ANA PAULA BRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O conflito no Irã está fazendo com que os custos para construir no Brasil fiquem mais altos, afetando preços de materiais, transporte e o planejamento das obras. Até o momento, não há falta de materiais no mercado.
Nos últimos dados, o custo da construção cresceu 1,04% em abril, depois de ter subido 0,36% em março. Isso ocorre porque o preço dos insumos para construções aumentou, principalmente devido ao aumento do preço do petróleo, que impacta combustíveis e o transporte mundial.
Essa alta preocupa pessoas que trabalham com construção, desde imóveis residenciais até grandes obras públicas. O mercado imobiliário estava começando a melhorar, com ajuda de políticas públicas e redução dos juros, mas agora enfrenta esse aumento de preço.
Além disso, o governo federal está tentando facilitar o acesso ao financiamento para casas populares. Em março, foi aprovado um aumento na renda máxima para participar do programa Minha Casa, Minha Vida, e no valor máximo dos imóveis financiados, o que é importante para famílias de baixa renda.
Dionysio Klavdianos, vice-presidente de inovação da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), afirmou que o aumento nos preços já está claro e deve continuar, com relatos de altas de até 30% em alguns produtos. Se isso continuar, o custo das obras e o preço final dos imóveis também vão subir.
O barril de petróleo tipo Brent está perto de US$ 115, devido às tensões entre Estados Unidos e Irã e às ameaças no estreito de Hormuz, uma passagem importante para quase 20% da produção mundial de petróleo e gás.
Relatórios apontam que os maiores aumentos em abril foram em materiais como concreto, cimento, tubos e conexões de PVC — que são produtos derivados do petróleo —, além de vergalhões e arames de aço ao carbono.
O preço do alumínio chegou ao maior valor em quatro anos, já que o Oriente Médio fornece cerca de 9% do alumínio no mundo.
Três grandes instituições financeiras — BTG Pactual, Itaú BBA e Santander — avisaram que esses aumentos podem mudar as perspectivas do setor, com o risco de que as construtoras precisem aumentar o preço dos imóveis, o que pode reduzir a procura dos compradores.
Analistas do Itaú BBA disseram que estão mais cautelosos com as construtoras, principalmente as que atuam na faixa de baixa renda. Em abril, várias entidades da construção enviaram pedidos ao governo para que sejam adotadas medidas emergenciais para controlar o aumento dos preços dos insumos.
Uma das propostas é criar uma regra temporária que limite o aumento dos preços nos contratos a um nível considerado justo, permitindo reajustes mensais enquanto durar essa situação extraordinária.
Além dos derivados de petróleo, o aumento no preço dos combustíveis pressiona o custo do transporte, que é essencial para levar os materiais até as construções. Klavdianos destaca que o custo do frete é importante pois é como os materiais chegam aos canteiros.
O governo federal adotou medidas para tentar conter o aumento do diesel, como isenção de alguns impostos e incentivo à importação.
Apesar dessas altas, a construção no Brasil não enfrenta uma crise de falta de materiais como durante a pandemia — as fábricas continuam funcionando normalmente e é possível trabalhar, segundo Klavdianos.
O presidente do SindusCon-SP, Yorki Estefan, explica que o problema atual é principalmente o aumento dos custos, não a falta de produtos. Outros materiais, como resinas e tintas, também tiveram seus preços elevados.
Um desafio é a instabilidade do mercado internacional, que dificulta o planejamento financeiro e a negociação das empresas. O setor da construção trabalha com projetos longos e precisa de mais estabilidade para definir preços e contratos.
Além disso, a construção civil tem dificuldade para estocar materiais, que são comprados conforme o andamento das obras, o que limita as chances de comprar antecipadamente para evitar preços altos.
Mesmo assim, empresas com mais recursos financeiros estão tentando antecipar compras para garantir estoque, conforme Klavdianos.
Os custos mais altos ainda não aparecem nos imóveis que estão sendo entregues agora, porque esses projetos foram orçados e vendidos há 2 a 3 anos, quando os preços e os juros eram menores.
No entanto, esses aumentos já estão afetando os novos projetos. Com materiais mais caros e incertezas no planejamento, as incorporadoras podem precisar rever lançamentos, reduzir margens ou aumentar preços, o que pode encarecer os imóveis futuros e reduzir o ritmo das obras se essa situação durar muito tempo.
Segundo analistas do Santander, os balanços das incorporadoras no primeiro trimestre devem mostrar que os custos mais altos do petróleo já estão sendo considerados, inclusive com revisão de orçamentos.
Estefan, do SindusCon-SP, afirma que as construtoras têm resistido a reajustes sem comprovação clara dos aumentos, pedido esclarecimentos aos fornecedores e reforçado o cuidado no planejamento diante dessa volatilidade.
