Marcelo Toledo
Foz do Iguaçu, PR, e Ciudad del Este, Paraguai (Folhapress) – A retatrutida é um medicamento ainda em fase experimental e não está oficialmente disponível no mercado. Mesmo assim, na fronteira brasileira com o Paraguai, a apreensão de canetas de retatrutida tem aumentado bastante nos últimos meses, similar ao que ocorreu com a tirzepatida, conhecida como Mounjaro.
Em muitas apreensões do “Mounjaro do Paraguai”, que é o nome popular da tirzepatida em Ciudad del Este, também são encontrados canetas ou ampolas da retatrutida, embora em menor quantidade devido à sua aprovação ainda inexistente e preço mais elevado.
Em Foz do Iguaçu, autoridades identificaram embalagens da retatrutida supostamente vindas da Alemanha ou do Paraguai, mas a origem exata é desconhecida. Enquanto a tirzepatida custa cerca de US$ 85, a caneta de retatrutida custa a partir de US$ 105.
A retatrutida atua nos receptores GLP-1, GIP e glucagon, ajudando a reduzir a fome e a melhorar o metabolismo, mas não está disponível nas farmácias e é vendida de forma ilegal. Em farmácias paraguaias visitadas, o medicamento não é comercializado oficialmente.
No Paraguai, a tirzepatida pode ser comprada sem receita médica, ao contrário do Brasil, onde é necessária prescrição. Segundo Luciano Stremel Barros, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), o contrabando da tirzepatida e da retatrutida aumentou rapidamente após o lançamento no mercado formal.
Uma operação recente encontrou 2.210 unidades de medicamentos para emagrecimento em um fundo falso de um veículo, a maioria tirzepatidas e cerca de 100 retatrutidas.
Cláudio Roberto Caetano Marques, auditor fiscal da Receita Federal em Foz do Iguaçu, comentou que mesmo sendo um produto ilegal, a retatrutida é popular porque ajuda na perda de peso, mas também representa um perigo à saúde pública, dado que não há dados confiáveis sobre os riscos do seu uso.
Ele ressaltou que a retatrutida está ganhando espaço no mercado clandestino devido aos estudos promissores sobre seu efeito na estética e emagrecimento, apesar de ainda estar em testes e sem aprovação pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.
Os auditores informaram que o número de apreensões de retatrutida aumentou especialmente no último mês. A farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, relatou que estudos indicam que a retatrutida pode ajudar pacientes a perderem mais de 28% do peso corporal em 18 meses e pretende buscar aprovação regulatória no próximo ano.
Se aprovada, a retatrutida pode se tornar o medicamento para perda de peso mais eficaz, concorrendo com outras drogas como Ozempic e Wegovy da fabricante Novo Nordisk.
Em testes com pacientes obesos sem diabetes, a dose mais alta de retatrutida resultou em uma perda média de 28,3% do peso ao longo de 80 semanas, e mais de 45% dos participantes perderam pelo menos 30% do peso.
Apesar da pesquisa ainda em andamento, o contrabando da retatrutida via Paraguai continua crescendo.
Em nota técnica conjunta, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Polícia Federal alertaram para os riscos sanitários graves causados pela circulação irregular desses medicamentos, ressaltando a complexidade da criminalidade envolvida, que utiliza farmácias de manipulação, clínicas e empresas de fachada para disfarçar a produção clandestina.
Em uma operação realizada em abril, foram encontrados medicamentos com retatrutida em três estados do Brasil e mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente.
A Eli Lilly informou que na fase final da pesquisa vai comparar o novo medicamento a tratamentos existentes, ampliar a análise de segurança e buscar aprovação das agências reguladoras internacionais, além de monitoramento pós-comercialização.
