CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP
A doença do fígado causada pelo consumo de álcool tem aumentado no Brasil, resultando em mais internações e mortes nos últimos 20 anos, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Um estudo da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), que utilizou dados do SUS de 2000 a 2022, identificou 344 mil internações e 214 mil mortes por doenças hepáticas relacionadas ao álcool, como gordura no fígado, hepatite alcoólica e cirrose hepática.
O crescimento é observado em todas as regiões do país. O Norte mostrou o maior aumento anual tanto nas internações (2,57%) quanto nas mortes (4,95%), com o Nordeste apresentando o segundo maior crescimento de óbitos.
O Sul, apesar de apresentar aumento mais lento, tem taxas de internação e morte superiores à média nacional: 10,5 e 5,6 por cem mil habitantes, contra 7,8 e 4,9 da média geral.
Para a hepatologista Geisa Gomide, professora e coordenadora da UFTM, o aumento anual é maior que a média mundial, o que merece atenção. “Esse aumento pode ser real, resultado de melhorias no diagnóstico ou de sistemas de informação mais completos”, comenta.
O hepatologista Roberto José de Carvalho Filho, da Unifesp, explica que esse problema é antigo e subestimado. “O Brasil não consome mais álcool que a média mundial, mas quem bebe, consome em excesso. O consumo abusivo é comum.”
Segundo Carvalho Filho, cerca de 15% dos brasileiros têm padrão de consumo abusivo, e o lobby da indústria de bebidas contribui para manter a aceitação do álcool socialmente.
Em 2021, as doenças do fígado foram a principal causa de mortes relacionadas ao álcool no Brasil. Gomide afirma que as diferenças regionais refletem costumes culturais e desigualdades no acesso à saúde.
“No Sul, o consumo de álcool é culturalmente maior desde a infância, enquanto no Norte e Nordeste, o aumento pode estar ligado à melhoria na notificação e diagnóstico”, explica a médica.
Ela também destaca que o acesso difícil a serviços de saúde em áreas remotas pode levar a registros imprecisos das mortes.
Os homens foram responsáveis por 82% das internações e 88% das mortes no período analisado. A maioria dos pacientes internados tem entre 40 e 59 anos, com distribuição igual entre brancos e pretos ou pardos. Entre os falecidos, a faixa de 40 a 59 anos também é predominante, com maior proporção de pretos e pardos. A maior parte dos afetados tem baixa escolaridade.
Essa faixa etária indica que a doença resulta do consumo crônico e prolongado. “Muitos pacientes só procuram o sistema de saúde em estágio avançado, quando as opções são limitadas”, explica Gomide.
Embora o consumo abusivo tenha aumentado entre jovens, isso não tem refletido em casos de doença hepática nessa faixa etária, pois a doença leva tempo para se desenvolver.
Gomide observa que outros problemas relacionados ao álcool, como acidentes, afetam faixas mais jovens, mas não foram foco do estudo.
Apesar das mulheres serem mais vulneráveis aos danos hepáticos pelo álcool, elas representam 21,5% das internações e 11% das mortes.
O estudo mostra desigualdades sociais e regionais: nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pretos e pardos predominam entre casos e mortes, enquanto no Sul e Sudeste a maioria é branca, em linha com o perfil demográfico dessas regiões.
Fatores sociais, como baixa escolaridade e dificuldade de acesso, agravam a situação, segundo Gomide. Dados hospitalares incompletos dificultam o entendimento sobre os pacientes.
Cerca de 90% dos usuários crônicos de álcool desenvolvem gordura no fígado, e entre 10% e 20% evoluem para doenças mais graves, como hepatite alcoólica e cirrose, com mortalidade de até 50% nos casos críticos.
“O fígado é um órgão silencioso e, geralmente, o diagnóstico ocorre quando o paciente já está em estado grave”, alerta Gomide. O ideal é detectar a doença precocemente na atenção básica.
Carvalho Filho enfatiza que o estigma dificulta o tratamento, com pacientes ainda vistos de forma errada. A doença hepática alcoólica é a principal causa de cirrose no Brasil e no mundo ocidental, mas recebe pouca atenção científica e investimento.
No ambulatório da Unifesp, pacientes são acompanhados desde os estágios iniciais, mesmo sem sintomas, o que ocorre em cerca de 25% dos casos.
O tratamento envolve psicoterapia e medicamentos para controlar a dependência química e evitar a progressão da doença. Cerca de 500 pacientes são acompanhados, com uma adesão de 70% ao tratamento.
As estratégias incluem desde redução do consumo até abstinência total, com efeitos positivos para pacientes graves, como aqueles com cirrose que conseguem viver anos com acompanhamento adequado.
Luiz Cláudio da Silva Cardoso, 57 anos, desempregado, está em tratamento no ambulatório há três anos, incluindo medicação, psicoterapia e orientações para dieta equilibrada para controlar complicações da cirrose.
Cardoso relata ter começado a beber aos 14 anos e perdido muito devido ao alcoolismo, inclusive o amor da família, mas mantém esperança de parar de beber definitivamente.
Os pesquisadores recomendam que o estudo sirva para orientar políticas públicas focadas na prevenção do consumo abusivo de álcool, diagnóstico precoce e melhor assistência às populações vulneráveis.
