Apesar de alguns avanços recentes no mercado de trabalho, como a redução do desemprego e o aumento da renda para vários trabalhadores, as jovens mulheres negras ainda enfrentam os piores índices em várias áreas, incluindo desemprego, trabalho informal, desistência de buscar emprego e baixos salários.
Esses dados são de um estudo realizado pela Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), usando informações da pesquisa PNAD Contínua 2025 do IBGE, que analisa o mercado de trabalho no Brasil.
Mesmo com melhorias na educação e na renda, existem ainda diferenças profundas no mercado de trabalho para mulheres negras entre 14 e 29 anos.
Para as jovens de 14 a 17 anos, o desemprego entre mulheres negras chega a 24,7%, que é 1,4 vez maior do que o desemprego entre homens brancos da mesma idade. Entre 18 e 24 anos, quando ocorre a transição da escola para o trabalho, essa desigualdade aumenta, chegando a 16,5% de desemprego para as mulheres negras, 1,6 vez maior que a dos homens brancos.
Já entre 25 e 29 anos, a taxa de desemprego para mulheres negras é de 10,3%, quase o dobro da taxa para mulheres brancas e 2,8 vezes maior que a dos homens brancos.
“O mercado de trabalho melhorou, mas não da mesma forma para todas as pessoas. Isso mostra que o problema não é só o acesso à educação, mas também estruturas que continuam excluindo, como o racismo, discriminação nas contratações, desigualdade de acesso a oportunidades e a sobrecarga do trabalho de cuidados,” explica Shirley Santos, coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert.
Ela destaca ainda que morar em áreas periféricas dificulta ainda mais o acesso a empregos, devido a problemas com transporte, infraestrutura e redes de contato.
Diferença na renda e no trabalho formal
Essa desigualdade também aparece na renda e no acesso a empregos formais. Em 2025, a renda média das mulheres negras foi apenas 46,5% da renda dos homens brancos, uma diferença que tem se mantido nos últimos anos.
A informalidade entre jovens mulheres negras é de 39,1%, cerca de 10% maior que entre jovens brancas. Já os jovens homens negros têm a maior informalidade, de 44,2%.
Além disso, as mulheres negras representam 38,7% dos jovens que desistem de procurar emprego, enquanto os homens negros são 36,1%. Entre mulheres negras de 25 a 29 anos, esse número sobe para 44,2%.
Na Região Metropolitana de São Paulo, as diferenças se mantêm: jovens mulheres negras ganham em média R$ 2.236, contra R$ 3.926 dos homens brancos. Entre 25 e 29 anos, a renda média é de R$ 2.569 para mulheres negras e R$ 5.323 para homens brancos.
Shirley Santos complementa que os dados quantitativos mostram parte das desigualdades, mas a experiência das organizações sociais também ajuda a entender os impactos do racismo institucional e exclusão diária que muitos enfrentam.
Políticas públicas além das cotas
O estudo aponta que, apesar das cotas raciais serem importantes, elas não são suficientes para resolver as desigualdades na velocidade necessária.
Para Shirley Santos, é fundamental implementar políticas estruturais que garantam permanência, mobilidade social, proteção social e acesso a cargos de liderança.
Entre as boas práticas estão:
- Programas de cotas raciais e sociais no ensino superior e concursos públicos;
- Iniciativas para apoiar estudantes em sua permanência nos estudos;
- Ampliação do acesso a creches e políticas de cuidado;
- Programas de qualificação profissional voltados para jovens negras;
- Metas de diversidade e inclusão no setor privado;
- Fortalecimento da educação sobre questões étnico-raciais;
- Políticas específicas para regiões periféricas urbanas;
- Incentivos para formalização do trabalho;
- Programas de transferência de renda associados à inclusão produtiva.
Além disso, políticas públicas de reparação e financiamento para essas iniciativas são essenciais, segundo a coordenadora.
“Para enfrentar as desigualdades raciais é preciso investimento público, comprometimento institucional e participação social. Uma transição justa no trabalho, educação ou meio ambiente só será possível combatendo as desigualdades estruturais da sociedade brasileira”, conclui Shirley Santos. As informações são da Agência Brasil.

