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Brasil ganha associação para pesquisar vida fora da Terra

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A Sociedade Brasileira de Astrobiologia reúne cientistas de todo o país para estudar a origem dos seres vivos no nosso planeta e espaço a fora

Com a descoberta de milhares de exoplanetas nos últimos anos, cientistas seguem suas pesquisas em busca de uma resposta definitiva à dúvida que atormenta a humanidade: estaríamos sozinhos no universo? (JPL-Caltech/Nasa)

Com a descoberta de milhares de exoplanetas nos últimos anos, cientistas seguem suas pesquisas em busca de uma resposta definitiva à dúvida que atormenta a humanidade: estaríamos sozinhos no universo? (JPL-Caltech/Nasa)

O Brasil acaba de ganhar mais um nome para sua lista de associações científicas — a Sociedade Brasileira de Astrobiologia (SBA). O anúncio foi feito nesta quarta-feira, em cerimônia realizada durante a XLI Reunião da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB). A astrobiologia, área relativamente recente da ciência que estuda a origem e evolução da vida dentro e, principalmente, fora da Terra, é um tema crescente no universo de pesquisas sobre espaço e cosmos. Segundo o presidente da nova associação, Eduardo Janot Pacheco, do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (USP), nesse cenário, a SBA tem como objetivo reunir pesquisadores da área para facilitar o desenvolvimento de projetos conjuntos, viabilizar a troca de experiências e ajudar a conseguir bolsas e recursos para financiar pesquisas.

“Já temos pelo menos 100 pessoas ou mais trabalhando com astrobiologia no Brasil”, disse Janot a VEJA, adicionando que a fundação da SBA veio da necessidade de organizar e difundir o conhecimento que estava sendo produzido. “Além disso, todos os países desenvolvidos têm uma sociedade para pesquisa em astrobiologia. Nós estamos tirando esse atraso.” Entre os objetivos da associação, o presidente destaca que pretende criar um programa de pós-graduação em astrobiologia — que ainda não existe, apesar do crescente número de estudos na área –, mapear e catalogar iniciativas de ensino do tema em todo país e ajudar associados a conseguir o financiamento necessário para suas pesquisas.

Janot destaca que a astrobiologia se tornou popular nos últimos anos principalmente por causa do grande número de descobertas (agora já na casa dos milhares) de exoplanetas espalhados pela Via Láctea. As principais pesquisas tentam comprovar se algum desses “novos mundos” teria os ingredientes necessários para abrigar vida extraterrestre. “Não estamos em busca de ‘homenzinhos’ verdes. Mas é possível que na primeira expedição tripulada a Marte, por exemplo, planejada para 2020, encontremos no subsolo seres vivos muito parecidos às bactérias que vemos em algumas partes do nosso planeta.” Para ele e para um número cada vez maior de pesquisadores, é apenas uma questão de tempo até que as primeiras formas de vida fora da Terra sejam descobertas, especialmente para além do sistema solar.

Vida extraterrestre

Um dos pesquisadores que tenta desvendar esse mistério é o astrônomo Douglas Galante, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, no interior de São Paulo. Desde 2011, ele e sua equipe investigam a possibilidade de Europa, uma das principais luas de Júpiter, ser habitável. A princípio, estudos anteriores já haviam indicado a existência de um oceano sob a superfície de gelo do astro — a água em estado líquido é condição essencial para a existência de vida. A isso soma-se o fato de que Europa possui uma temperatura e uma pressão adequadas para abrigar um ser vivo, apesar de não estar na “zona habitável” do Sol. Mas, mesmo com todos esses indícios, Galante só se convenceu de que, talvez, a lua pudesse sustentar vida em seu interior ao observar um grupo de pequenas bactérias (Desulforudis audaxviator), encontradas a 2,8 quilômetros abaixo do solo em uma mina de ouro na África do Sul.

Esses minúsculos microrganismos viviam em um ambiente tão inóspito que eram a única forma de vida encontrada no local. “Essas bactérias estavam vivendo isoladas lá, talvez por milhões de anos”, disse o pesquisador. A uma distância tão abaixo da superfície, não há luz nem oxigênio suficientes para praticamente qualquer ser vivo sobreviver — mas, para esses pequenos micróbios, nada disso é necessário. Como todos os extremófilos, eles conseguem viver em condições extremamente adversas. Essas bactérias, em especial, se alimentavam de materiais derivados da desintegração radioativa de minerais nas rochas que estavam no local.

