A inadimplência no pagamento de aluguéis no Distrito Federal caiu para 1,91% em março de 2026, o valor mais baixo desde que a plataforma Superlógica começou a monitorar esses dados em 2023. Esse número é menor que os 2,67% registrados em fevereiro e também está abaixo da média nacional, que ficou em 3,21%.
Esses dados são do Índice de Inadimplência Locatícia (IIL), que acompanha pagamentos com atraso acima de 60 dias em contratos de aluguel gerenciados pela plataforma. O Distrito Federal está entre as regiões com menos atrasos no país, mesmo com a economia ainda enfrentando juros altos, inflação e aumento do custo de vida.
Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, vê esse resultado como positivo, mas alerta para a necessidade de analisar com cautela. “A queda é animadora, mas deve ser vista com cuidado antes de ser considerada uma marca histórica. O que temos é a menor leitura em um período ainda recente”, explica ele.
Daniel Claudino destaca que vários fatores contribuem para essa situação no DF, como a maior renda média da população, um mercado de trabalho mais formal e o tipo de contratos gerenciados por imobiliárias. “A explicação mais sólida combina vários elementos: um mercado de trabalho resistente, maior seletividade na aprovação de contratos e o uso crescente de análise de risco pelas imobiliárias”, afirma.
Renda estável ajuda o DF
O Distrito Federal sempre teve indicadores econômicos diferentes do resto do país. Em 2025, os trabalhadores do DF apresentaram a maior renda média do Brasil e uma das menores taxas de trabalho informal. Para o especialista, essas condições favorecem o pagamento em dia dos aluguéis. “A forte presença do funcionalismo público garante uma renda estável para muitos inquilinos, o que torna os pagamentos mais previsíveis”, afirma Daniel Claudino.
Ele também destaca que o mercado de trabalho é um fator importante, mas não o único a influenciar os números da inadimplência. “O aluguel é uma despesa recorrente e prioritária para muitas famílias, então emprego e renda são fundamentais para explicar os atrasos”, comenta.
No entanto, Daniel Claudino ressalta que a melhoria do emprego não elimina todos os riscos de atraso. “O mercado de trabalho ajuda, mas há outros fatores como dívidas das famílias, reajustes contratuais, custo de vida, o perfil dos contratos e a qualidade das garantias locatícias”, explica.
Orçamento apertado ainda é realidade
Apesar da redução nos atrasos, quem paga aluguel no DF ainda sente dificuldades. O estudante Tariq Marie Alves van de Werve d’Immerseel, de 23 anos, relata que boa parte da sua renda vai para o aluguel. “É pesado, pois pago 2.600 de aluguel. Como isso consome mais da metade do meu salário, mantenho-me graças aos meus investimentos e ajuda dos meus pais.”
Ele comenta que precisa renegociar o aluguel quase todo ano por causa dos reajustes feitos pelo Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M). “Todo ano peço renegociação, porque o reajuste pelo IGP-M geralmente é negativo, e assim tento economizar pelo menos 100 reais.”
Mesmo com o orçamento apertado, Tariq busca maneiras de melhorar suas finanças no dia a dia. “O DF é caro, mas encontro formas de economizar nas compras mensais.”
Pequenas reduções nos gastos básicos fazem diferença no fim do mês. “Tenho economizado na gasolina, que está ficando mais barata aos poucos, o que ajuda a fechar o orçamento.”
Embora já tenha pensado em mudar para um lugar mais barato, a proximidade do trabalho pesa na decisão de continuar onde mora. “Pensei em me mudar para um lugar mais acessível, mas agora não consigo por morar perto do trabalho e se for longe é difícil de me organizar.”
Atrasos maiores em imóveis comerciais
Enquanto os imóveis residenciais melhoraram nos índices, os comerciais continuam apresentando os maiores níveis de inadimplência no Centro-Oeste. Em março, a taxa foi de 4,73%, maior que a registrada em apartamentos e casas.
Daniel Claudino explica que isso ocorre porque o pagamento do aluguel comercial está ligado ao faturamento dos negócios. “Quando o caixa aperta, o aluguel comercial é o primeiro a atrasar ou entrar em negociação.” Pequenas empresas e prestadores de serviço são mais afetados pelos juros altos, menor consumo e aumento dos custos operacionais.
Ele ainda alerta que o cenário dos próximos meses merece atenção. Apesar da queda em março, é cedo para dizer se há uma tendência clara de estabilidade. “Juros altos, custo de vida elevado e endividamento das famílias continuam sendo riscos”, alerta.
Daniel Claudino destaca que os próximos resultados serão importantes para entender se a redução na inadimplência no DF é uma mudança duradoura ou apenas uma variação momentânea. “Março pode ser o começo de uma tendência ou apenas uma oscilação”, conclui.
