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sábado, 20/06/2026

Mulher de Serra Leoa dorme 6 meses em aeroporto de Belém; Justiça exige ajuda do governo

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Luciana Cavalcante
Belém, PA (Folhapress) – Uma mulher de Serra Leoa tem passado as noites nos últimos seis meses no Aeroporto Internacional de Belém. Ela não conseguiu embarcar para o Panamá depois que seu passaporte foi roubado na capital do Pará.

Durante esse período, Fatmata Sessay, 56 anos, vem dormindo no saguão do aeroporto e se alimentando em um centro de acolhimento municipal. Na última quinta-feira (18), ela recebeu uma passagem do Ministério Público do Pará para embarcar na segunda-feira seguinte (22) para o Panamá. Ao receber a notícia, Sessay se emocionou.

“Ninguém me ajudou aqui. Só você que comprou minha passagem. Muito obrigada. Se Deus quiser, vou encontrar meu filho e recomeçar minha vida”, disse ela ao promotor Nadilson Portilho, que acompanha o caso.

“Já providenciamos a passagem para o dia 22 de junho, e até lá vamos ajudar com o visto e a carteira de vacinação internacional para que ela possa viajar”, explicou o promotor.

Na noite de sexta-feira (19), a Justiça Federal no Pará aceitou um pedido do Ministério Público Federal e determinou que o governo estadual e o Itamaraty ofereçam assistência consular para que Sessay receba os documentos necessários em até 48 horas.

A história de Sessay até o aeroporto de Belém é complicada, principalmente por causa da dificuldade dela em se comunicar. O idioma oficial de Serra Leoa é o kriô, e ela tem dificuldade em falar português e outras línguas.

Ela contou que deixou São Paulo, onde morava há 18 anos, rumo ao Panamá no fim do ano passado para encontrar seu filho, de 15 anos.

Viajando sozinha, disse que sofreu um assalto no Peru. Desde então, tem conseguido se movimentar com ajuda de voluntários. De lá, ela foi para o Suriname e depois embarcou para Belém.

“Fui roubada e as pessoas me ajudaram. Cheguei no Suriname e compraram uma passagem para Belém, dizendo que seria mais fácil conseguir passagem para o Panamá daqui”, contou Sessay.

Em Belém desde dezembro do ano passado, ela sofreu novo assalto, quando teve o passaporte roubado e perdeu uma passagem doada para o Panamá que tinha embarque marcado para 16 de abril.

“Comprei a passagem Belém-Bogotá-Panamá e mostrei o celular para o homem para ele carimbar o passaporte, mas ele pegou o passaporte da minha mão e não devolveu”, explicou.

O roubo ainda está sendo investigado pela Polícia Federal, segundo o Ministério Público Estadual, que também está ajudando. “Sabemos que ela foi roubada e por isso não conseguiu embarcar. O caso está sob investigação”, declarou o promotor Portilho.

Mesmo com as dificuldades, Sessay conseguiu fazer um novo passaporte em Belém. Sem dinheiro para continuar a viagem, passou a viver no aeroporto.

“Durmo no chão aqui. Durante o dia, vou ao Centro Pop para comer e tomar banho. A prefeitura cadastrou-me no Bolsa Família”, disse ela.

A Prefeitura de Belém confirmou que Fatmata Sessay está sendo acompanhada por equipes sociais desde dezembro de 2025 e recebe alimentação diária no centro de acolhimento. Ela também passou a receber o Bolsa Família.

No entanto, a imigrante recusou o serviço de acolhimento noturno para pessoas em situação de rua. A prefeitura afirmou que segue a política nacional de assistência, que não permite acolhimento forçado.

“Não quis ir para nenhum lugar porque quando saio tem gente e carros em cima de mim. Aqui no aeroporto me sinto segura”, afirmou Sessay.

A juíza Maria Carolina Valente do Carmo, da 1ª Vara Federal Cível da Justiça Federal, aprovou o pedido do Ministério Público Federal para que o Governo do Pará e o Ministério das Relações Exteriores garantam assistência consular à imigrante em até dois dias, realizando os trâmites necessários junto à embaixada de Serra Leoa, localizada em Washington, para regularizar documentação e obter vistos para a Colômbia e Panamá.

A Procuradoria denunciou abandono por parte das autoridades em todos os níveis e afirmou que Sessay vive em situação de vulnerabilidade social.

“Vemos neste caso tanto xenofobia quanto racismo, pois se fosse uma turista europeia isso não teria acontecido. Durante a COP 30, o posto consular funcionou normalmente e só voltou a fechar depois da decisão judicial”, disse o procurador regional dos direitos do cidadão, Sadi Machado.

A Secretaria de Estado de Justiça (Seju) informou que prestou atendimento a Fatmata Sessay em maio, encaminhando-a para a Fundação Papa João 23, que garante acesso a serviços de acolhimento e assistência.

Sobre a assistência consular, o Itamaraty indicou contato com as autoridades migratórias do aeroporto de Belém.

Desde que o caso ganhou atenção pública, várias pessoas têm ido ao aeroporto para oferecer alojamento e alimentação para Sessay.

“Vi a história na imprensa e ofereci minha casa para ela. Se quiser ficar lá até conseguir viajar, posso dar alojamento e comida. Fazemos o que o poder público deveria fazer”, disse a dona de casa Carla Livramento.

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