O dólar caiu nesta quinta-feira, 28, acompanhando a tendência da moeda americana no mercado internacional, mas ainda ficou acima de R$ 5,03. A redução do risco geopolítico, com avanços nas negociações entre Irã e Estados Unidos, e a inflação controlada nos EUA favoreceram as moedas de países emergentes.
O real teve um desempenho melhor que outras moedas da América Latina, recuperando parte das perdas recentes causadas por questões políticas internas, especialmente após os acontecimentos relacionados ao ‘Flávio Day 2.0’.
A valorização do real também foi beneficiada pela menor aversão ao risco global e pelos preços do petróleo mantidos em níveis altos, o que é positivo para o Brasil.
Apesar de uma alta inicial no começo do dia, o dólar à vista ficou em queda, fechando em R$ 5,0318, uma baixa de 0,57%. Em maio, o dólar subiu 1,60% em relação ao real, mas apresentou queda de 8,33% no acumulado do ano.
Jacques Zylbergeld, superintendente de câmbio do Banco Rendimento, destacou que o mercado cambial é influenciado pela tensão diplomática entre EUA e Irã, que gera oscilações no apetite ao risco. Segundo ele, notícias sobre um acordo para estender o cessar-fogo trouxeram alívio ao mercado nesta quinta-feira.
O impacto dos fatos políticos locais também foi sentido na taxa de câmbio, mas, no curto prazo, o comportamento do dólar depende mais do cenário externo.
Jacques comentou ainda que o Federal Reserve enfrenta dificuldades com os preços da energia. Os dados recentes de inflação não trazem grande conforto, e o mercado projeta novos aumentos nos juros nos EUA, fortalecendo o dólar no exterior e dificultando a queda da taxa de câmbio para níveis inferiores a R$ 5.
Os preços do petróleo subiram ligeiramente diante das notícias sobre as negociações entre EUA e Irã. O contrato do Brent para agosto fechou em US$ 92,70 o barril, alta de 0,49%. Um acordo preliminar prevê a extensão do cessar-fogo, o começo das negociações sobre o programa nuclear iraniano e a reabertura livre do Estreito de Ormuz.
O índice que mede o dólar frente a uma cesta de moedas fortes, o DXY, recuou 0,20%, mas ainda registra alta de 1,60% no mês. Os juros dos títulos do Tesouro americano caíram levemente, especialmente nos vencimentos mais longos.
O índice de preços ao consumidor preferido pelo Federal Reserve (PCE) em abril ficou ligeiramente abaixo do esperado, mas ainda gira em torno de 3% ao ano, acima da meta de 2%. James Knightley, economista-chefe internacional do ING, avaliou que, apesar da inflação não ter aumentado como se temia, o Fed deve manter uma postura conservadora até que os preços da energia parem de subir, o que depende de um avanço nas negociações para reabrir o Estreito de Ormuz.
Ferramentas de análise indicam que o mercado considera provável um aumento de juros nos EUA entre dezembro deste ano e janeiro de 2027. Lideranças do Fed de Nova York e St. Louis indicaram que a política monetária americana está apertada e que uma elevação ainda é possível.
Bolsa
O índice Ibovespa recuou levemente, mesmo com sinais de descompressão do risco global devido ao possível acordo entre EUA e Irã, que vem se arrastando há três meses. Na sessão, o Ibovespa oscilou entre 174.686 e 176.627 pontos, com volume financeiro de R$ 21,2 bilhões. Na semana, o índice caiu 0,65%, e no mês acumula perda de 6,54%, embora tenha alta de 8,65% no ano.
No fechamento, o Ibovespa marcou 175.063 pontos, queda de 0,39%. Em Nova York, principais índices subiram, chegando a máximas históricas. O dólar caiu 0,57% frente ao real.
Matheus Spiess, analista da Empiricus, atribuiu o otimismo à melhora na geopolítica, resultados fracos do Caged que diminuem pressão sobre a Selic, e uma inflação ainda preocupante, de acordo com o PCE americano.
Igor Monteiro, CEO da EqSeed, destacou a chegada de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve como um teste importante para a credibilidade da política monetária.
No mercado de ações brasileiro, os setores metálicos tiveram alta, especialmente CSN e Usiminas. Já varejistas como Magazine Luiza e Atacadistas como Assaí sofreram quedas.
Petrobras teve leve queda nas ações, enquanto os contratos futuros de petróleo fecharam em alta moderada, em meio à volatilidade e à expectativa do acordo entre EUA e Irã.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que os EUA manterão medidas defensivas no Estreito de Ormuz e que um acordo com o Irã depende de negociações sobre a rota marítima e o programa nuclear iraniano.
Internamente, a Petrobras anunciou um aumento no preço da gasolina nas refinarias, mas com subsídio do governo, o impacto para os distribuidores será pequeno, estimado em aumento residual de R$ 0,04 por litro.
Taxas de juros
Apesar de indicadores econômicos variados, as taxas dos juros futuros subiram nesta quinta-feira. A oferta pelo Tesouro de mais de 20 milhões de títulos prefixados elevou o risco no mercado, que reagiu com alta nas taxas.
Os contratos DI para janeiro de 2027, 2029 e 2031 apresentaram aumento, refletindo maior aversão ao risco e expectativas para a política fiscal.
Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, explicou que o leilão de prefixados adicionou mais risco do que o mercado podia absorver, e com pouca demanda pelas LTNs para 2030, houve forte movimentação técnica na curva de juros.
O Cadastro Geral de Empregados (Caged) de abril mostrou criação de 85.888 vagas, número abaixo das expectativas e o pior resultado para abril desde 2020. Apesar disso, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) indicou desemprego em 5,8%, sugerindo ainda certa resiliência no mercado de trabalho.
Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, considera que os dados indicam desaquecimento nos fundamentos do emprego, o que pode ajudar o Banco Central na redução gradual da Selic.
A curva de juros refletiu a leitura mais positiva sobre a guerra, mas foi mais influenciada pela situação doméstica, com aumento na emissão de títulos pelo Tesouro.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, afirmou que o mercado está mais atento aos dados domésticos esta semana e que o cenário de melhora na geopolítica tem acalmado os agentes.
Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central, destacou em evento que a alta nas expectativas de inflação para 2028 exige atenção redobrada, indicando uma postura mais conservadora no futuro próximo.

