O Restaurante Comunitário da Estrutural não abriu suas portas na manhã de quinta-feira (11). Funcionários responsáveis pela vigilância, cozinha e limpeza estão em greve, reclamando de salários atrasados, tarefas fora da função original e condições de trabalho ruins. Eles acusam a empresa Servi Gastronomia Industrial, que administra o local, de não cumprir seus compromissos trabalhistas. Ainda pela manhã, servidores da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) estiveram no restaurante para negociar com representantes da empresa e os funcionários em greve. Há relatos de que não havia nem gás para cozinhar as refeições habituais.
Warley Santos, usuário do restaurante, chegou cedo para garantir o café da manhã, servido das 7h às 9h, mas não conseguiu comer. Às 10h, ainda estava sem comer. Ele comentou: “Não tenho onde comer e sem comer não consigo trabalhar.” Para o almoço, pretende ir de bicicleta ao Parque da Cidade, onde o Centro POP oferece refeições a preços baixos. Ele também destacou a importância dos funcionários receberem seus direitos.
Os trabalhadores em greve preferiram não dar entrevistas enquanto os problemas não forem resolvidos. Após o início da paralisação, ex-funcionários compareceram para se informar e verificar se receberão seus pagamentos pendentes. Thiago Vinícius, 18 anos, trabalhou por dois meses no restaurante, primeiro como auxiliar de serviços gerais e depois na cozinha. Demitido em maio, ainda não recebeu salário nem rescisão, e precisou pegar dinheiro emprestado para pagar despesas.
Rafaell Marques, vigilante noturno, descreveu tarefas que precisou fazer além das suas funções, como preparar alimentos e etiquetar marmitas. Ele está desde março na função e sempre enfrentou atrasos salariais e condições precárias.
O Governo do Distrito Federal, pela Sedes, disponibilizou um ônibus para levar os usuários até o restaurante de Arniqueiras, saindo por volta das 11h30 com 18 passageiros.
Reclamações
Vitória Serpa, que trabalhou na unidade Sol Nascente, disse que inicialmente os pagamentos foram feitos corretamente, mas depois começaram a atrasar, e a jornada de trabalho mudou de forma abrupta. Ela foi demitida recentemente e aguarda o acordo de rescisão.
Paulo*, contratado como motorista para apoiar vários restaurantes, relatou trabalhar quase 20 horas por dia, mesmo recebendo valor fixo pela função de motorista. Ele pediu anonimato por medo de retaliações.
Suellen da Costa atuava como auxiliar de serviços gerais, porém era obrigada a assumir funções extras sem condições adequadas. Ela comentou que nem tempo para o almoço recebia e a empresa deve cerca de R$ 5 mil a ela.
Contexto
A empresa Servi ganhou a licitação para administrar os restaurantes em 2025, oferecendo um valor de R$ 31,2 milhões, quase metade do preço-base estipulado pela Secretaria de Desenvolvimento Social. Em fevereiro, foram assinados contratos para os restaurantes do Sol Nascente e Estrutural, totalizando R$ 18,6 milhões. O contrato do restaurante de Ceilândia ainda não está ativo. O sócio-administrador da empresa é Cleyton dos Santos Amanajás, mas os contratos são assinados por Robson Pacheco Pimentel, identificado como representante comercial.
Ambos possuem histórico de processos por inadimplência, incluindo débitos relacionados à Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de gastos incompatíveis com a situação financeira da empresa.
Pagamentos e pagamentos atrasados
A Servi alegou que aguardava repasses financeiros do Governo do Distrito Federal através da Secretaria de Desenvolvimento Social. No entanto, segundo dados públicos, a empresa recebeu mais de R$ 1 milhão referente aos meses em que iniciaram os atrasos. O dinheiro depositado entrou em contas da empresa, mas os salários dos funcionários foram pagos por meios não oficiais.
Vitória e Suellen mostraram comprovantes de pagamentos feitos por outra empresa chamada RobinFood, que atua principalmente em outros estados, não no Distrito Federal. A reportagem tentou contato com a RobinFood sem sucesso.
Paulo também explicou ter recebido pagamentos por meio da RobinFood e de outra churrascaria não localizada. A Servi usa vários registros judiciais e empresariais diferentes, o que confunde os funcionários sobre a quem devem cobrar e dificulta ações legais contra a empresa.
Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social afirmou não ter competência para interferir nas relações entre a empresa e seus fornecedores ou funcionários, mas que tem tomado medidas contratuais como notificações e apurações. Também garantiu que não houve interrupção nas refeições na unidade de Ceilândia Norte, que continua funcionando normalmente.
*Nome fictício

