FELIPE GUTIERREZ E RAQUEL ATHAIDE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Dar mesada para crianças e jovens sem que eles tenham que cumprir tarefas em troca, como ajuda nas atividades de casa ou comportar-se bem, é uma forma melhor de eles aprenderem sobre dinheiro do que receber mesada apenas por fazer essas tarefas. Essa é a conclusão de um estudo divulgado pela revista Estudos Econômicos da USP, em março.
Os pesquisadores Ivana Carla Strapazzon, Marco Tulio Aniceto França e Gustavo Saraiva Frio usaram informações do Pisa, a maior avaliação educacional do mundo, organizada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Desde 2012, o Pisa inclui uma parte opcional para medir o conhecimento financeiro dos alunos. No Brasil, os estudantes participam dessa avaliação, enquanto alguns países optam por não incluir essa parte.
Na prova de 2018, cerca de 38 mil jovens de 15 anos receberam testes sobre finanças, assunto que os economistas estudaram. Eles analisaram temas como entendimento sobre dinheiro, operações financeiras, planejamento, controle do dinheiro, identificação de riscos, ganhos e o panorama das finanças.
Os resultados mostraram que crianças que recebem mesada sem obrigação aprendem mais sobre o assunto, embora a diferença nas notas seja pequena.
Receber dinheiro sem precisar fazer tarefas melhora a nota em 0,06 ponto numa escala de 0 a 10.
É essa a prática do pai Eduardo Gomes Lima, que dá R$ 100 por mês para sua filha mais velha, Maria Eduarda, de 13 anos, sem condições. Ele acredita que isso ajuda a filha a aprender a planejar compras maiores e a desenvolver paciência e saber priorizar.
Daniela Gomes Serra, bailarina e professora, também optou por dar mesada para seus filhos. Os dois mais velhos já são adultos, e a caçula, Ellena, de 10 anos, recebe cerca de R$ 100 por mês. No começo, ela ganhava pequenos valores por tarefas, mas agora usa o dinheiro de forma livre, aprendendo sobre consumo.
Outros pontos considerados
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores levaram em conta outros 20 fatores que podem influenciar o desempenho dos jovens, como a participação dos pais na educação, o tempo dedicado aos estudos, o ano escolar e se o aluno faz atividades extras.
Apesar disso, o questionário usado não pede detalhes sobre quais atividades os alunos fazem para ganhar mesada nem quanto tempo dedicam a elas, conforme explicou Strapazzon.
Crianças que recebem dinheiro sem precisar cumprir tarefas têm liberdade para decidir o que fazer com ele. Assim, aprendem a gastar ou economizar e desenvolvem habilidades financeiras. Além disso, as famílias tendem a falar mais sobre dinheiro nessas situações.
Quando a mesada é dada só se a criança fizer tarefas, o tempo para estudar diminui, o que prejudica as notas, inclusive nas matérias que envolvem finanças.
Embora pareça estranho, a ideia de dar dinheiro só se a criança fizer tarefas não ajuda no aprendizado financeiro, como Ivana reconheceu: ela pensava que essa troca melhoraria o desempenho dos alunos, mas o estudo mostrou o contrário.
A especialista em finanças pessoais Carol Stange alerta que ligar mesada a recompensas distorce a relação com o dinheiro. Para ela, ajudar em casa faz parte da convivência familiar e não deveria ser algo pago.
A mesada, segundo Carol, serve para que crianças e jovens possam errar, aprender e entender o valor do dinheiro com suas próprias decisões.
Uma limitação do estudo é que os dados do Pisa não especificam quais tipos de tarefas os alunos fazem para ganhar mesada, deixando dúvidas sobre se são tarefas leves, trabalho na loja da família ou cuidar dos irmãos, como explicou a pesquisadora.
