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sábado, 02/05/2026

Alta dos preços dos alimentos preocupa eleitores de Lula

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FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deseja continuar no cargo, tem adotado medidas similares às de Jair Bolsonaro (PL) e Dilma Rousseff (PT) para agradar os eleitores. Com a eleição se aproximando, Lula ainda apresenta 40% de avaliação ruim ou péssima nas pesquisas do Datafolha e está empatado com Flávio Bolsonaro (PL) nas projeções para o segundo turno.

Uma das principais razões para essa situação, segundo especialistas, é o alto custo dos alimentos, que tem prejudicado a melhora na renda média e ofuscado os baixos índices de desemprego.

Christopher Garman, diretor-geral para as Américas do Eurasia Group, afirma que “Jair Bolsonaro perdeu a eleição por causa do aumento dos preços dos alimentos após a pandemia. A popularidade do presidente Joe Biden, nos EUA, também foi afetada por isso. Para Lula, o custo de vida será um fator crucial”.

Embora o Brasil tenha experimentado alguns meses com queda nos preços dos alimentos no ano passado, esses preços voltaram a subir em 2026. “Para o brasileiro, a sensação é de que tudo está mais caro e que ele não está melhorando de vida”, explica Garman.

De acordo com o Datafolha, entre as pessoas de baixa renda, que costumam apoiar Lula, a avaliação ruim ou péssima do governo subiu de 24% em dezembro de 2024 para 33% em abril deste ano. No Nordeste, região tradicionalmente favorável a Lula, o percentual aumentou de 22% para 27% no mesmo período.

Uma pesquisa realizada pela Genial/Quaest em abril revelou que 72% dos entrevistados percebem aumento nos preços dos alimentos, contra 58% em março. Quem relatou queda no poder de compra em relação ao ano passado subiu de 64% em março para 71% em abril.

Apesar dos dados positivos sobre o emprego, a renda disponível das famílias, após despesas essenciais, impostos e dívidas, está no nível mais baixo desde 2011, conforme a consultoria Tendências.

Há também uma tendência de precarização do mercado de trabalho, com a criação de empregos que pagam menos do que a média salarial nacional, tanto na área formal quanto na informal.

Em fevereiro, a renda disponível das famílias, após gastos essenciais, era 21%, segundo a Tendências, contra 23,6% no início de 2024. “Essa queda é significativa em curto espaço de tempo”, afirma Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da consultoria.

“A inflação dos alimentos no domicílio aumentou 12% desde que Lula assumiu o governo, o que impacta diretamente sua popularidade”, destaca Ribeiro. “Embora a renda média tenha aumentado, alguns gastos específicos subiram mais.”

A consultoria MB Agro dobrou a projeção para a inflação dos alimentos em 2026, de 2,5% para 5%, devido à pressão nos preços de fertilizantes causada pela guerra no Oriente Médio, além de prever efeitos do fenômeno El Niño na agricultura.

Um relatório do Banco Mundial de abril também reajustou para cima a previsão da inflação dos alimentos tanto para este ano quanto para o próximo, em três pontos percentuais em relação à estimativa feita em janeiro.

André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV-Ibre, alerta que o cenário otimista para a inflação geral e dos alimentos está cada vez mais distante. “Com o petróleo custando mais de 100 dólares o barril, as pressões sobre os preços só aumentam.”

Num cenário pessimista, a inflação geral poderia atingir 5,4% em 2026 (acima do teto da meta de 4,5%), e a inflação dos alimentos no domicílio 6,6%.

Braz lembra que em abril o preço das matérias-primas brutas medido pelo IGP-M da FGV acelerou 5,78%, contra 0,67% em março. “Ainda não houve repasse às mercadorias finais, mas isso deve acontecer se a guerra continuar.”

No âmbito macroeconômico, Lula tem adotado uma estratégia semelhante à de Dilma para conter os preços, embora tenha sido surpreendido pela guerra no Irã, que elevou os custos do petróleo e dos fertilizantes.

Com taxa real de juros interna alta (9,2% acima da inflação), o Brasil atrai dólares de investidores estrangeiros, o que torna as importações mais baratas e ajuda a controlar os preços das commodities.

Lula também tem reforçado diversos programas para aliviar a situação financeira das famílias.

Entre as medidas adotadas estão a redução de impostos sobre o diesel, anúncio de R$ 20 bilhões para habitação através do Fundo Social e um pacote para diminuir o endividamento de famílias e empresas. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, essas ações podem injetar mais de R$ 100 bilhões na economia.

Renato Fragelli, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV, comenta: “O governo quer resultados imediatos, custe o que custar. Gastos e juros altos beneficiam especialmente os pobres, pelo bem-estar dos beneficiários, pela valorização cambial que torna os bens mais baratos e pelo fato de que o baixo desemprego eleva o custo do trabalho, estimulando a economia.”

Fragelli destaca que em 2014 Dilma venceu a reeleição com uma combinação semelhante de gastos e juros altos. “A recessão que veio depois foi a maior desde 1929, mas naquela época a dívida bruta era 59% do PIB, bem menor que os 80% atuais.”

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