Foi então que Galante percebeu que a energia radioativa presente em Europa talvez pudesse servir para sustentar microrganismos como a D. audaxviator. Para testar sua hipótese, ele desenvolveu um estudo teórico que calculava a quantidade de energia necessária para manter as bactérias e comparava com dados da quantidade de energia que a lua de Júpiter teria a oferecer. Com isso, ele avaliou a capacidade de carga daquela espécie naquele ambiente — ou seja, quantos microrganismos aquele meio seria capaz de suportar, pensando em número de células por quilo de rocha — e descobriu que Europa teria as condições mínimas para ser considerada habitável. O que não significa que já existem bactérias vivendo lá.

“Europa parece ter as condições necessárias para sustentar vida”, diz Galante. “Isso é importante tanto para a busca de vida em outros planetas quanto para a compreensão de como os seres vivos surgiram aqui na Terra. Provavelmente, os primeiros organismos eram muito parecidos com esses que estamos estudando e surgiram em condições muito parecidas às observadas na mina em que estavam.”

Pesquisas na Terra

Assim como o estudo de Galante, muitas pesquisas na área de astrobiologia utilizam microrganismos e habitats extremos encontrados na Terra para fazer suas investigações. Além de ser uma saída mais barata, os ambientes inóspitos que encontramos no nosso planeta mimetizam com suficiente precisão as condições encontradas em outros astros, possibilitando estudos mais aprofundados do que os que seriam feitos à distância, por meio de sondas ou espaçonaves. Com tantos avanços na ciência nas últimas décadas, a descoberta de que não estamos sozinhos no universo é apenas questão de tempo.

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Ciência

Mesmo sem vacina, covid-19 deve retroceder nos próximos anos, diz estudo

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Universidade de Princeton analisou 4 cenários diferentes e, embora 2020 seja o pior ano em todos eles, tudo depende de como o vírus será administrado

Coronavírus: quatro cenários analisam possíveis futuros da pandemia (Chris Clor/Getty Images)

Um estudo da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, tenta prever, com base em diferentes níveis de imunidade de rebanho e vacinação, como serão os próximos anos em quatro diferentes cenários da pandemia do novo coronavírus. Embora a pesquisa mostre que 2020 tem tudo para ser o pior ano em termos de infecção, os próximos cinco anos podem ser tão complicados quanto dependendo de como o vírus for administrado — mesmo assim, as projeções são mais otimistas.

Segundo a universidade, tanto a imunidade induzida por uma vacina quanto a natural serão fatores essenciais para definir como a covid-19 será no futuro e que “uma vacina que induz uma resposta imune forte pode reduzir substancialmente a infecção nos próximos anos”.

Sem uma vacina, no entanto, até 2025 teremos períodos de incerteza e altos picos de contaminação. “No curto prazo, e durante a fase de pandemia, as intervenções não-farmacêuticas, como usar máscaras e praticar o distanciamento social, serão essenciais para diminuir as infecções. No entanto, o papel da imunidade vai aumentar conforme olhamos para o futuro”, afirmou Chadi Saad-Roy, coautor do estudo, em comunicado publicado no site oficial de Princeton.

Basicamente, o que acontece é que, sem uma vacina, a população mundial está totalmente dependente de iniciativas como as citadas acima. Depois da aprovação de uma vacina, no entanto, os papéis serão invertidos e ela se tornará mais importante do que usar máscaras e praticar o distanciamento social. Mas essa não é, ainda, a situação que vivemos.

“No curto prazo, e durante a fase de pandemia, as intervenções não-farmacêuticas como usar máscaras e praticar o distanciamento social serão essenciais para diminuir as infecções”, afirma Chadi Saad-Roy, coautor do estudo

Ainda não se sabe exatamente quanto tempo dura a imunidade natural do novo coronavírus, e os cientistas levaram isso em conta na hora de estabelecer seus modelos. Os estudos publicados até o momento sobre o assunto divergem — exatamente pelo vírus ainda ser “novo”.

Uma pesquisa sobre a resposta do sistema imune em relação à covid-19 aponta que, mesmo sem a produção de anticorpos contra o vírus, um indivíduo pode produzir células capazes de destruir a doença em casos de reinfecção — os chamados linfócitos T, células reativas que ajudam o organismo na defesa de infecções.

