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sexta-feira, 05/06/2026

Guerra e El Niño devem aumentar inflação dos alimentos para 7%

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LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Especialistas em economia elevaram as previsões para o aumento dos preços dos alimentos no Brasil em 2026. Esse ajuste para cima está relacionado à guerra no Irã e ao possível impacto do fenômeno climático El Niño no segundo semestre do ano.

De acordo com pesquisas feitas por instituições financeiras consultadas pela Folha de S.Paulo, espera-se um aumento superior a 7% nos custos dos alimentos consumidos em casa ao longo de 2026.

“Estamos enfrentando uma combinação de vários fatores que elevam a inflação dos alimentos”, explica o economista-chefe do grupo CVPAR, Marcelo Fonseca.

Essa previsão indica uma forte aceleração em comparação a 2025, quando a inflação dos alimentos em domicílio foi de 1,43%. Se confirmada, essa será a maior alta desde 2024, que teve elevação de 8,23%.

Os alimentos consumidos em casa fazem parte do índice oficial de inflação do país, o IPCA, calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O aumento previsto para os preços dos alimentos é maior do que para a inflação geral.

Conforme o boletim Focus do Banco Central, o mercado financeiro projeta uma inflação de 5,09% para os próximos doze meses, número que tem subido nas últimas semanas.

O economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, afirma: “A alimentação vai acelerar significativamente, principalmente porque os preços ficaram mais baixos na segunda metade de 2025, e agora isso não deve se repetir.”

Nos últimos doze meses até abril, a inflação dos alimentos em casa foi de 1,34% segundo o IPCA.

Romão prevê que em dezembro de 2026 a alta alcance 7,7%, mais que o dobro do que ele esperava no início do ano.

Antes do início da guerra no Irã, em 27 de fevereiro, a previsão era de um aumento de 3,7% para os alimentos no domicílio.

O conflito aumentou o preço do petróleo, elevando os custos dos combustíveis, como o diesel, importantes para o transporte dos alimentos.

Além disso, o preço dos fertilizantes subiu por causa do bloqueio do Estreito de Hormuz, tornando a próxima safra mais cara.

“A guerra encareceu o transporte e pode atrapalhar o comércio”, comenta o economista Rodolpho Sartori, da agência Austin Rating, que agora projeta uma alta de 7% para os alimentos em 2026.

“Além disso, o El Niño pode ser muito forte, o que justifica as revisões das previsões”, acrescenta.

Evento Climático

O El Niño acontece quando a temperatura do Oceano Pacífico na linha do Equador fica anormalmente alta, alterando o padrão das chuvas, o que prejudica a agricultura.

Esse fenômeno geralmente provoca seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e chuvas intensas no Sul. A possibilidade de um El Niño intenso no segundo semestre está crescendo nas previsões.

Fonseca estima que a alta dos preços dos alimentos chegue a cerca de 8% em 2026, contra 4,5% a 5% no começo do ano. “É uma grande mudança em relação ao ano passado.”

Os preços dos alimentos foram fortemente pressionados durante a pandemia, chegando a uma inflação de 18,15% em 2020.

Desde então, houve apenas um ano de queda, em 2023 (-0,52%), quando a safra aumentou ajudando a reduzir os preços.

De 2020 a 2025, a inflação média anual dos alimentos foi de 8,13% pelo IPCA. “Os alimentos ficaram muito mais caros e não voltaram a níveis anteriores”, destaca Sartori.

Possível Impacto nas Eleições

Fonseca acredita que a inflação alta e o aumento das dívidas das famílias devem ser usados pela oposição ao presidente Lula para criticar o governo nas eleições.

Os aliados do presidente, por sua vez, destacam os bons indicadores econômicos, como crescimento do PIB, recuperação do emprego e redução da pobreza.

O aumento do preço dos alimentos afeta especialmente as famílias de baixa renda, pois elas gastam uma parte maior do orçamento com itens básicos.

Em 2022, ano da eleição que venceu Lula, a inflação dos alimentos em casa foi de 13,23%, um dos motivos apontados para a derrota do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a inflação pode prejudicar o governo Lula, mas não vê uma crise severa capaz de decidir as eleições sozinha.

Vale agora prevê alta de 7,5% para os alimentos em 2026.

“A inflação geral foi impactada pela guerra e esses efeitos podem continuar por um tempo, pois o cenário ainda não está resolvido.”

Hortifrúti Sob Ameaça do El Niño

O economista Lucas Barbosa, da gestora AZ Quest, espera que os preços dos alimentos consumidos em casa subam 7,4% em 2026, frente a uma previsão inicial de 2% no começo do ano.

“O cenário é muito difícil por causa do El Niño”, afirma Barbosa.

Essa alta está próxima da média histórica, mas é bem maior que o centro da meta de inflação de 3% para o IPCA total, definida pelo Banco Central.

“O impacto para cada consumidor varia conforme a sua cesta de consumo, que é muito pessoal”, ressalta.

Desde 1995, a inflação anual dos alimentos tem sido, em média, 6,69% pelo IPCA.

Produtos de hortifrúti serão bastante afetados pelo El Niño, já que têm ciclos de produção curtos e os aumentos de preços acontecem rapidamente.

Para 2026, Barbosa prevê aumentos expressivos: 90,7% na cenoura, 53,5% no tomate, 38% na batata-inglesa e 32,2% na cebola.

Outros alimentos com forte pressão são feijão (34,3%), leite (14,8%) e carne bovina (12,9%).

Por outro lado, os preços do café devem cair 12,3% em 2026, trazendo algum alívio após altas nos últimos dois anos.

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