueadas pelo governo.
A XP Investimentos fez uma parceria com a Kalshi para vender contratos ligados a economia, como desemprego ou inflação, mas essa atividade está legalizada apenas via plataforma da XP.
Como funcionavam as apostas no Brasil
As empresas atuavam sem regulamentação, usando remessas internacionais para contas nos EUA.
Brasileiros enviavam dinheiro através de criptomoedas e cartões internacionais. A Polymarket tinha uma página dedicada ao Brasil no Instagram.
Assim, o público era limitado a quem tinha acesso a criptomoedas ou contas globais.
Motivos do bloqueio
O Ministério da Fazenda entendeu que o mercado de apostas previsto funciona como as apostas comuns e, portanto, deve seguir suas regras,
incluindo o pagamento de outorga e restrições sobre temas permitidos.
Kalshi e Polymarket não pagaram as taxas exigidas nem respeitaram regras contra vício em jogo.
As empresas anunciavam a possibilidade de lucro, o que é proibido.
A legislação brasileira determina que as apostas usem Pix para pagamentos, evitando endividamento e lavagem de dinheiro, mas as plataformas não cumpriam isso.
Além disso, apostas sobre temas políticos devem ser supervisionadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, que já removeu sites similares.
Problemas com vício em apostas
Nos EUA, onde o mercado começou, há casos de vício e endividamento, similar ao que ocorre em cassinos online.
Especialistas estimam que 2% a 3% dos usuários desenvolvem problemas graves de comportamento.
Um estudo do National Council on Problem Gambling revelou que 52% dos apostadores tentam recuperar perdas com novas apostas, um comportamento característico do vício.
Como fica a fiscalização
A decisão do governo define claramente quem fiscaliza cada tipo de aposta, segundo o advogado Leonardo Henrique Roscoe Bessa, especialista em apostas e consultor do Conselho Federal da OAB.
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda irá supervisionar apostas esportivas e cassinos virtuais.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) irá fiscalizar derivativos financeiros como índices econômicos e eventos climáticos que impactam setores como o agronegócio.
