LUIS EDUARDO DE SOUSA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Em 1981, o Brasil vivia momentos importantes como o fim da ditadura militar e a abertura política, enquanto figuras como Pelé e Silvio Santos marcavam o cenário esportivo e televisivo. No entanto, uma notícia preocupante surgiu na área da saúde: em 5 de junho daquele ano, foi identificada nos Estados Unidos o início de uma epidemia de Aids, que afetaria o Brasil pelos 45 anos que se passaram até hoje.
Desde 1982, quando o HIV chegou ao país, 1,6 milhão de brasileiros conviveram com o vírus, dos quais 1,1 milhão desenvolveram Aids, conforme dados do DataSUS. Até o final de 2024, 402 mil pessoas já faleceram em decorrência da doença.
Personagens famosos como Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo tiveram suas vidas abreviadas pelo vírus. No último ano, houve 25.571 novas infecções e 9.157 mortes por Aids no Brasil.
Antigamente vista como uma sentença de morte, a Aids hoje conta com tratamentos que prolongam a vida e melhoram a qualidade dos pacientes. Apesar disso, o preconceito permanece um desafio importante, segundo o infectologista Alvaro Costa, do Hospital das Clínicas.
Ele destaca que, embora a Aids seja atualmente uma doença crônica com remédios disponíveis gratuitamente no SUS, o estigma social continua forte, fazendo com que muitas pessoas escondam sua condição por medo e julgamento.
O preconceito dificulta ainda discussões sérias sobre avanços e tratamentos, diferentemente do câncer, por exemplo, onde o tema é mais aberto.
Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2025, o governo Trump prejudicou programas voltados à prevenção e tratamento do HIV, evidenciando retrocessos ligados a políticas conservadoras.
Apesar dos desafios, a medicina tem avançado. Hoje, o tratamento pode ser feito com um único comprimido diário que reduz a carga viral a níveis indetectáveis, prevenindo a transmissão.
Outro avanço foi a introdução da PrEP (profilaxia pré-exposição) em 2017 pelo SUS, que protege pessoas sem HIV, mas com maior risco de infecção, reduzindo a chance de contágio em 99% quando usada corretamente.
Segundo Alvaro Costa, o acesso a esses recursos ainda é desigual no Brasil, com melhores serviços nas grandes cidades e carências no interior e regiões menos favorecidas.
Vando Oliveira, diagnosticado com Aids em 1998, testemunhou essas mudanças e ressalta que o preconceito persiste e que a doença não deve ser ignorada.
Para ele, muitas pessoas vivem vulneráveis, principalmente as que são pobres, negras e de áreas periféricas, enfrentando também dificuldades básicas como a fome, o que dificulta o tratamento.
Vando Oliveira destaca que houve uma certa acomodação nas políticas públicas, causada pela percepção errada de que a Aids não é mais um perigo devido aos avanços nos tratamentos.
Mesmo tomando remédios diariamente e vivendo bem, ele alerta que ainda há quem não tenha acesso a medicamentos, refletido no número anual de mortes, algo que o Estado não deve permitir.
O boletim epidemiológico de Aids de 2025 revela que a taxa de mortes por 100 mil habitantes caiu para 3,4 em 2024, a menor da história, com uma redução de 12,8% em relação ao ano anterior.
O perfil das pessoas infectadas mudou, com a epidemia atualmente concentrada mais em homens, em uma proporção de 28 para 10 mulheres. Pretos e pardos correspondem a quase 60% dos novos casos, e o número de pessoas com HIV acima de 60 anos cresceu 46,2% na última década.

