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sexta-feira, 26/06/2026

Brasil e China buscam reduzir uso do dólar por pressão dos EUA

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Em Brasília

VICTORIA DAMASCENO
FOLHAPRESS

O Brasil está seguindo os passos da China para fortalecer estratégias que diminuem a dependência do dólar americano, especialmente diante dos riscos financeiros globais causados pelo uso do dólar como forma de pressão, uma prática intensificada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O objetivo é utilizar outras moedas para gerar receita, financiar e quitar dívidas, reduzindo assim a vulnerabilidade ligada ao dólar.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou ao presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, uma carta de intenção para a emissão de títulos em yuan chinês, conhecidos como “panda bonds”. A cerimônia ocorreu em Pequim e formaliza a iniciativa brasileira, que ainda espera a aprovação final das autoridades chinesas.

Através dessa iniciativa, o Tesouro Nacional poderá oferecer títulos para investidores chineses, que farão as transações e receberão os juros em moeda chinesa. Esta será a primeira operação desse tipo feita por um país da América Latina, com a meta de captar cerca de 5 bilhões de yuans.

Brasil e China afirmam que essa ação não é contra os Estados Unidos, mas sim uma demonstração de soberania.

Durante sua visita a Pequim, Dario Durigan declarou que não faz sentido aceitar as pressões impostas por Washington.

Ele ainda ressaltou que o Brasil está dialogando com os EUA e reafirmou a soberania do país, destacando também uma operação recente em abril, na qual o Brasil realizou a maior emissão de títulos nacionais da sua história, captando 5 bilhões de euros (cerca de 30 bilhões de reais).

A emissão do “panda bond” brasileiro está sendo coordenada pelo Bank of China no Brasil, que apoia o governo e empresas nas operações em yuan. Segundo Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil, o renminbi, a moeda oficial chinesa, é amplamente usado no comércio internacional embora ainda não desafie o domínio do dólar.

“É uma moeda mais estável, com custos menores para transações, e, além disso, está respaldada por uma das maiores cadeias de fornecimento do mundo. Com o renminbi, qualquer mercadoria pode ser comprada”, afirmou ele após o Fórum de Finanças Verdes em Xangai.

Há dúvidas sobre o quanto países podem usar moedas alternativas quando o dólar está forte. O banco central chinês prevê recorde na emissão dos panda bonds em 2026, reflexo da desvalorização do dólar, segundo especialistas em investimentos.

Hsia Hua Sheng, docente da Fundação Getulio Vargas, explica que mudar para moedas locais como preferência leva tempo.

“Hoje, o dólar é a base para precificar a maioria dos ativos globalmente. Mas isso não significa que precisamos dele para comprar”, disse. “À medida que cresce o uso direto das moedas locais, o mercado de câmbio poderá funcionar menos dependente do dólar.”

A visita do ministro Dario Durigan foi precedida pela do secretário da Fazenda, Mathias Alencastro, que esteve em Pequim no início de junho para reuniões que prepararam a emissão dos títulos brasileiros.

Mathias Alencastro destacou a importância dessa emissão como parte da estratégia do governo para diversificar a dívida pública.

No mesmo período, o presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo, visitou Xangai para reunião com o chefe do Banco Popular da China. Eles discutiram os títulos brasileiros e outras possibilidades de investimento bilateral e pagamentos entre os países, acelerando o uso das moedas locais para transações.

Embora as transações em yuan ainda sejam poucas comparadas às em dólar, esse esforço mostra o interesse dos países em reduzir a dependência da moeda americana, segundo o economista Bruno De Conti, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Bruno De Conti afirma que a iniciativa dificilmente substituirá o dólar, mas é um importante indicador da necessidade de diversificação nas transações internacionais.

“Esses movimentos merecem atenção, pois refletem a desconfiança em como os Estados Unidos gerenciam o dólar, usando-o como instrumento de pressão”, finalizou.

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