Entre máquinas de costura e peças espalhadas pelo ateliê na região administrativa do Guará, o artesão Igor Pereira, de 28 anos, transforma suas vivências da periferia em bolsas, roupas e acessórios que unem moda, funcionalidade e identidade.
Criado apenas pela mãe, empregada doméstica, Igor nasceu e cresceu em Samambaia (DF), a 30 quilômetros de Brasília. Lembra da luta da família para se sustentar com apenas um salário mínimo.
Já adulto, ele viu no empreendedorismo uma maneira de reconstruir sua vida após enfrentar depressão e vulnerabilidade social. “Tudo que eu aprendi foi com minha mãe e com a rua. A rua pode te pegar, mas também traz muitas referências”, conta.
Sua marca começou sem planos. Sem encontrar roupas que combinassem com seu estilo, Igor passou a criar camisetas para si com a logo “Piffi”.
Ao postar fotos nas redes sociais, amigos se interessaram e começaram a encomendar peças, transformando a necessidade pessoal em negócio.
Agora ele cria bolsas e acessórios pensando no dia a dia da periferia. “Nossas necessidades mudam conforme o dia”, explica.
Ele transforma realidade em inovação. Um dos produtos mais vendidos é uma bolsa “quatro em um”, que vira pochete, mochila, colete ou transversal.
Com estilo, conforto e segurança para o ambiente urbano, a peça ganhou o prêmio ExpoFavela Brasília 2023, evento dedicado ao empreendedorismo periférico.
A grife do povo
O apelido veio dos próprios clientes. Ao usarem as peças, eles se sentem parte de um grupo. A preocupação com acessibilidade está no negócio. Recentemente, a marca criou chaveiros com retalhos para reduzir desperdício e facilitar o acesso para todos.
Segundo o Sebrae, pretos e pardos são 15,8 milhões de donos de negócios no Brasil, um aumento de 17% em dez anos. Para Igor Pereira, empreendedores negros fazem mais que gerar renda.
“Muita gente inspirou meu trabalho e meu trabalho inspira muita gente.”
Dar visibilidade aos negócios da periferia mostra que ali há estética, conceito e inovação. Embora outras pessoas se apropriem das vivências da periferia, ele lembra que a criatividade nasceu nesses espaços.
“Essa validação é só comercial. A periferia sempre produz”, afirma.
Igor sonha em criar um ateliê comunitário na periferia, onde moradores possam usar equipamentos para produzir sem custos altos.
Ele quer expandir sua empresa, fortalecer parcerias com artistas periféricos e criar uma rede de apoio para quem enfrenta os mesmos desafios.
“Não é só crescer sozinho. Quero estruturar para ajudar outros artistas nesse processo”, diz.
De mãe para filha
Alguns negócios passam de geração em geração, como o da cabeleireira Kauana da Silva. Ela ampliou o empreendimento criado pela mãe, transformando o saber ancestral em sustento.
Há 30 anos, a mãe, Iara da Silva, fez das tranças um meio de garantir renda. Fundou o salão “Beleza Afro”, no Conic, Brasília.
O negócio sustentou a família e, após a aposentadoria de Iara, passou para a filha.
“Tudo hoje na minha vida está ligado ao salão”, afirma Kauana.
Kauana acompanhou a mãe desde criança, começou como maquiadora e depois virou trancista especialista em cabelos crespos e cacheados. Na pandemia, se apaixonou pelo negócio.
Ela trouxe novidades para o salão, apostando em divulgação frente à concorrência.
Com dez anos de experiência, Kauana gere uma equipe de seis profissionais especializados. O salão funciona de segunda a sábado.
Para ela, negócios com foco em cabelos crespos fortalecem a identidade negra e criam oportunidades econômicas.
“Hoje, representatividade é essencial. Além de cuidar do nosso cabelo, é oportunidade para pessoas negras aprenderem e gerarem renda.”
Bico voltado para trás
O professor Hector Vieira usa tecnologia para fortalecer o empreendedorismo negro. “Senti que devia fazer mais pelo povo negro”, conta.
Foi assim que nasceu a Sankofa, um espaço virtual que conecta empreendedores, prestadores de serviços e consumidores para fortalecer negócios negros, com planos gratuitos disponíveis.
“A Sankofa é como uma rede social para negócios liderados por negros.”
O nome vem de uma palavra que simboliza um pássaro com o bico voltado para trás, carregando um ovo nas costas.
“Escolhemos esse nome para buscar no passado novidades para o futuro.”
Hector acredita que combater o racismo precisa estar em todas as áreas, principalmente na economia.
“A educação antirracista econômica busca a riqueza que foi roubada do povo negro”, explica. Mais de 150 empreendedores participam e o projeto é aberto a todos engajados na causa antirracista.
O objetivo é ampliar a presença dos empreendedores negros no mercado e fortalecer suas atividades.
“Percebi que precisamos criar projetos para que o povo negro resgate o que foi tirado e prospere economicamente.”

