O Ibovespa fechou o dia em queda e caiu abaixo dos 170 mil pontos, nível que não atingia desde janeiro. Essa queda foi influenciada pela revisão das expectativas sobre os juros nos Estados Unidos, após o relatório de emprego mostrar um desempenho melhor do que o esperado, indicando que o Federal Reserve pode manter os juros altos por mais tempo.
A queda do Ibovespa foi acompanhada por uma forte venda nas bolsas americanas, especialmente no setor de tecnologia e semicondutores, fazendo o índice brasileiro fechar com queda de 0,77%. Na semana, acumulou perda de 2,74%.
O relatório de emprego dos EUA mostrou que foram criadas 172 mil vagas em maio, superando as projeções do mercado. Isso reforça que o mercado de trabalho americano segue forte, reduzindo a possibilidade de cortes nos juros pelo Fed em breve.
Com a notícia, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano subiram e o mercado passou a considerar uma possível alta de juros ainda este ano. A presidente do Federal Reserve de Cleveland, Beth Hammack, destacou que, embora os juros possam se manter estáveis por enquanto, se a inflação continuar alta, pode ser necessário agir rapidamente.
Em contrapartida, o ex-presidente americano Donald Trump comentou que o resultado positivo do emprego apoia a redução dos juros, argumentando que o crescimento econômico nem sempre causa inflação.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, ressaltou que o payroll reforça que o mercado de trabalho americano permanece resistente, o que justifica uma postura cautelosa do Fed em relação aos juros, favorecendo a renda fixa em comparação à renda variável.
No Brasil, as ações da Vale e Petrobras pressionaram a queda do índice, acompanhando a queda do minério de ferro e do petróleo, respectivamente.
Investidores também ficaram atentos a declarações do Irã, que ameaçou ampliar conflitos em certas regiões caso as negociações com os Estados Unidos não avancem, aumentando a cautela no mercado.
Gabriel Mollo, analista da Daycoval, destacou que além do payroll, o risco geopolítico também afetou o mercado, levando investidores a vender mais antes do fim de semana. O índice de volatilidade VIX subiu, mostrando o aumento da percepção de risco tanto nos EUA quanto no Brasil.
Marcos Praça, diretor da ZERO Markets Brasil, afirmou que o sentimento dominante foi aversão ao risco, com forte impacto sobre dólar, juros futuros e bolsa, especialmente devido ao payroll forte e venda de ações de tecnologia e semicondutores.
Bruna Sene, analista da Rico, indicou que o mercado está mais nervoso, influenciado por tensões internacionais e nova ameaça de tarifas dos EUA ao Brasil, além do payroll bem acima do esperado. Para ela, o Ibovespa pode encontrar suporte nos 168.500 pontos, que deve ser monitorado.
dólar
O dólar subiu rápido no mercado brasileiro, fechando em R$ 5,1572, seu maior valor desde abril, depois do relatório de emprego americano fortalecer expectativas de alta dos juros pelo Fed ainda em 2026.
A moeda americana já valorizou 2,27% no início de junho e diminuiu as perdas anuais para 6,04%. Embora tenha se desvalorizado mais que outras moedas hoje, ainda é uma das que melhor performa em 2026.
O índice que mede a força do dólar em relação a outras moedas fortes, o DXY, passou dos 100 pontos, seu maior valor desde abril. O dólar forte tem dificultado operações com o real, segundo Chris Turner, estrategista do banco ING, embora a melhora na popularidade do presidente Lula ajude o real.
Turner destaca que se os juros e o dólar não subirem muito, o real pode manter um bom suporte devido a seus juros altos e o Brasil ser exportador líquido de petróleo.
Sem novidades importantes no mercado brasileiro nem na política, o dólar inicialmente caiu, mas subiu após a divulgação do relatório de emprego nos EUA.
O Departamento do Trabalho americano informou criação de 172 mil vagas em maio, bem acima das estimativas, com revisões positivas para os meses anteriores. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,3% e o salário médio cresceu 0,3%.
Isadora Junqueira, economista da Az Quest, afirmou que o payroll reforça a ideia de que o Fed manterá ou aumentará os juros, pois inflação e mercado de trabalho seguem fortes.
Os rendimentos dos títulos de curto prazo dos EUA subiram, refletindo expectativas de juros maiores. O preço do petróleo caiu um pouco, mas ainda está alto, mantendo a sensação de risco.
Ferramentas que avaliam chances de aumento dos juros pelo Fed indicam 70% de probabilidade para dezembro, embora a maioria acredite em manutenção dos juros.
Paulo Gala, professor da FGV-SP, comentou que o payroll elevou o dólar no Brasil para R$ 5,15 e agravou a queda dos ativos locais, apontando para menor espaço do Banco Central para cortar a taxa Selic, dada a inflação e o dólar elevado.
juros
As taxas de juros futuros intermediárias e longas no Brasil atingiram máximas recentes, refletindo a expectativa de manutenção da Selic em 14,50% ao ano na próxima reunião do Copom, com 68% de probabilidade desse cenário.
Essa mudança no cenário ocorreu após o payroll bom nos EUA, aumentando as chances de alta dos juros pelo Fed no segundo semestre, em meio à inflação resistente, real desvalorizado e incertezas eleitorais.
Os contratos futuros de DI para 2027, 2029 e 2031 avançaram, indicando maior custo do dinheiro no futuro.
Segundo o time de economistas do Bradesco, liderados por Fernando Honorato Barbosa, a combinação de inflação via energia e mercado forte traz foco do Fed para controlar a inflação.
As chances de alta de juros em setembro aumentaram para 38,4%, ainda que a manutenção seja a aposta principal.
Carlos Lopes, economista do banco BV, disse que o payroll pressionou os juros futuros, e o mercado aguarda sinais do Banco Central sobre possíveis cortes na Selic, que ainda podem ser limitados.
Além disso, o banco Bank of America revisou suas projeções para a Selic devido à inflação e ao real mais fraco, esperando poucas quedas na taxa básica.
Marcos Praça conclui que o payroll mudou o cenário completamente, indicando que o Copom pode ter espaço apenas para mais um corte de juros, talvez nenhum.
Estadão Conteúdo.

