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segunda-feira, 04/05/2026

Garimpo ilegal cresce no Peru com envolvimento do Comando Vermelho na fronteira com Brasil

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Daniela Arcanjo
Folhapress

“O ouro não é tão abundante como antes”, conta um joalheiro em uma loja de Pucallpa, Peru. Ele explica que já não chega muito ouro da região do rio Abujao, próxima à fronteira com o Brasil, porque empresas estrangeiras estariam levando a maior parte do metal.

Essa mudança está ligada a transformações recentes no comércio ilegal de ouro na região, especialmente com a atuação do Comando Vermelho no garimpo do país vizinho, como informado por autoridades locais.

O Comando Vermelho, que chegou à região amazônica em meados de 2015 para disputar o controle com outras facções criminosas, já está presente no Peru, atuando no tráfico de drogas e no contrabando de madeira nas áreas fronteiriças.

Nos últimos anos, o alto preço do ouro tornou essa atividade ilegal mais atrativa para os grupos criminosos, superando até o narcotráfico em rentabilidade. A ONG Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável destaca a existência de 17 facções atuando no noroeste da floresta tropical, próximo a Pucallpa.

Pucallpa é a capital do departamento de Ucayali, que faz fronteira com o estado do Acre, Brasil. A cidade, apesar dos seus mais de 300 mil habitantes, mantém características de pequena cidade, com muitas ruas de terra e comércios locais. Para alcançar a fronteira com o Brasil a partir dessa cidade, é necessário percorrer mais de 100 km pela floresta amazônica, uma região remota com pouca fiscalização que favorece atividades ilegais, como o garimpo.

A Polícia Federal do Brasil e a polícia peruana não deram retorno às solicitações para comentar sobre o assunto.

O joalheiro, que prefere manter sua identidade em sigilo por segurança, reforça que a mineração é intensa na região: “Aqui se cava e a chance de encontrar ouro é alta”. Ele cita uma frase comum atribuída ao geógrafo italiano Antonio Raimondi, que dizia que o povo peruano está sentado em um banco de ouro sem perceber.

Antonio Raimondi foi uma figura importante na cartografia do Peru no século 19 e ajudou a mapear as riquezas minerais do país para investidores estrangeiros.

Mesmo hoje, os minérios são o maior destaque da economia peruana, representando cerca de 67,5% das exportações do país. Estima-se que o comércio ilegal de ouro possa ultrapassar US$ 12 bilhões, mais que o valor movimentado pelo tráfico de drogas.

A cientista política Omayra Peña Jimenez, especialista em mineração ilegal, explica que o ouro tem mercado formal e um preço elevado, tornando-se um negócio mais lucrativo que a cocaína, além de ser usado para lavagem de dinheiro.

Nos últimos dez anos, o preço do ouro aumentou drasticamente, enquanto o da cocaína se manteve estável. Isso fez com que o garimpo fosse rentável até em áreas que não são naturalmente ricas em ouro, como Ucayali.

O garimpo no rio Abujao existe desde a década de 1980, mas foi retomado com força nos últimos sete anos. Fatores como a Operação Mercúrio, em 2019, que expulsou criminosos de outras áreas, e a diminuição da fiscalização durante a pandemia favoreceram essa retomada.

Sidney Novoa, biólogo e diretor de tecnologias para conservação da ONG Conservação Amazônica, comenta que apenas em 2022 as áreas abandonadas começaram a ser exploradas novamente.

José Luis Guzmán, procurador de meio ambiente em Pucallpa, confirma o envolvimento do Comando Vermelho no Abujao, baseado em informações de inteligência e relatos de presos.

Segundo ele, antes de 2020, o ouro era vendido diretamente a joalheiros locais, mas hoje é levado para mineradoras com licença, onde é lavado. A maior parte do dinheiro gerado com o ouro vai para o Brasil, e os investimentos locais são mínimos, limitados à diversão.

Uma operação de prisão de garimpeiros em 2020 foi abortada após os criminosos usarem armas de fogo para dispersar a equipe policial. A operação nunca foi retomada com maior força.

Essa atividade ilegal ameaça áreas protegidas como Tamaya-Abujao, a reserva indígena Isconahua e o parque nacional Sierra del Divisor. A situação não é nova: no departamento de Madre de Dios, 97,5% do desmatamento ocorreu por mineração ilegal.

Andrés González Torres, engenheiro e morador da comunidade de Santa Rosa de Tamaya Tipishca, relata o impacto ambiental e social do garimpo: a qualidade da água está comprometida, o que pode estar ligado a doenças como câncer entre a população local.

Além dos danos ambientais, o garimpo trouxe problemas sociais, como prostituição e tráfico de pessoas, e mudou negativamente a cultura local. Estrangeiros armados passaram a dominar a região, impondo suas regras sobre os moradores antigos.

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