PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Em 2025, a Polícia Federal recolheu um valor recorde de criptomoedas usadas em crimes, somando R$ 71 milhões, um aumento de mais de seis vezes comparado a 2024.
No entanto, as quadrilhas envolvidas movimentam valores muito maiores, chegando a dezenas de bilhões de reais.
Essas moedas digitais vêm ganhando popularidade no Brasil, e foram apreendidas em ações contra crimes como violações dos direitos humanos, tráfico de drogas, crimes virtuais e ambientais, além de lavagem de dinheiro.
Recentemente, a Polícia Federal descobriu bitcoins e stablecoins, como o USDT, em investigações que incluíram ataques hackers ao sistema Pix do Banco Central, onde foram desviados R$ 1,5 bilhão, e um esquema de lavagem que movimentou R$ 12,2 bilhões entre 2017 e 2020.
Também foram identificados grandes lavadores de dinheiro, alguns ligados a grupos criminosos internacionais, e redes de tráfico humano que enviam brasileiros para centrais fraudulentas na Ásia e África.
Os criminosos usam as criptomoedas para enviar dinheiro para o exterior e esconder os recursos do sistema financeiro e das autoridades, já que a declaração desses bens depende da iniciativa dos proprietários, dificultando o rastreamento da origem ilícita.
Drey Dias, diretor comercial da empresa de monitoramento Chainalysis, destaca que a diferença entre as apreensões e o volume real do mercado ilegal mostra o desafio das autoridades. Em 2025, carteiras ligadas a crimes receberam cerca de R$ 755 bilhões, representando aproximadamente 1% do total transacionado naquele ano.
Empresas de segurança como a Chainalysis classificam as carteiras de criptomoedas para ajudar corretoras a identificar transações de risco, mas no Brasil essa marcação ainda é limitada, dificultando o bloqueio de ativos ilícitos, especialmente devido ao sigilo das investigações.
As apreensões oficiais de R$ 71 milhões correspondem a uma pequena parte dos mais de R$ 505 bilhões em transações declaradas à Receita Federal no Brasil em 2024, fazendo do país o principal em volume na América Latina e o quinto no mundo.
A Polícia Federal admite que seus dados são limitados, pois não incluem apreensões antes de 2023 nem ativos confiscados por polícias civis.
Para o delegado Vytautas Zumas, da Polícia Civil do Distrito Federal, o aumento das apreensões está relacionado tanto ao crescimento do uso das criptomoedas no crime quanto ao avanço das investigações digitais.
Entre 2020 e 2023, Zumas entrevistou mais de 200 profissionais da área e percebeu grande evolução no conhecimento sobre criptomoedas para investigações criminais. Ele ajudou a criar o Núcleo de Operações com Criptoativos no Ministério da Justiça, além da Unidade Especial de Investigação de Crimes Cibernéticos na Polícia Federal, resultando em células especializadas em quase todos os estados brasileiros.
Enquanto as criptomoedas servem para o crime, tornaram-se também ferramentas importantes para a polícia, pois suas transações são públicas e podem ser consultadas, mesmo que existam métodos para tentar mascará-las.
Na investigação do desvio de R$ 813,79 milhões do Banco Central, a PF identificou os suspeitos através de ordens judiciais para acessar dados de corretoras e seguiu o dinheiro convertido em criptomoedas.
O cenário do uso de criptoativos no Brasil evolui, assim como as ferramentas usadas por criminosos, que hoje preferem stablecoins como o USDT, que é mais rápido para transacionar do que o bitcoin, dificultando o rastreamento.
A empresa Tether, que desenvolve o USDT, afirma colaborar com autoridades para evitar lavagem de dinheiro e garantir transparência.
REGULAÇÃO
O Brasil está em processo de criar regras para as criptomoedas, com o Banco Central e a CVM atuando para controlar o setor.
No fim de 2025, normas detalharam medidas contra lavagem de dinheiro e definiram as empresas autorizadas a operar com ativos virtuais.
Apesar disso, ainda faltam órgãos estruturados para fiscalizar o cumprimento das regras, segundo a Associação Nacional dos Auditores do Banco Central.
A fiscalização das stablecoins, como o USDT, é prioridade para o Banco Central, que também quer supervisionar práticas financeiras envolvendo criptoativos para proteger patrimônios e garantir segurança nas fintechs que usam criptomoedas.
COMO FUNCIONAM AS CRIPTOMOEDAS
O que é uma criptomoeda?
É um dinheiro digital usado para comprar ou guardar valor, sem depender de bancos ou governos.
Funciona por meio de um programa que roda em vários computadores ao mesmo tempo, garantindo segurança e transparência. O bitcoin foi a primeira criptomoeda, criada em 2009.
Como comprar?
Por meio de corretoras conhecidas, como Binance, Coinbase ou Mercado Bitcoin, onde o usuário registra uma conta, deposita dinheiro e compra o ativo desejado.
Os ativos podem ficar na corretora ou em carteiras digitais pessoais.
Como funcionam as redes transacionais?
Cada criptomoeda tem uma rede própria chamada blockchain, que registra todas as transações de forma pública e permanente.
Quando ocorre uma transferência, ela é confirmada por computadores especializados e registrada, sem possibilidade de alteração.
É possível trocar uma criptomoeda por outra?
Sim, nas corretoras e em plataformas descentralizadas sem intermediários, por meio de contratos automáticos que executam a troca quando condições são cumpridas.
Por que o crime usa criptomoedas?
Por serem rápidas e difíceis de rastrear, não exigirem bancos ou identificação imediata e poderem atravessar fronteiras facilmente.
Elas são usadas para lavar dinheiro, pagar resgates por ataques digitais e financiar tráfico ilegal.
Porém, o anonimato total é mito, já que as transações são públicas e especialistas podem rastrear criminosos, o que tem levado a prisões importantes.
