O número de famílias brasileiras com dívidas atingiu 80% em abril, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o que representa um recorde histórico. Pela quarta vez seguida, a taxa aumentou, enquanto a inadimplência permaneceu estável em 29,7%. Famílias que ganham até três salários mínimos são as mais afetadas, com 83,6% endividadas e 38,2% com dívidas atrasadas.
Especialistas associam esses números à alta taxa básica de juros, a Selic, que está em 14,5% após uma pequena redução recente. O custo adicional cobrado pelos bancos, chamado spread bancário, alcançou 34,6 pontos percentuais em março, uma das maiores diferenças do mundo, conforme dados do Banco Mundial, superando países como República Tcheca e Sudão do Sul.
Além disso, a taxa real de juros no Brasil, que desconta a inflação, é a segunda maior global, em 9,3%, ficando atrás apenas da Rússia. Para pessoas físicas, os juros médios anuais cobrados pelos bancos chegam a 61%, enquanto para empresas giram em torno de 24%. No crédito rotativo do cartão, os juros podem ultrapassar 400% ao ano.
Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a alta da Selic eleva os juros dos empréstimos, agravando o endividamento das famílias, principalmente por causa da insegurança no emprego, intensificada pela reforma trabalhista. Muitas famílias recorrem ao crédito para pagar despesas comuns e cuidados médicos. Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), comenta que os altos spreads e a inadimplência criam um ciclo difícil de quebrar. Maria Mello de Malta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), usa a expressão ‘bola de neve’ para descrever como famílias acumulam dívidas para pagar dívidas, com juros sempre superiores à Selic.
Para ajudar nessa situação, o governo federal lançou o programa Novo Desenrola Brasil, que dura 90 dias e permite renegociar dívidas com descontos de até 90%, juros menores e uso do FGTS para abater o saldo devedor. Essa iniciativa busca melhorar a situação financeira de famílias, estudantes e pequenos empresários, além de facilitar o acesso ao crédito e estimular a economia.
Fonte: Agência Brasil
