DANIELE MADUREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou a retirada de lotes de detergentes, lava-roupas e desinfetantes da marca Ypê do mercado, prejudicando a Química Amparo, fabricante da marca, justamente num momento em que a empresa está crescendo rapidamente.
Com faturamento anual de cerca de R$ 10 bilhões, a Química Amparo é a segunda maior empresa do setor de limpeza doméstica no Brasil, atrás apenas da Unilever, dona de marcas como Omo e Comfort.
Ela detém mais de metade do mercado de detergentes, que movimenta R$ 3,6 bilhões no país, segundo a consultoria Euromonitor. No segmento de sabão, a empresa está próxima da líder Omo. Consumidores têm optado por marcas mais baratas no ramo de limpeza, o que favorece a Tixan Ypê, que custa em média 20% menos.
Na noite de sexta-feira (8), a Ypê anunciou que entrou com recurso e conseguiu suspender temporariamente a proibição da Anvisa de produzir e vender os produtos. Este recurso terá validade até que a Anvisa tome uma decisão final, prevista para os próximos dias.
Apesar da suspensão, a Anvisa mantém sua avaliação técnica de risco sanitário e recomenda que os consumidores evitem usar os produtos afetados.
A agência também afirmou que é responsabilidade da empresa informar os consumidores, por meio de seu serviço de atendimento, sobre como proceder para recolhimento, troca, devolução ou ressarcimento dos produtos.
A Química Amparo não respondeu à reportagem para explicar a origem do problema nem as medidas adotadas.
O recolhimento dos produtos ocorreu após inspeções da agência identificarem falhas graves em etapas do processo produtivo na fábrica de Amparo (SP), incluindo problemas na garantia da qualidade e no controle de produção.
A Anvisa alertou que essas falhas podem causar contaminação microbiológica dos produtos, o que pode provocar doenças ou irritações.
Especialistas dizem que a crise de imagem pode ser superada se a empresa agir rápido, criando um canal exclusivo para atendimento e admitindo publicamente os erros, mostrando que tomou providências imediatas.
Porém, até a noite de sexta, telefones da empresa não eram atendidos ou as chamadas não completadas. Nas redes sociais, consumidores relataram dificuldade de contato e irritações nas mãos após usar os produtos.
Falhas anteriores levaram a recolhimentos
Esta não é a primeira falha da Química Amparo: no final de 2025, a Anvisa recolheu lotes de lava-roupas líquidos contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. Naquele momento, a empresa afirmou que a medida era preventiva, abrangendo 14 lotes.
Marcos Bedendo, professor da ESPM, destaca que marcas populares têm maior responsabilidade diante do público. Ele comenta que o público pode se sentir traído ao ver a marca Ypê, presente em 95% dos lares brasileiros, envolvida em problemas como este.
Ele acredita que a reação da empresa será crucial para determinar se o público verá isso como um erro isolado ou um problema sério que abale a confiança na marca. Também recomenda que a empresa nomeie um porta-voz para esclarecer a situação.
A Química Amparo, controlada pela família Beira e com sede em Amparo (SP), tornou-se uma concorrente significativa da Unilever, que também possui produtos como Cif. É a única grande fabricante brasileira em um mercado dominado por multinacionais como Unilever, P&G e Reckitt, enquanto outras marcas nacionais são menores, como Flora, Bombril e Limppano.
A empresa tem foco nas classes B e C, atendendo consumidores que buscam produtos de limpeza mais baratos, enquanto reservam recursos para produtos premium em outras áreas, como alimentos e bebidas.
Felipe Carreirão, consultor da Euromonitor, ressalta que marcas regionais e econômicas ganham espaço, refletindo uma mudança de hábito do consumidor, que tem preferido sabão líquido ao invés do sabão em pó.
A família Beira, tradicionalmente reservada, havia se posicionado politicamente nas últimas eleições presidenciais, apoiando a reeleição de Jair Bolsonaro (PL), o que gerou boicote de parte dos consumidores à marca Ypê. Fontes anônimas informaram que, em 2026, a empresa decidiu não se envolver em política para evitar novos prejuízos.
Controle da contaminação pode incluir luz ultravioleta
Um executivo do setor, que preferiu não se identificar, sugeriu que a contaminação pode ter vindo da água utilizada na produção – seja de rio ou de poço. A fábrica principal fica próxima ao rio Camanducaia, o que pode tornar a investigação da causa mais complexa, pois há vários pontos no processo em que falhas podem ocorrer.
A água é um meio propício para a proliferação de bactérias, exigindo tratamento rigoroso antes de ser usada industrialmente. A captação em rios tem maior risco de contaminação em comparação com água de poços artesianos ou tratada, pois sua qualidade pode variar sem controle da empresa. Nesses casos, é necessário um tratamento para remover minerais que possam afetar a eficácia do produto.
O uso de luz ultravioleta (UV) é um método eficaz para eliminar bactérias, com eficiência de 99,99%, destruindo a estrutura celular dos microrganismos. Contudo, é um processo caro, com equipamentos que custam cerca de R$ 4 milhões. Se a empresa não tem esse equipamento, deve enviar amostras para laboratórios externos e liberar os produtos somente após confirmação da inexistência de contaminação.
Mesmo com a água tratada, a contaminação pode acontecer no transporte até os tanques de produção, caso haja sujeira nas tubulações, manutenção inadequada das bombas ou falhas nas vedações que permitam contato com o ar exterior.
Além disso, bactérias podem ser introduzidas nos tanques se não houver controle rigoroso da qualidade das matérias-primas e se a limpeza dos tanques entre produções não for adequada, o que pode levar ao acúmulo de resíduos e favorecer a proliferação bacteriana.
Raio-X da Química Amparo
- Fundação: 1950
- Sede: Amparo (SP)
- Funcionários: 7.300
- Marcas: Ypê, Tixan, Banho a Banho, Flor de Ypê, Siene, Perfex, Assolan, Atol
- Fábricas: Amparo (SP), Salto (SP), Simões Filho (BA), Anápolis (GO), Goiânia (GO), Itajubá (MG), Itapissuma (PE)
- Concorrentes: Unilever, P&G, Reckitt, Flora, Limppano, Bombril
- Faturamento: R$ 10 bilhões