O estudo encontrou linfócitos T “robustos” em casos de pessoas que tiveram quadros leves, graves ou assintomáticos da covid-19. Segundo os pesquisadores suecos, a memória das células do corpo humano são prováveis de “desenvolver uma proteção imune duradoura ao vírus”, mesmo quando as pessoas não produzem anticorpos contra a doença. Para chegar a essa conclusão, foram analisados os casos e amostras sanguíneas de 206 moradores da Suécia.

Outra pesquisa, feita com base em um vírus semelhante por pesquisadores de Singapura, informa que a proteção contra o vírus podem ser “lembrada” por anos pelo organismo humano. As células T, por exemplo, ainda estão ativas contra o vírus Sars (também da família coronavírus) 17 anos depois da infecção.

É exatamente por isso que, para os autores do estudo de Princeton, é preciso monitorar os níveis de imunidade populacional para o SARS-CoV-2, bem como as infecções ativas, uma vez que isso pode ajudar a entender melhor como será a incidência da doença nos próximos anos.

Entenda os quatro cenários observados
Cenário A: no primeiro cenário analisado pela universidade, sem uma imunidade duradoura e sem vacina, teremos picos de casos em todos os anos ao longo dos próximos cinco anos. Também é observado que quem não foi infectado será, apesar de a imunidade natural aumentar até 2025, mas, a partir de 2022, as infecções secundárias serão mais comuns — e ainda mais graves.

Cenário B: o segundo cenário, com uma imunidade mais duradoura, redução da gravidade de infecções secundárias e sem vacina, o pico da doença acontecerá somente em 2020, mas a curva achatará em breve. Tanto os níveis de imunidade parcial quanto os de imunidade natural serão mais altos e novas infecções tendem a desaparecer a partir de 2023.

Segundo os autores do estudo, é preciso monitorar os níveis de imunidade populacional para o SARS-CoV-2, bem como as infecções ativas

Cenário C: o terceiro cenário, com imunidade natural de curto prazo, gravidade aumentada da doença por infecções secundárias, mas com uma vacina capaz de induzir uma imunidade temporária, mostra que os casos tendem a cair nos próximos anos, com diminuição expressiva em 2025. A imunidade por vacinação aparece menos neste cenário, mas a parcial e a natural seguem em níveis altos e as infecções secundárias devem atingir um nível alto daqui a 3 ou 3,5 anos.

Cenário D: o quarto cenário é o melhor dos mundos. Com uma imunidade natural duradoura, redução da gravidade de infecções secundárias e com uma vacina capaz de induzir uma resposta imune de longo prazo, a curva de infectados não volta a subir nos próximos cinco anos e a gravidade do novo coronavírus fica em 2020 e as três imunidades (natural, parcial e por meio de vacina) atingem seus níveis mais altos em 2025.

Quão eficaz uma vacina precisa ser?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia. Para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social. Mas não é tão simples assim.

Isso porque a eficácia de uma vacina é diretamente proporcional a quantidade de pessoas que a tomam, ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da covid-19.

Embora otimistas, projeções dependem da forma que o vírus for administrado nos próximos anos

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que 75% da população mundial esteja vacinada.

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacinas têm sido testados para a luta contra o vírus. Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo. Por isso, vacinas do tipo tem um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças. É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano. A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

Como estão as 9 potenciais?

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais. Por aqui, 9 mil profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 15 mil voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de mil pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença. As fases dois (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e três de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho. O teste vai incluir 30 mil pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa. A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Pfizer e BioNTech: a vacina agora também está na fase três de testes e também usa o RNA mensageiro, que tem como objetivo produzir as proteínas antivirais no corpo do indivíduo. A expectativa é testar a vacina em aproximadamente 30.000 voluntários com idades entre 18 e 85 anos no mundo. Desse total, 1.000 serão testados no Brasil. Se tudo der certo, a expectativa é que a eficácia da vacina seja comprovada até o outubro. A empresa espera produzir até 100 milhões de doses até o fim do ano. Outras 1,3 bilhão de doses podem ser fabricadas no ano que vem.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a covid-19. A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus e é por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima. Na última segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo e, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados. No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Pesquisa aponta que uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com a gigante Johnson&Johnson, será “produzida em larga escala”, segundo as empresas, e conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos. O plano da Janssen é produzir até 1 bilhão de doses que serão distribuídas mundialmente em 2021, após a aprovação. A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina da Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina. Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

 

