CLÁUDIA COLLUCCI
EIRUNEPÉ, AM (FOLHAPRESS)
Na grande floresta amazônica, onde as distâncias podem ser muito maiores do que parecem no mapa, cuidar da saúde pública exige mais do que um simples plano técnico. É preciso adaptar as ações à geografia local, que tem suas próprias regras.
No Brasil, as políticas de saúde ainda são pensadas principalmente para lugares com acesso por estradas, deixando de lado regiões que dependem quase só dos rios. É o que explica a secretária municipal de Saúde de Eirunepé (AM), a enfermeira Nathaly Nascimento Rodrigues.
Eirunepé é um município isolado, acessível somente por avião ou barco. A distância em linha reta até Manaus é de 1.160 km, mas pelo rio a viagem pode durar até 21 dias; de avião, cerca de 1h50. Mais de 170 comunidades ficam espalhadas por grandes distâncias — algumas, como Ubim, no rio Gregório, estão a mais de 13 horas de lancha, podendo levar até seis dias em barcos menores na época da seca.
Nathaly relata que muitos programas nacionais não chegam a essas comunidades por não considerarem a realidade local. “Eles seguem por estrada. Aqui não tem estrada”, diz, mencionando unidades móveis de saúde, como as de saúde da mulher, que não funcionam em áreas fluviais.
A falta de recursos torna a situação ainda mais difícil: cada viagem da UBS fluvial custa cerca de R$ 100 mil, e o repasse federal cobre apenas uma parte, deixando o município com o restante do custo.
Outro desafio, segundo Nathaly, é a burocracia para aumentar as equipes de saúde da família. Pedidos por mais agentes comunitários continuam pendentes no Ministério da Saúde, mesmo com tantas comunidades distantes.
A Folha de S.Paulo acompanhou uma visita à comunidade de Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório, para abrir o primeiro posto de saúde local. O projeto, apoiado por iniciativa privada, combina telessaúde, atendimento médico presencial a cada dois meses e a presença constante de uma técnica de enfermagem e uma agente comunitária.
Os atendimentos são feitos conforme a vida local: acidentes com animais peçonhentos, lesões no campo e na pesca, além de diarreias relacionadas às variações da água. Doenças crônicas são menos comuns, muitas vezes por falta de diagnóstico. Para facilitar o acesso, a administração aposta em pontos de apoio na floresta, como o recém-inaugurado em Ubim.
A falta de saneamento básico expõe os moradores a riscos evitáveis. Com parcerias, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) está construindo cem banheiros em 17 comunidades da reserva extrativista do rio Gregório e instalando sistemas de filtragem para a água do rio.
A Folha de S.Paulo ficou na casa de uma família que recebeu há dois meses banheiro e chuveiro dentro de casa, além de água tratada na torneira. “É ganhar dignidade”, emociona-se a moradora Doriana Ferreira da Silva, 36 anos, mãe de dois filhos.
Nas comunidades com agentes de saúde, os casos de diarreia diminuíram até 90% com essas melhorias. Outros estudos mostram que vasos sanitários com descarga e saneamento adequado reduzem em 33% doenças parasitárias.
Segundo Nathaly, o planejamento das ações depende do calendário das águas. Na cheia, as equipes da UBS fluvial, completas com médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos e remédios, podem alcançar áreas distantes. Na seca, os trajetos ficam difíceis; se o barco encalhar, a espera é até a próxima cheia.
Mickela Souza Costa, gerente do programa SUS na Floresta da FAS, afirma que adaptar as políticas públicas à realidade local é fundamental. Ela destaca obstáculos como plataformas digitais que exigem confirmação por SMS, inviáveis onde não há sinal, como em Ubim.
Para Mickela, a telessaúde é uma estratégia útil, desde que ajustada às limitações locais.
A prefeita de Eirunepé, Áurea Maria Ester Marques (MDB), nascida na região, aponta a logística como grande desafio. O isolamento dessas comunidades eleva custos e dificulta a atuação do poder público.
Os produtos ficam mais caros, pressionando um orçamento que não considera as particularidades da Amazônia. “Os recursos existem, mas são poucos diante das muitas necessidades”, afirma.
Na saúde, o cenário é grave, diz Áurea. O município cobre parte da atenção básica e 70% dos custos do hospital local, que não tem estrutura para casos mais complexos. Pacientes graves precisam ser levados para Manaus — uma operação que a prefeitura financia para cerca de 300 pessoas por mês, incluindo transporte, hospedagem e alimentação. “Queremos mudar essa lógica e levar os serviços até as comunidades.”
Em entrevista, a secretária de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Ana Luiza Caldas, informou que as políticas federais para comunidades ribeirinhas do Amazonas estão sendo ampliadas para alcançar áreas mais distantes.
Ela diz que o foco é facilitar o acesso dos estados e municípios aos programas e reorganizar o trabalho das equipes para melhorar o atendimento nos chamados “territórios líquidos”, onde a água influencia a vida e cultura local.
Ana conta que o financiamento federal mais que dobrou e o número de barcos de saúde passou de cerca de 36, em 2022, para mais de 70, em 2025, com investimento de R$ 340 milhões.
Em cidades como Eirunepé, há também apoio a barcos menores, pontos de apoio e transporte terrestre. Não há pedidos pendentes para contratar mais agentes comunitários na região.
Porem, a seca dos rios dificulta as ações de saúde. “Às vezes, os barcos não conseguem navegar porque a água está muito baixa.” Em emergências, como picadas de cobra, o tempo de deslocamento é um problema. “Não dá para esperar 10 ou 12 horas por atendimento.”
Na comunidade de Ubim, os moradores relatam gastar até R$ 5.000 com combustível para viagens de ida e volta a Eirunepé. “Em emergências de saúde, todos ajudam, mas já houve casos de pessoas que se endividaram para chegar à cidade”, conta Dionilson Mota de Lima, 38 anos.
Ana ressalta que o SUS não cobre custos de deslocamento de pacientes. A solução é reorganizar os serviços e ampliar parcerias com outros ministérios, como o da Pesca, para adaptar as políticas às populações ribeirinhas.
Para suprir a falta de especialistas, o ministério está investindo em saúde digital. “Queremos que a pessoa não precise sair da sua comunidade para receber atendimento”, afirma.
