Ana Bottallo
Folhapress
Um estudo feito em laboratório mostrou que fêmeas do mosquito Aedes aegypti podem se acostumar com o cheiro de repelente e até preferir picar pessoas que usam o produto. A pesquisa foi feita por cientistas da universidade de Tours, na França, e da Virginia Tech, nos Estados Unidos, e publicada no Journal of Experimental Biology.
No experimento, 6 em cada 10 mosquitos treinados tentaram morder as mãos dos pesquisadores que estavam passadas com repelente à base de DEET. Isso indica que, com treino, o cheiro do repelente que normalmente afasta os mosquitos pode até virar algo atrativo para eles.
O entomólogo Claudio Lazzari, da universidade francesa e com passagem pela Fiocruz, liderou a pesquisa. Ele frisou que o DEET ainda é o melhor repelente disponível e que as pessoas não devem deixar de usar proteção, especialmente em locais onde circulam doenças que o Aedes transmite, como dengue, febre amarela e chikungunya.
O estudo foi feito em laboratório e não mostra que mosquitos no ambiente natural estão se tornando resistentes ao DEET.
O DEET é o principal componente de repelentes no mundo e é usado desde a década de 1940. Ele age produzindo um ar que afasta os mosquitos, embora seu modo de ação ainda não seja totalmente entendido.
Para testar o comportamento dos mosquitos, os pesquisadores deram pequenas quantidades de sangue com DEET para um grupo de fêmeas. Outro grupo recebeu uma solução de açúcar. Depois, todos tiveram contato com o repelente nas mãos de um pesquisador. Os mosquitos que tinham recebido sangue com DEET passaram a preferir as mãos protegidas com o composto, diferente dos mosquitos sem esse treino.
Os resultados indicam que a reação dos mosquitos ao repelente não depende apenas da química, mas também da experiência que eles têm. Ou seja, o significado daquele cheiro pode mudar para eles.
Essa visão muda um pouco o que se sabia até agora, que os repelentes agem só pela química, seja por serem tóxicos ou por bloquearem a percepção dos mosquitos dos humanos.
Claudio Lazzari afirmou que o comportamento do mosquito pode ser influenciado tanto pelo que ele aprende quanto pela substância química do repelente. Isso abre novas perguntas sobre como usar repelentes de forma eficaz.
Ele explicou ainda que os repelentes atuam nos mesmos sentidos usados pelos mosquitos para detectar compostos de plantas, mostrando que há muito a aprender sobre como esses produtos funcionam.
Claudio Lazzari disse que continuam a pesquisa com colegas da Argentina para desenvolver novos repelentes baseados no comportamento e na biologia dos mosquitos, usando esses novos conhecimentos para buscar melhores soluções.

