14.6 C
Brasília
sexta-feira, 17/07/2026

Morre Elza Berquó, pioneira da demografia no Brasil

Brasília
céu limpo
14.6 ° C
14.6 °
14.6 °
41 %
3.6kmh
0 %
sex
23 °
sáb
24 °
dom
26 °
seg
26 °
ter
21 °

Em Brasília

NAIEF-HADDAD
FOLHAPRESS

Aos 95 anos, a matemática, estatística e especialmente a demógrafa brasileira Elza Salvatori Berquó foi a primeira mulher a receber da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) o título de doutora honoris causa.

Em uma cerimônia realizada em agosto de 2021, ela disse: “Meu tempo é curto, mas foi suficiente para ver e ouvir vocês com muito carinho. Jovens, continuem estudando e lutando pela democracia”.

Elza Berquó deixou um legado importante em diversas áreas de pesquisa, principalmente na demografia, ciência que usa estatísticas para estudar as populações humanas. Ela faleceu aos cem anos, na quinta-feira, 16 de julho de 2026.

Além de publicar pesquisas que fizeram diferença, Berquó ajudou a criar instituições importantes para o estudo e a pesquisa, como o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969, e o Núcleo de Estudo de População (Nepo), da Unicamp, em 1982.

Elza nasceu em 17 de outubro de 1925 na cidade de Guaxupé, Minas Gerais, onde seu pai, funcionário dos Correios, morava temporariamente. Anos depois, já morando em Campinas, decidiu estudar matemática na Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Formada em 1950, começou a trabalhar na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Em 1958, fez doutorado em bioestatística na Universidade Columbia, EUA.

Sobre sua paixão pela estatística, Berquó comentou em 2017 que gostava dos modelos probabilísticos, pois eles indicam que algo pode ou não acontecer. No entanto, ela foi buscar explicações sobre os fatores sociais, econômicos, culturais e políticos que influenciam os resultados desses modelos e encontrou seu campo na demografia.

Em 1965, junto com outros pesquisadores da USP, como as demógrafas Neide Patarra e Maria Coleta de Oliveira e o economista Paul Singer, realizou estudo sobre reprodução humana na cidade de São Paulo. Foi a primeira vez que se percebeu uma queda na taxa de nascimento das mulheres paulistanas, que depois foi confirmada em pesquisa nacional coordenada por ela na década seguinte.

Mais tarde, Berquó explicou à Folha as razões para esse declínio na fertilidade, citando a maior divulgação de métodos contraceptivos e também o impacto das telecomunicações do Brasil a partir dos anos 1970. Segundo ela, ao chegarem sinais de TV nas áreas mais remotas, foram transmitidos valores que valorizam famílias menores, como mostrado nas telenovelas.

Em 1966, a pesquisadora criou na USP o primeiro núcleo oficial de formação em demografia do país, chamado Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip). Porém, com o endurecimento da ditadura em 1968 e o Ato Institucional nº 5 (AI-5), Berquó foi aposentada compulsoriamente.

Pouco depois, retomou sua carreira ao participar da fundação do Cebrap, junto com nomes como os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Giannotti. Este último destacou que Elza chegou com um projeto claro e mostrou a revolução que estava acontecendo na reprodução dos brasileiros. O auditório do Cebrap foi nomeado em homenagem a ela em 2017.

Nos anos 1960, Elza e seu primeiro marido, o matemático Rubens Murilo Marques, moraram na Chácara Flora, em São Paulo, em uma casa projetada pelo arquiteto Vilanova Artigas. A casa serviu como esconderijo para jovens da luta armada, que infelizmente foram mortos pelo regime militar.

Nos anos 1980, com o início da redemocratização, Berquó teve papel importante ao montar o Nepo, na Unicamp, convidada pelo reitor José Aristodemo Pinotti. O núcleo passou a desenvolver pesquisas sobre saúde da população negra, mortalidade infantil e expectativa de vida dos brasileiros, entre outros temas.

Em 1989, no artigo “A Solitária Diferença”, apresentou o conceito de “pirâmide da solidão”, explicando que os homens tendem a se relacionar com mulheres da mesma idade ou mais jovens, enquanto as mulheres têm menos chances de achar parceiros conforme envelhecem.

Berquó não teve filhos e viveu com seu segundo marido, o administrador público José Ademar Dias, a quem chamou de o grande amor de sua vida.

Para a pesquisadora Margareth Arilha, amiga e colega no Nepo, Elza foi uma pessoa sempre dedicada à produção científica, inovadora em áreas como saúde e direitos sexuais e reprodutivos, destacando desigualdades e direitos humanos, especialmente das mulheres. Seu comprometimento com a vida pública, movimentos sociais e a democracia será lembrado por muito tempo.

Elza Berquó completou cem anos em 2025, com saúde frágil, mas ainda ativa no trabalho. Foi homenageada em seminários e em um projeto especial online, e o núcleo de estudos da Unicamp passou a levar seu nome.

Veja Também