FELIPE MEDEIROS
FOLHAPRESS
A Polícia Civil de Roraima concluiu uma investigação que indica que o casal de pastores Wenderson Lima de Souza, 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, 24 anos, pode ter utilizado a igreja evangélica onde atuavam para abusar sexualmente de adolescentes.
A defesa dos dois nega as acusações, afirmando a inocência do casal.
De acordo com a polícia, várias vítimas contaram que os abusos ocorreram por vários anos. O casal exercia suas atividades na capital do estado, Boa Vista, local onde os crimes teriam sido cometidos.
O casal foi formalmente acusado por suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual, entre outros crimes. O inquérito foi enviado ao Ministério Público Estadual e à Justiça para análise, podendo resultar em denúncia criminal e início de processo penal.
Um dos registros mostra que uma vítima, de 14 anos, acompanhada por uma amiga maior de idade, relatou à delegacia um dos casos de abuso.
“O pastor levou a menor para uma rua pouco movimentada no bairro, fez uma brincadeira relacionada à cor da roupa íntima e pediu para que tirasse uma peça de roupa, a blusa ou a calça. Ela disse que não se sentia confortável, então ele pediu para mostrar o sutiã, e em seguida a colocou de costas e começou a se masturbar”, relatou o boletim de ocorrência.
A investigação iniciou após duas adolescentes procurarem voluntariamente a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Em cerca de 50 dias, os policiais ouviram 41 pessoas e identificaram outras possíveis vítimas.
A delegada responsável, Kamilla Basto, explicou que o casal usava a posição religiosa para ganhar a confiança das adolescentes, que estavam em situações vulneráveis emocional e financeiramente.
“Eles exploravam o ambiente religioso para se aproximar e controlar as vítimas. Usavam a fé como meio de manipulação e o medo reverencial para mantê-las em silêncio”, disse a delegada.
Ao todo, 11 adolescentes com idades entre 12 e 17 anos foram identificadas como vítimas. Cinco delas preferiram não prestar depoimento.
Segundo o relatório, o casal afirmava às adolescentes que os atos abusivos eram justificados por interpretações da Bíblia e que faziam parte de uma prática espiritual destinada a satisfazer desejos da mulher.
A delegada ainda relatou que o pastor oferecia cargos dentro da igreja, como diaconisa e pastora, para recompensar vítimas e testemunhas, consolidando o controle sobre elas.
As investigações indicam que algumas vítimas ficaram sob influência do casal por vários anos.
Em um dos casos, os abusos evoluíram para violência sexual envolvendo outros homens, com as vítimas vendadas para não identificarem os autores, conforme a polícia.
A igreja possuía cinco congregações entre Roraima e Amazonas. Parte das vítimas mantinha vínculo religioso e até parentesco com os investigados.
O advogado do casal, Fabiano Negreiros, afirmou que seus clientes negam as acusações e aguardam acesso oficial aos documentos do inquérito para se manifestar detalhadamente.
Durante a apuração, foi constatada tentativa de destruição de provas. Uma mulher de 20 anos foi indiciada por fraude processual e corrupção de menores por envolvimento na eliminação de dados do celular do pastor. Uma das vítimas teria sido orientada a registrar um boletim falso sobre o desaparecimento do aparelho.
O pastor Wenderson Lima de Souza foi indiciado por estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento à prostituição ou exploração sexual, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica.
Sua esposa, Arielly Kamila Moraes de Souza, é suspeita dos mesmos crimes, excluindo alguns.
A delegada informou que os investigados não possuem antecedentes criminais conhecidos e que o inquérito poderá ser ampliado caso novas vítimas apareçam.
A igreja foi fechada e os pedidos de prisão do casal estão sob sigilo judicial.