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Ciência

Refluxo pode aumentar o risco de morte por covid-19, aponta estudo

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A alteração no pH do tecido esofágico poderia favorecer um aumento da carga viral nesses pacientes

Coronavírus: células esofágicas se tornariam mais suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2. (Mauricio Bazilio/Getty Images)

Distúrbios digestivos como o refluxo gastroesofágico e a síndrome de Barrett podem estar associados a um risco aumentado de morte por covid-19. É o que aponta um estudo apoiado pela Fapesp e divulgado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

Segundo os autores, a agressão ao esôfago pelo ácido estomacal induziria no tecido um aumento na expressão do gene ACE2, responsável por codificar a proteína à qual o novo coronavírus se liga para entrar nas células humanas. Desse modo, as células esofágicas se tornariam mais suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2.

“Nossos dados sugerem que a alteração no pH do tecido esofágico poderia favorecer um aumento da carga viral nesses pacientes”, explicou Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e coordenador da investigação à Agência Fapesp.

Nakaya conta que a descoberta ocorreu por acaso, quando seu aluno de doutorado Leandro Jimenez e outros pesquisadores de sua equipe analisavam dados de transcriptoma (conjunto de moléculas de RNA expressas em um tecido) de portadores da síndrome de Barrett. Considerada uma complicação crônica do refluxo gastroesofágico, a doença é caracterizada por alterações no revestimento do esôfago, que se torna semelhante ao tecido que reveste o intestino.

Essas primeiras análises do estudo foram feitas por técnicas de bioinformática com dados extraídos do repositório público Gene Expression Omnibus (GEO). Os achados ainda não tinham, portanto, relação com a infecção pelo novo coronavírus.

“Notamos nos pacientes com esôfago de Barrett um aumento na expressão de ACE2 e também alterações em vias de sinalização relacionadas à regulação do pH intracelular. Surgiu então a suspeita de que células submetidas a um pH ácido seriam mais suscetíveis ao SARS-CoV-2”, conta Nakaya.

Por meio de uma colaboração com Pedro Moraes-Vieira, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) e coautor do artigo, experimentos in vitro foram conduzidos para testar essa hipótese.

Culturas de monócitos humanos – células de defesa presentes no sangue – foram colocadas em meios com diferentes graus de acidez e incubadas com o SARS-CoV-2. O pH de cada grupo experimental variou de 7,4 (considerado o normal para o sangue) até 6. Análises feitas após 24 horas mostraram que as células cultivadas no meio mais ácido eram as que apresentavam maior expressão de ACE2 e também maior carga viral.

O experimento foi feito no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve), que tem nível 3 de biossegurança e é administrado por José Luiz Proença Módena, professor do IB-Unicamp que também assina o artigo.

Evidências clínicas

O passo seguinte foi analisar dados de duas coortes de pacientes hospitalizados por complicações associadas à covid-19 – 551 em Manaus (AM) e 806 em São José do Rio Preto (SP) – e verificar se, de fato, havia uma associação entre a severidade da doença e distúrbios gástricos preexistentes. Essa parte do trabalho foi feita em colaboração com pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

“Ao dar entrada no hospital, todos os pacientes são questionados sobre os medicamentos que costumam tomar. Nós consideramos como portadores de distúrbios digestivos aqueles que disseram fazer uso contínuo de fármacos do tipo inibidores da bomba de prótons [omeprazol, pantoprazol e similares], capazes de suprimir a secreção do ácido gástrico”, explica Nakaya.

“Importante ressaltar que esses medicamentos serviram apenas como uma referência para que pudéssemos identificar quais pacientes tinham problemas gástricos antes de contrair a covid-19. Os fármacos em si não têm qualquer relação com o agravamento da infecção. Também não sabemos se pessoas com sintomas leves de COVID-19 e que tomavam esses medicamentos teriam um maior risco de morte.”

Por meio de uma análise estatística multivariada – na qual os resultados foram ajustados para eliminar a influência de fatores como idade superior a 60 anos e outras comorbidades –, os pesquisadores concluíram que os pacientes com problemas no aparelho digestivo associados à acidez estomacal tinham duas vezes mais risco de serem internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e três vezes mais risco de morrer do que os demais.

“Nossos resultados sugerem que alguns problemas gástricos podem ser um fator de risco até então desconhecido para o agravamento do coronavírus. Porém, novos estudos ainda precisam ser feitos para confirmar esses achados”, afirma Nakaya.

