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domingo, 03/05/2026

Pasteur vai estudar ratos em SP para encontrar vírus que podem afetar pessoas

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Em Brasília

ANA BOTTALLO
FOLHAPRESS

O Institut Pasteur de São Paulo planeja vigiar as populações de ratos na cidade para descobrir quais vírus esses animais carregam e que podem contaminar seres humanos. A ideia é identificar possíveis riscos de novos surtos que possam atingir a população de São Paulo.

Este projeto foi aprovado no final do ano passado e é coordenado pelo biomédico Robert Andreata, de 34 anos, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Está quase sendo assinado um acordo com a Prefeitura de São Paulo, por meio da Coordenadoria de Vigilância Sanitária (Covisa), para capturar os ratos e analisar as amostras nos laboratórios do instituto.

Atualmente, o monitoramento em ratos urbanos foca principalmente em bactérias, como as que causam leptospirose. Porém, pouco se sabe sobre vírus que esses roedores podem transmitir.

Andreata destaca que a falta de monitoramento viral não significa ausência de doenças virais nesses animais, citando a hantavirose como exemplo, doença transmitida por hantavírus, que ainda não é monitorada regularmente em áreas urbanas.

Pesquisas sobre vírus em aves e morcegos já foram feitas no Brasil e no exterior, mas a vigilância viral em ratos urbanos segue sendo limitada no país.

Roedores podem ser reservatórios de muitos patógenos e, em certas circunstâncias, podem passar esses microrganismos para humanos, fenômeno chamado “spillover”. Isto pode levar ao surgimento de surtos e epidemias.

O projeto quer justamente mapear essa situação, coletando amostras das duas espécies que vivem em São Paulo: Rattus rattus (rato-preto) e Rattus norvegicus (ratazana de esgoto), principalmente em áreas onde há alta concentração desses animais e já existem ações públicas de controle.

Nos laboratórios, Andreata e sua equipe, formada por duas estudantes de pós-graduação e uma pesquisadora de pós-doutorado, irão extrair e analisar o material genético das amostras, comparando os dados com bancos internacionais.

Como ainda não é sabido quais vírus podem estar presentes, será feita uma triagem inicial baseada em sequências virais conhecidas, usando alvos específicos chamados “primers”, além de técnicas mais amplas como a metagenômica, que permite identificar vírus até então desconhecidos ou não associados a ratos.

Com o crescimento urbano em áreas verdes e as mudanças climáticas que favorecem a proliferação de patógenos, o estudo dará atenção especial aos “hotspots” da cidade, locais com condições sanitárias precárias, como falta de tratamento de esgoto, e ambientes quentes e úmidos que facilitam a sobrevivência desses agentes.

Além disso, essas áreas facilitam o contato entre humanos e roedores.

Andreata ressalta que, se uma pessoa que teve contato com um rato apresentar sintomas semelhantes a uma gripe forte, ainda não se sabe quais doenças virais podem estar envolvidas.

O Institut Pasteur de São Paulo foi inaugurado há dois anos no campus da USP no Butantã, na zona oeste da capital. A missão do instituto é pesquisar e combater doenças emergentes e que reaparecem.

O instituto possui laboratórios modernos para preparar o material para sequenciamento genético, como PCR em tempo real, PCR convencional e sequenciamento de próxima geração, além de três laboratórios de biossegurança nível 3, que permitem o trabalho seguro com vírus e materiais biológicos perigosos.

Andreata destaca que ter uma estrutura adequada facilita muito o desenvolvimento do trabalho de pesquisa.

A pesquisa será feita em etapas. A primeira fase, ainda não iniciada, depende da formalização do convênio com a prefeitura e do treinamento das equipes para capturar os ratos. O plano aprovado prevê a coleta de amostras de 400 animais, embora Andreata acredite que será difícil alcançar esse número devido à inteligência dos ratos urbanos.

Além de identificar quais vírus circulam nos ratos, os pesquisadores querem desenvolver ferramentas para diagnosticar esses microrganismos em humanos, especialmente para casos leves de doenças virais comuns, mas que podem estar ligados a doenças emergentes.

Andreata é formado em ciências biomédicas pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na Bahia. Ele realizou um pós-doutorado na Escola Icahn de Medicina do Hospital Mount Sinai, em Nova York, onde conheceu um projeto similar e se inspirou a trazer essa iniciativa para o Brasil.

Com a aprovação do projeto, Andreata espera realizar seu sonho de trabalhar na interface entre ciência e sociedade, criando pesquisas que possam ser aplicadas para o benefício da população.

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