VITOR HUGO BATISTA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A maioria dos brasileiros entende o que significa ter uma alimentação saudável. Contudo, transformar esse conhecimento em ações diárias permanece um desafio para muitos.
Um estudo chamado “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”, realizado pelo Pacto Contra a Fome e pelo Instituto Pensi, com suporte da FOLU e financiamento da Fundação José Luiz Setúbal, esclarece isso.
“A maior parte das pessoas sabe que uma alimentação saudável deve conter alimentos naturais, como frutas, legumes e verduras. Mas essa ideia nem sempre vira hábito”, explica Maria Siqueira, cofundadora e co-diretora-executiva do Pacto Contra a Fome.
Apesar da tentativa de planejar as refeições, fazer compras organizadas e cozinhar, fatores como falta de tempo, cansaço e preço alto dificultam manter uma rotina saudável.
Depoimentos mostram essa realidade: uma paulistana de 37 anos, classe AB, comenta que tem pouco tempo para cozinhar e por isso acaba preparando alimentos apenas quando sobra tempo à noite.
Comer de forma saudável é visto por muitos como algo que exige disciplina e esforço, o que diminui seu apelo. Em contrapartida, comidas ultraprocessadas e fast food são percebidas como práticas, mais baratas e recompensadoras emocionalmente.
“Hoje, alimentação saudável não é associada ao prazer, enquanto fast food e delivery são vistos como indulgência”, observa Maria Siqueira.
Outra participante, mãe de um filho e moradora de São Paulo, afirma que prefere opções rápidas, como empanados fritos, para economizar tempo. Já uma jovem de 26 anos da classe AB afirma que, após dias cansativos, pedir comida por aplicativo é a opção mais prática, mesmo que não seja saudável.
Claudia Koning, pesquisadora do Instituto Pensi, aponta que a pressa e a busca por praticidade são constantes entre todas as classes sociais.
Ela destaca que o planejamento das refeições exige uma carga mental, que inclui decidir o que cozinhar, lidar com preferências da família e conciliar tudo isso em uma rotina atarefada.
O estudo aconteceu em duas fases: análise de 210 artigos científicos e entrevista com 142 pessoas de cinco capitais brasileiras entre setembro e novembro de 2025, divididas entre jovens e adultos, majoritariamente mulheres.
Entre as barreiras, o custo dos alimentos aparece como destaque. A ideia de que comer bem é caro foi comum em quase todos os grupos, influenciando a escolha de produtos.
Na classe AB, o corte geralmente recai sobre itens considerados luxo, como doces e azeites especiais, sem afetar a base nutricional. Nas classes C e DE, há redução na variedade e qualidade, com menos carnes, frutas e legumes comprados.
Participantes das classes C e DE relatam que, quando o dinheiro aperta, alimentos como salada e frutas são os primeiros a sair do carrinho.
O cenário conversou com dados do IBGE mostrando que em 2024, 54,7 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar.
Essa insegurança varia de preocupação com o acesso futuro a alimentos até a falta real de comida em casa.
O estudo também mostra que as mulheres são as principais responsáveis pelo planejamento e preparo das refeições, mesmo quando trabalham fora, e sentem mais culpa em relação à alimentação da família.
Claudia Koning comenta que, muitas vezes, as mulheres acabam comendo o que sobra ou algo rápido, pois priorizam alimentar os filhos.
Superar esses desafios requer ações políticas e estratégias além da informação sobre nutrição. É preciso fornecer opções práticas e acessíveis para o dia a dia, destaca Claudia Koning.
Ela reforça que essa mudança não é só responsabilidade do governo. Organizações sociais, iniciativas filantrópicas e influenciadores nas redes sociais podem ajudar, ensinando dicas simples e práticas.
Maria Siqueira chama atenção para a necessidade de regular o ambiente alimentar, com subsídios para alimentos naturais e políticas que garantam opções mais baratas.
Também destaca o papel do marketing, hoje focado em alimentos prejudiciais, devendo ser usado para promover escolhas saudáveis.
Além disso, a educação alimentar nas escolas é fundamental. Experiências internacionais, como aulas semanais de culinária para crianças, ajudam a criar hábitos saudáveis que se estendem à família.
Claudia Koning observa: “O que a criança aprende na escola, ela leva para casa, influenciando toda a família”.
