O governo está preparando um conjunto de ações chamado Desenrola 2.0 para ajudar as famílias brasileiras que estão com muitas dívidas, que já chegam a quase metade da renda anual dessas famílias. Esse programa visa aliviar a pressão das dívidas, para que as pessoas tenham mais dinheiro disponível para gastar e evitar uma queda acentuada na economia, especialmente com a aproximação das eleições.
O Desenrola 2.0 oferece opções como o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas, renegociação com descontos significativos e substituição por empréstimos com juros menores. Isso pode dar um respiro no orçamento familiar e incentivar que as pessoas voltem a consumir.
No entanto, esse alívio pode ter um efeito inesperado. Luciano Costa, sócio da Meridian Investment, alerta que, após essa fase, as famílias podem acabar contraindo novas dívidas, mantendo o ciclo de endividamento.
O aumento das dívidas ocorre por várias razões, como o crescimento do acesso a serviços financeiros, a digitalização e o surgimento das fintechs, além das políticas de crédito e fenômenos como os sites de apostas. Com a alta da taxa Selic, a dívida das famílias vem crescendo rapidamente.
Segundo dados do Banco Central referentes a janeiro, as dívidas bancárias somam 49,7% da renda anual dos brasileiros, um aumento significativo em relação a sete anos atrás, quando eram menos de 40%. Quase 30% da renda mensal das famílias é usada para pagar juros e parcelas dessas dívidas.
Essa situação de endividamento elevado e renda limitada torna a economia mais vulnerável, pois os bancos ficam mais cautelosos, as famílias gastam menos e o ciclo de endividamento tende a diminuir.
Em 2023, apesar do aumento da renda, o consumo não cresceu na mesma proporção, pois os recursos estão sendo usados para pagar dívidas. Estudo do banco Daycoval mostra que, em momentos de alto endividamento, o crescimento da renda não gera aumento equivalente no consumo.
Custo político
Nilton David, diretor de política monetária do Banco Central, explicou que o processo de redução das dívidas é fundamental para que os juros possam ser reduzidos. No entanto, para o governo, a redução do endividamento reduz o consumo, o que pode afetar o apoio popular.
Mesmo com emprego e renda maiores, muitos brasileiros sentem que nada mudou, já que cerca de 30% do salário é usado para pagar dívidas. Por isso, as medidas do governo, como o uso do FGTS para quitar dívidas e o aumento do crédito para certas categorias, são vistas com cautela pelo mercado, pois podem atrasar a redução do endividamento.
Luciano Costa alerta que essas ações podem ser contraproducentes e impedir a redução esperada do endividamento. Henrique Danyi, economista do Santander, acrescenta que, apesar do alívio temporário, essas renegociações podem estimular a contratação de novos créditos, aumentando a dívida no futuro, ainda que com juros menores e menos risco.
O efeito final vai depender do ritmo dos juros e de como as famílias e os bancos vão se comportar nos próximos meses.
Estadão Conteúdo