Outra hipótese aventada no artigo é a de que o dano pulmonar causado pelo SARS-CoV-2 e o consequente prejuízo à oxigenação do organismo poderiam levar à acidificação do sangue e a um aumento na expressão de ACE2.

“É possível que a acidose no sangue de alguns pacientes com covid-19 grave piore a doença, aumentando os níveis de ACE2 e facilitando a entrada de SARS-CoV-2 em células humanas. A própria hipóxia pode contribuir para a regulação de ACE2”, dizem os autores.

A pesquisa também contou com apoio da FAPESP por meio de auxílios concedidos a André Fujita (USP), Paola Minoprio (USP) e Maurício Lacerda Nogueira (Famerp).

“É um trabalho muito interessante e que abre novas perspectivas no entendimento dos fatores de gravidade da COVID-19. Devo ressaltar que também mostra a importância de estudos colaborativos em múltiplas instituições. Os achados de Manaus e de Rio Preto foram obtidos independentemente e se reproduzem. Isso confere credibilidade e solidez às conclusões”, comenta Nogueira.

O artigo The influence of pH on SARS-CoV-2 infection and COVID-19 severity pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.09.10.20179135v1.

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Ciência

Planetários farão exibição online para celebrar a chegada da primavera

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Astrônomos responderão perguntas e explicarão o que acontece com a Terra no chamado equinócio da primavera

Equinócio: é um ponto da órbita do nosso planeta que marca o início de uma estação do ano. (Adastra/Getty Images)

Planetários de todo o país se unirão, nesta terça-feira (22), em uma sessão virtual exclusiva que marcará a chegada da primavera. A transmissão será pelo Youtube e, após a exibição de vídeo editado especialmente para esta apresentação, astrônomos e especialistas responderão perguntas e explicarão o que acontece com o planeta Terra no chamado equinócio da primavera. 

“Quando você vai ao planetário, geralmente você vê [vídeos] sobre o céu da sua cidade. [Nessa sessão], vamos ver o céu do Brasil”, disse o presidente da Associação Brasileira de Planetários (ABP), José Roberto de Vasconcelos, em entrevista à Agência Brasil.

A sessão começa às 10h, no horário de Brasília. A exibição dura 30 minutos, terminando exatamente no horário que marca o início da primavera, às 10h31. A conversa segue até as 11h. A exibição poderá ser acessada gratuitamente pela internet.

Planetários são espécies de cinema. Ao invés de observarem uma tela plana, os espectadores sentam-se em poltronas reclináveis, possibilitando que observem uma cúpula, onde são projetados conteúdos sobre astronomia e sobre ciência. Os vídeos são produzidos pelos próprios planetários.

“É como se estivesse ao ar livre olhando para o céu. A função do planetário – embora ele possa apresentar vários tipos de conteúdos diferentes nessa tela em formato de domo – a principal finalidade é fazer um simulação do céu”, explicou Vasconcelos.

Com mais de 100 planetários fixos e itinerantes, o Brasil é, de acordo com o presidente da ABP, o país com o maior número deles em todo o Hemisfério Sul.

Na América, fica atrás apenas dos Estados Unidos. Esses espaços, disse Vasconcelos, ajudam as pessoas a despertar o gosto pela ciência: “Vivemos em uma sociedade altamente dependente de ciência e tecnologia, mas que poucos entendem o fazer da ciência, como ela funciona. Então, o planetário tem esse papel importante”.

A Agência Brasil conversou com Vasconcelos sobre o equinócio de primavera, planetários, educação e a importância da ciência. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: Por que foi escolhida a data 22 de setembro para esta exibição?

José Roberto de Vasconcelos: A ideia surgiu porque os planetários, assim como os cinemas e outros espaços em que há aglomerações de pessoas, ficaram bastante afetados durante a pandemia, os planetários inclusive ainda permanecem fechados. Nós, que trabalhamos nesses ambientes, os chamados planetaristas, estávamos com uma saudade enorme de atender as pessoas, de mostrar nosso conteúdo. Nos planetários, a gente produz o nosso próprio conteúdo. São espaços voltados para a educação. Surgiu uma ideia de fazer algo virtual de planetário só para matar a saudade. Decidimos aproveitar que nesse mês de setembro tem o equinócio de primavera, dia 22, e, por meio da ABP, reunir planetaristas do Brasil todo. Quando você vai ao planetário, geralmente você vê [vídeos] sobre o céu da sua cidade. [Nessa sessão], vamos ver o céu do Brasil. Dependendo da região que você está, você vê uma constelação mais alta, outra mais baixa.

