Pelo menos dois em cada três empresários que apoiaram o regime militar no Brasil descendem de famílias que foram donas de escravos. Essa informação vem de uma pesquisa inédita feita para o podcast ‘Perdas e Danos’, que examina a participação de empresas durante a ditadura.
O relatório da Comissão Nacional da Verdade identificou 62 empresários importantes e conseguiu confirmar, em 40 deles, que seus antepassados foram senhores de escravos. Entre os sobrenomes famosos estão Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo, Beltrão e Vidigal.
Ricardo Oliveira, especialista em genealogia, explica que a elite que controla o Brasil hoje ainda tem raízes no poder colonial, quando controlar escravos era a base da riqueza.
Edson Teles, professor de filosofia política, destaca que a economia da ditadura explorava tanto os recursos naturais quanto os trabalhadores, restringindo seus direitos, especialmente dos sindicalistas que sofreram repressão logo após o golpe de 1964.
Marco Antônio Rocha, economista, observa que, durante a ditadura, o salário mínimo perdeu valor e a riqueza ficou ainda mais concentrada nos mais ricos.
Essa continuidade das famílias antigas no poder mostra que a mobilidade social no Brasil é muito lenta. Segundo a OCDE, é preciso cerca de nove gerações para que uma pessoa pobre alcance a classe média, o que reforça as desigualdades.
O estudo também focaliza a família Bueno Vidigal, uma das mais influentes na época, que atuava em vários setores econômicos. Gastão Vidigal criou a empresa Cobrasma e o Banco Mercantil, negócios que passaram para seus descendentes.
No trabalho da Cobrasma, havia condições ruins, parecidas com trabalho escravo, sem banheiros adequados e segurança. Em 1968, a empresa foi palco de uma greve reprimida pelo Exército, que resultou na prisão de centenas de trabalhadores.
O Banco Mercantil apoiou grupos de repressão política, como a Operação Bandeirante, que perseguiu opositores do regime. Havia até recompensas financeiras para a captura de ativistas.
A família também participou de grupos que adaptaram indústrias para uso militar, ganhando incentivos fiscais e contratos com o governo. A Cobrasma chegou a faturar quase meio bilhão de dólares por ano em seu auge.
A ligação com a escravidão é confirmada por documentos históricos que mostram membros da família comprando e vendendo escravos, além de práticas para manter o controle desses trabalhadores.
Hoje, nomes da família são usados em nomes de ruas e praças, mantendo viva essa memória elitista, enquanto a história dos escravizados é pouco valorizada.
A Cobrasma fechou em 1998 e Gastão Eduardo Vidigal morreu em 2001. Em 2019, o Banco Paulista, ligado à família, esteve envolvido na operação Lava Jato. Tentativas de contato para discutir essas questões não tiveram resposta.
Informações fornecidas pela Agência Brasil.
