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Saúde

Telemedicina ajuda a salvar vidas no SUS com reabilitação

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Cláudia Collucci
Folhapress

Um método de reabilitação por telemedicina aplicado em hospitais públicos brasileiros conseguiu diminuir a taxa de mortes entre pacientes graves do SUS e melhorar a recuperação deles após deixarem o hospital.

Os resultados foram divulgados em um congresso internacional de terapia intensiva na Irlanda do Norte e publicados na revista científica Jama, reconhecida mundialmente.

Comparado com o cuidado tradicional, o método reduziu a mortalidade em 7,6 pontos percentuais para pacientes com insuficiência respiratória aguda usando ventilação mecânica, caindo de 78,3% para 71,8% em 90 dias.

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O estudo, liderado pelo Einstein Hospital Israelita e pelo Hospital Moinhos de Vento através do Proadi-SUS, acompanhou 1.916 pacientes internados em 20 hospitais públicos de várias regiões do país entre 2024 e 2025.

O modelo de cuidado incluiu três fases: suporte remoto às equipes das UTIs para acelerar a retirada da ventilação mecânica; avaliação multidisciplinar com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais durante a internação na enfermaria; e um programa personalizado de reabilitação por teleatendimento por dois meses após a alta.

“Nosso objetivo inicial era melhorar a qualidade de vida. Jamais esperávamos um impacto tão grande na sobrevivência”, afirma Regis Goulart Rosa, chefe do Serviço de Medicina Interna do Hospital Moinhos de Vento e primeiro autor do estudo.

Ele destaca que existem poucas intervenções capazes de mudar desfechos cruciais para pacientes graves, como a mortalidade e qualidade de vida.

Os dados mostram que os pacientes acompanhados tiveram uma qualidade de vida 33% melhor que os do grupo que recebeu cuidados convencionais, considerando mobilidade, autonomia, atividades diárias, dor e saúde mental.

Além disso, o tempo de uso da ventilação mecânica caiu de 15,5 para 9,9 dias, e os pacientes ficaram em média 4,9 dias a mais vivos e fora do hospital nos três meses seguintes à internação.

Embora os custos ainda estejam sendo analisados, os pesquisadores acreditam que o método pode gerar economia para o SUS. “Grande parte da reabilitação foi feita remotamente, com uma equipe central atendendo pacientes de 20 hospitais sem necessidade de contratações extras”, explica Rosa.

O estudo visa enfrentar um problema crescente na medicina: a síndrome pós-UTI. Muitos pacientes sobrevivem, mas saem do hospital com limitações físicas, cognitivas e emocionais que podem durar meses ou anos.

Adriano Pereira, coordenador da Tele-UTI do Einstein e autor sênior do estudo, ressalta que a recuperação desses pacientes não termina na saída da terapia intensiva.

“A doença grave na UTI é tratada como um problema agudo, mas para muitos ela se torna uma condição crônica. Os sobreviventes frequentemente enfrentam sequelas que dificultam até atividades simples, como vestir roupas, andar ou voltar ao trabalho”, diz.

Essas sequelas vêm da combinação da gravidade da doença e dos efeitos dos tratamentos intensivos.

“A UTI salva vidas, mas os tratamentos invasivos, como ventilação mecânica e sedação prolongada, podem causar consequências que duram muito tempo depois da alta”, explica.

Para reduzir essas sequelas, a intervenção começou ainda na UTI, com orientações para diminuir sedação, retirar dispositivos desnecessários e prevenir delírio, uma alteração cerebral comum.

Após a UTI, os pacientes passaram por avaliações para identificar problemas físicos, psicológicos, cognitivos e nutricionais, recebendo planos personalizados com fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e fonoaudiólogos. O acompanhamento durou até oito semanas após a alta.

Pereira destaca que a doença crítica tem muitas causas e não existe uma solução única para todos os problemas.

Um exemplo dado é a redução do tempo na ventilação mecânica, pois quanto menos tempo o paciente fica sedado e dependente do ventilador, menores são as sequelas.

Para Luisa Frazão, coordenadora de Atenção Hospitalar do Ministério da Saúde, os resultados podem melhorar a organização do SUS, pois a redução do tempo na ventilação mecânica ajuda no uso mais eficiente dos leitos e na alta planejada.

A telemedicina também ajudou a superar a dificuldade histórica do SUS em garantir acompanhamento após a alta, conectando diferentes etapas da assistência que costumam funcionar separadas.

Um quarto dos pacientes recebeu smartphones para garantir acesso às consultas online. “Queríamos evitar barreiras tecnológicas”, afirma Pereira.

Os autores ressaltam que o estudo foi feito com pacientes brasileiros do SUS, muitos em situação de vulnerabilidade, grupo pouco representado em pesquisas internacionais.

Rosa afirma que cerca de 40% dos pacientes tiveram algum grau de comprometimento cognitivo após a internação, exigindo ajuda dos familiares na recuperação. Os dados obtidos devem ajudar nas decisões futuras do Ministério da Saúde.

Tarcísio Aquino, do Ministério da Saúde, destaca a importância do cuidado contínuo após a alta e como esses resultados podem ajudar o programa Melhor em Casa a gerenciar pacientes com fraqueza pós-UTI.

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