Agência Brasil: Como será essa sessão?

Vasconcelos: Vamos tentar emular um pouco do que acontece dentro de um planetário. O planetário é um simulador do céu. Ele lembra uma sala de cinema, mas a projeção, ao invés de ser em uma tela plana, que fica na sua frente, acontece em uma cúpula, em um domo, que fica acima de você. Quando você vai a um planetário, você senta em uma poltrona reclinável e olha para cima. É como se estivesse ao ar livre olhando para o céu. A função do planetário, embora ele possa apresentar vários tipos de conteúdos diferentes nessa tela em formato de domo, a principal função dele é fazer uma simulação do céu. Então, constelações, planetas, viagens espaciais, essas são as especialidade do planetário. O que a gente vai fazer nesse dia 22 é uma simulação de planetário que vai acontecer no computador, no celular, no meio que a pessoa quiser assistir. Vamos falar sobre constelações, estações do ano, o que é o equinócio e o que é esse fenômeno que marca o início da primavera. E sobre os céus do Brasil.

Agência Brasil: O que é o equinócio de primavera, esse fenômeno que vai acontecer às 10h31 do dia 22?

Vasconcelos: Equinócio é um ponto da órbita do nosso planeta que marca o início de uma estação do ano. No ano, você tem quatro estações, que são mudanças climáticas que acontecem por conta da posição do nosso planeta em relação ao Sol. São quatro pontos de interesse nessa órbita, nessa trajetória que a Terra faz em torno do Sol. O que a gente chama de ano é uma volta completa da Terra em volta do Sol. E tem quatro pontos de interesse, são dois pontos chamados equinócios e dois solstícios, os do equinócio, marcam o início da primavera e do outono e os solstícios, do verão e do inverno.

Agência Brasil: Qual é a situação dos planetários no Brasil e de forma eles foram impactados pela pandemia do coronavírus?

Vasconcelos: O que me incomoda é que a distribuição dos planetários é desigual. Ainda temos muito mais planetários nas regiões Sul e Sudeste que no Norte e Nordeste. Mas, somos uma comunidade numerosa, temos mais de 100 planetários no Brasil, entre unidade fixas e móveis. Esse número de planetários, mais de 100, faz com que a nossa comunidade planetária seja a segunda das Américas, só perde para os Estados Unidos, e seja a maior de todo o Hemisfério Sul. No Hemisfério Sul não tem uma quantidade de planetários em um único país tão grande quanto no Brasil. Em termos de número, eles estão bem e estavam abertos. Agora estão nessa pausa. Quem está sofrendo mais são os pequenos, os planetários móveis, porque muitas vezes são da iniciativa privada ou de uma associação. A parte dos planetários públicos, os federais, estaduais e municipais, eles estão em stand by. A grande maioria deles está ativa, no sentido de que, quando terminar essa pandemia, eles retornam, sim.

Agência Brasil: Esta semana tivemos uma notícia importante, a possível descoberta de vida em Vênus. Como isso foi visto pelos planetaristas?

Vasconcelos: Se a gente estivesse recebendo o público nesse momento, esse seria um assunto que todo planetarista ia conversar com os visitantes. Já estaria tudo preparado para mostrar a eles, estaríamos com sessão, com programa sobre o planeta Vênus. O planetário está sempre muito conectado [com a atualidade], em termos de ciência, de astronomia em particular, de ciência em geral, e com a importância que isso tem para a nossa sociedade. Vivemos em uma sociedade que é altamente dependente de ciência e tecnologia, como afirma o astrônomo Carl Sagan. Estamos conversando por celular, vamos fazer a live no computador, pela internet. A vacina que está sendo desenvolvida contra covid-19 é ciência, tudo isso é ciência. Mas, as pessoas não têm muito contato com a ciência. Vivemos em uma sociedade altamente dependente de ciência e tecnologia, mas que poucas pessoas entendem, compreendem o fazer da ciência, como ela funciona. Então, o planetário tem esse papel importante de fazer esse gancho, de resgatar, de dizer “olha como a sociedade precisa da ciência”.

