JOÃO GABRIEL
BRASÍLIA, DF, E BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS)
O Brasil está tentando formar uma parceria com a Argentina e o Paraguai para facilitar a entrada de biocombustíveis, como o etanol e SAF (combustível sustentável para aviação), provenientes da América Latina, no mercado europeu que usualmente resiste a esses produtos.
Essa estratégia surge num momento em que a União Europeia está discutindo regras que podem dificultar a importação desses combustíveis verdes.
Para os países latino-americanos, o objetivo é ampliar a venda para um mercado grande, que tem diminuído o uso de combustíveis fósseis após os conflitos na Ucrânia e no Irã.
Jerônimo Goergen, ex-deputado federal e atual presidente da Aprobio (Associação Brasileira de Biocombustíveis), destaca a necessidade de unificar o discurso, pois Brasil, Paraguai e Argentina utilizam matérias-primas diferentes na produção dos biocombustíveis.
Enquanto a Argentina utiliza a soja, o Brasil prefere milho e cana-de-açúcar. “Queremos encontrar uma posição comum”, afirma.
“Estamos em processo de internacionalização do setor. Europa, Japão e Canadá têm potencial para compra, e precisamos definir como entrar nesses mercados. Eles não têm a capacidade que temos; somente o Brasil é capaz de abastecer o mundo com SAF, biodiesel e etanol”, complementa.
Até o momento, a Europa tem priorizado a eletrificação, um mercado dominado pela China.
Os conflitos recentes fizeram os preços do petróleo e do gás dispararem, expondo a dependência europeia de importações desses combustíveis do Oriente Médio e da Rússia.
Desde 2022, a União Europeia tem buscado diversificar suas fontes de energia e investir em alternativas aos fósseis.
A participação de renováveis na matriz energética da UE cresceu de 35% em 2020 para 48% em 2024, com meta de alcançar 70% até 2050.
De acordo com diplomatas do Brasil e da UE ouvidos sob condição de anonimato, não há interesse europeu em substituir combustíveis fósseis por biocombustíveis neste momento.
O principal foco europeu na América Latina são minerais críticos e terras raras, essenciais para tecnologias renováveis como baterias e painéis solares. Protocolos de intenção já foram assinados com Chile e Argentina, e negociações com o Brasil estão em andamento.
NA EUROPA
O Parlamento Europeu avalia uma resolução que, a partir de 2030, não considera biocombustíveis de óleo de palma e soja como sustentáveis para descarbonização, o que deve favorecer a eletrificação em detrimento do etanol e biodiesel. A votação está prevista para agosto.
Embora a medida não afete diretamente as importações, pode pressionar mais para que o milho e a cana também sejam excluídos.
Além disso, o Parlamento revisa a norma geral de renováveis, atualmente válida até 2030, para redefinir o que é considerado biocombustível sustentável, intensificando o debate entre setores.
A Europa ainda não é um grande mercado para biocombustíveis brasileiros. Em 2025, o Brasil exportou 1,6 bilhão de litros de etanol, dos quais pouco mais de 200 milhões foram para a UE.
O acordo UE-Mercosul prevê cotas superiores a 800 milhões de litros para etanol sul-americano, o que pode aumentar o volume exportado.
Produtores também apostam no crescimento das exportações de biodiesel, que hoje respondem por apenas 1% da produção.
Segundo Erasmo Carlos Battistella, presidente da Be8, o setor de biodiesel pode crescer com exportações regulares para a Europa, que ganharia uma solução rápida para reduzir a dependência do diesel fóssil em crises globais.
Sua empresa já possui uma usina na Suíça e abriu recentemente um escritório na Itália.
Produtores brasileiros planejavam visitar a Europa para negociações com a União Europeia, mas preferiram adiar e criar primeiro a aliança com Argentina e Paraguai, proposta que partiu do Brasil e encontra-se em fase inicial.
Estudos europeus indicam que combustíveis vegetais competem com terras para produção de alimentos, o que poderia afetar a segurança alimentar e contribuir para o desmatamento.
Para rebater, produtores brasileiros encomendaram pesquisa à USP mostrando que, diferentemente da Europa que faz uma safra por ano, a América Latina pode ter de dois a três ciclos anuais.
Assim, os biocombustíveis não exigem nova área plantada, usando terras já cultivadas sem provocar desmatamento.
A Europa é mais receptiva a biocombustíveis na aviação, como o SAF, mas a maior parte do combustível verde usado pelos aviões europeus vem da reciclagem do óleo de cozinha, não de vegetais.
Mesmo no melhor cenário, a expectativa é que a Europa alcance apenas 10% de uso de SAF na aviação até 2050.
