A série “Brasil 70: A Saga do Tri”, lançada pela Netflix, conta a história da Seleção Brasileira até o tricampeonato na Copa do Mundo de 1970, realizada no México. Além dos jogos, a produção destaca o contexto político da época, marcado pela ditadura militar e sua influência sobre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Em 1987, em uma entrevista ao programa Roda Viva, João Saldanha, técnico da seleção durante as eliminatórias, explicou que a CBD tinha o propósito de agradar o governante da época, o general Emílio Médici, que interferia na escalação dos jogadores.
Durante as eliminatórias de 1969, Saldanha enfrentou questionamentos a respeito de um pedido do general para convocar o atacante Dadá Maravilha. O técnico respondeu com humor, mostrando uma relação de compreensão com o presidente, mas ressaltou que cada um tinha suas funções.
Saldanha e seu trabalho
Mesmo invicto nas eliminatórias para a Copa de 1970, João Saldanha foi demitido menos de três meses antes do mundial. Ele conquistou importantes vitórias contra Colômbia, Venezuela e Paraguai, mas conflitos políticos e sua postura crítica levaram ao afastamento.
O técnico ‘João Sem Medo’
Para o professor de história Rafael Nascimento, o estilo combativo de João Saldanha e sua associação ao comunismo causaram desconforto ao regime militar. Além disso, suas denúncias sobre torturas sob o regime agravam a situação.
Mateus Gamba Torres, historiador da Universidade de Brasília, confirma que a recusa na convocação de Dadá Maravilha foi apenas um pretexto para demissão, enquanto o verdadeiro problema era a denúncia dos crimes da ditadura feita por Saldanha ao exterior.
O papel de Pelé
Pelé, o maior jogador brasileiro de todos os tempos, evitava falar sobre política. Porém, a série mostra que ele foi utilizado pelo regime como uma peça de propaganda durante a Copa de 1970, reforçando a imagem positiva do governo no cenário internacional.
Presença do regime militar
No México, o governo militar do Brasil estava presente na concentração da seleção, infiltrando oficiais em posições administrativas, logísticas e médicas para controlar a imagem da equipe e impedir vazamentos de informações.
Os jogadores, vindos de diferentes contextos e opiniões, percebiam o controle e a manipulação dos seus discursos. Segundo Rafael Nascimento, muitos relatam a consciência de estarem sendo observados.
Pelé procurava manter uma postura neutra politicamente, mas acabou sendo usado pelo regime para mostrar uma face de harmonia e vitória do país.