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Ciência

Vênus é um planeta russo, diz Rússia após descoberta científica

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Mas dizer que o planeta é naturalmente russo é a mesma coisa que dizer que a Lua é americana: o que não é o caso

Vênus: planeta pode abrigar micróbios (3quarks/Getty Images)

É possível dizer que um planeta pertence a uma determinada nacionalidade? Aparentemente, sim. Ou pelo menos é o que a Rússia disse sobre Vênus após a descoberta de sinais que podem indicar a presença de micróbios no planeta. “Nosso país foi o primeiro e o único a ter sucesso ao pousar em Vênus. A espaçonave russa conseguiu informações sobre o planeta — e é igual o inferno por lá”, afirmou o chefe da Agência Espacial Federal Russa (Roscomos), Dmitry Rogozin

Em partes, ele está correto. A União Soviética (a Rússia dos dias atuais) foi o único país a conseguir pousar uma sonda em Vênus — mas não durou muito, uma vez que o ambiente do planeta não é exatamente tranquilo. Mas dizer que o planeta é naturalmente russo é a mesma coisa que dizer que a Lua é americana — uma vez que o astronauta americano Neil Armstrong foi o primeiro a pisar no satélite.

A agência espacial russa também anunciou na quinta-feira que tem planos para lançar uma expedição independente até o planeta sem “envolver a cooperação internacional”. Mas a Roscomos não é a única com interesses no planeta — que não é russo.

A companhia Rocket Lab, com sede em Long Beach, na Califórnia, nos Estados Unidos, já está trabalhando em uma missão para chegar a Vênus. A ideia é que um satélite pequeno, chamado de Photon, deva ser lançado ao espaço já em 2023. Até a Nasa entrou na dança e avalia aprovar, até abril do ano que vem, duas missões científicas planetárias a partir de quatro propostas que estão sendo revisadas, incluindo uma para Vênus que, segundo cientistas, pode ajudar a determinar se há ou não vida no planeta, segundo a agência de notícias Reuters.

Vênus era um planeta deixado de lado pelas agências espaciais por ter um ambiente inóspito, apesar de ser o mais próximo da Terra. Ele é o planeta mais quente do nosso sistema solar, mesmo Mercúrio estando mais próximo do Sol. E é claro: a pressão do ar na superfície do planeta é cerca de 90 vezes mais forte do que a terrestre.

Na última segunda-feira, cientistas de diversas nacionalidades anunciaram a descoberta da presença do gás de fosfina na atmosfera do planeta — o que pode indicar a presença de seres vivos no local, mais especificamente de micróbios.

A fosfina, um gás altamente tóxico, é composto por hidreto de fósforo e é comumente utilizado em inseticidas na Terra, uma vez que não é encontrado em seu estado natural por aqui. Não se sabe a origem da substância em Vênus, mesmo depois de várias análises e mais estudos devem ser feitos para garantir a descoberta, que não deixa de ser um marco importante para a ciência. Segundo os cientistas, a fosfina na Terra é produzida por micróbios anaeróbicos (sem oxigênio) — e o mesmo pode ser verdade para o planeta quente, que beira os 462,2º graus celsius. Os astrônomos ainda não coletaram espécimes de micróbios de Vênus e não têm imagens deles.

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Nasa planeja nova missão para Vênus após possível sinal de vida no planeta

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Equipe internacional de pesquisas descreveu nesta segunda-feira evidências de possíveis micróbios que residem nas nuvens venusianas

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Astrônomo brasileiro identifica asteroide potencialmente perigoso

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Asteroide poderia ter causado uma devastação global caso colidisse com a Terra — como se 2020 precisasse de mais essa

Asteroide: brasileiro descobriu objeto perigoso (dottedhippo/Getty Images)

Um astrônomo amador brasileiro identificou um asteroide potencialmente perigoso que estava indo em direção à Terra dias antes de ele passar pelo planeta. O asteroide, que poderia ter causado uma devastação global caso colidisse com a Terra, passou perto, mas com uma distância segura de cerca de 40 milhões de quilômetros — 100 vezes mais distante que a Lua fica da Terra, por exemplo.

Apesar de ele ter passado a uma distância considerável da Terra, os especialistas acreditam que a situação é um alerta em relação aos grandes objetos que podem se aproximar do planeta sem sequer serem identificados. O objeto, chamado de Asteroid 2020 QU6, tinha um quilômetro de diâmitro e foi encontrado por Leonardo Scanferla Amaral no Observatório Campo dos Amarais em 27 de agosto. O QU6 passou bem perto da Terra no dia 10 de setembro — e (ainda bem) nada de grave aconteceu.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

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