MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS
As ações da Raízen tiveram uma queda significativa nesta quinta-feira (28), após a empresa revelar detalhes do plano de recuperação extrajudicial apresentado aos credores para reestruturar sua dívida.
Por volta das 14h45, os papéis da joint venture entre Cosan e Shell caíam 16,66%, sendo negociados a R$ 0,35. Durante o dia, a queda chegou a 21,43%, com o valor chegando a R$ 0,33.
A reação negativa do mercado ocorreu porque o plano prevê que 45% da dívida da empresa seja convertida em ações avaliadas a R$ 0,25 cada, valor cerca de 40% inferior ao preço de fechamento do dia anterior.
A Raízen preferiu não se pronunciar sobre o assunto.
Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, comentou: “Isso representa um valor bem abaixo do preço de mercado e implica uma diluição muito forte para os atuais acionistas”.
Alexandre Pletes, chefe de renda variável da Faz Capital, afirmou que o mercado já esperava a conversão da dívida em ações, mas o preço surpreendeu negativamente: “Esperava-se que o preço fosse mais próximo do valor de mercado, talvez até um pouco acima, especialmente para quem manteve posição nas ações da Raízen”.
O plano também propõe dividir a Raízen em duas empresas distintas: a Raízen Combustíveis, focada na venda e distribuição de combustíveis sob a marca Shell no Brasil, e a Raízen Energia, dedicada ao processamento da cana-de-açúcar para produzir etanol e gerar energia elétrica.
Júlio Moretti, CEO da Neot, startup especializada em recuperação judicial e falências, observou que essa divisão pode criar dúvidas no mercado, sugerindo uma possível separação entre Cosan e Shell, o que poderia enfraquecer a recuperação da empresa.
O plano apresenta três opções para os credores renegociarem a dívida, que totaliza R$ 75,35 bilhões, dos quais R$ 65,4 bilhões estão incluídos na reestruturação.
A primeira alternativa inclui a conversão de 45% da dívida em ações a R$ 0,25 por papel, nas formas ordinárias e preferenciais. Os 55% restantes seriam divididos em novas dívidas das empresas Raízen Combustíveis e Raízen Energia, com vencimentos entre 2032 e 2035.
A segunda opção oferece um desconto de 80% sobre o valor da dívida, com pagamento dos 20% restantes em uma única parcela em 31 de março de 2047.
A terceira prevê pagamento em dinheiro equivalente ao menor valor entre 75% do crédito devido ou R$ 9.750, limitado a R$ 150 milhões no total.
Gustavo Trotta ressaltou que o principal ponto a ser observado é se a proposta avançará, destacando duas questões sensíveis: a entrada de capital por Rubens Ometto, que ainda não foi definida, e a injeção de recursos pela Shell.
Conforme o plano, a Shell comprometeria R$ 3,5 bilhões, e Aguassanta Investimentos, ligada a Rubens Ometto, fundador da Cosan, poderia aportar mais R$ 500 milhões.
Credores pedem a substituição de Rubens Ometto como presidente do conselho da Raízen, ecoando proposta anterior dos detentores de títulos.
Em termos de governança, a atual administração seria mantida, mas os credores teriam supervisão limitada apenas a temas importantes, com direito a veto.
Se aprovada a renegociação, haverá mudança no conselho de administração, que terá sete membros: quatro indicados pelos credores (incluindo o presidente do conselho) e três pelos atuais acionistas.
Para o plano valer, é necessária a aprovação de mais da metade dos credores sujeitos à recuperação extrajudicial. A Raízen ressalta que os termos podem mudar durante as negociações, dependendo das aprovações e da elaboração dos documentos finais.

