JOÃO PERASSOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Nos anos 1990 até meados da década de 2010, era comum ver na cidade de São Paulo uma águia de duas cabeças estampada em camisetas, moletons e bonés. Esse símbolo representava a Cavalera, que foi a principal marca de moda de rua no Brasil, muito popular entre jovens e adultos jovens conectados à vida urbana.
Com um estilo rock’n’roll e estampas ousadas, como a de uma mulher parcialmente nua numa camiseta da rua Augusta ou capas de álbuns onde o nome da banda era substituído pelo da marca, a Cavalera trouxe renovação para a moda brasileira antes da popularização da internet e das redes sociais.
A marca cresceu bastante, teve lojas em vários shoppings e até na rua famosa Oscar Freire, mas fechou todos os pontos de venda em 2021, quando sua popularidade e influência na moda começaram a diminuir. As camisetas divertidas já não atraíam os jovens, que passaram a preferir outras marcas nacionais de streetwear.
Agora, a Cavalera tenta voltar ao mercado com a abertura de uma loja no bairro de Pinheiros. Antes disso, desfilou em 2024 e manteve discretamente algumas roupas à venda na barbearia da marca na Vila Madalena. É possível encontrar as camisetas que fizeram sucesso no novo ponto de venda da rua Fernão Dias, porém com um foco diferente.
Nos cabides, estão peças com design mais elaborado, feitas com tecidos mais grossos, em cores sólidas como preto, branco e cinza, com poucas ou nenhuma estampa. A atenção está no corte e na qualidade das camisetas, moletons, jaquetas e calças de alfaiataria, todas com um estilo mais minimalista. Sai o visual chamativo típico dos adolescentes, entra um estilo mais sóbrio e refinado.
Alberto Hiar, dono e diretor criativo da Cavalera, explica que quis criar algo diferente. “O homem costuma se vestir de forma básica e não muda muito. Quando você vai a uma loja, parece que as roupas estão sempre as mesmas há anos. Muitos homens têm medo de ousar”, comenta, falando sobre a linha chamada Caviar, que usa tecidos importados da Turquia e China, e que tem preços que podem passar dos três dígitos.
Por usar tecidos mais grossos, as peças da nova coleção permitem detalhes e costuras mais marcantes, que tecidos finos não suportariam, além de manter a estrutura no corpo. Esse tipo de roupa ainda é pouco consumido no Brasil, diz Hiar, que produz poucas unidades de cada modelo, entre dez e vinte.
Na coleção Caviar, a loja oferece, por exemplo, camisetas de manga curta com fechos nas mangas, coletes com dobraduras frontais e jaquetas de couro com aspecto desgastado. A linha mais acessível traz calças jeans e camisetas estampadas da banda Charlie Brown Jr., além de peças temáticas da Copa do Mundo.
Embora possa ser difícil usar roupas mais pesadas no clima quente do Brasil, o streetwear local tem investido há alguns anos em peças mais robustas, como as camisetas da Pace e da Carnan, que têm feito sucesso entre os paulistanos antenados em moda — que parecem não se importar tanto com o calor.
Nesta nova etapa, o desafio da Cavalera é manter a atenção do público em um cenário muito mais competitivo do que quando a marca surgiu há mais de 30 anos, impulsionada pela cultura do skate e pelo ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera, que foi sócio no início. Hoje, o streetwear brasileiro conta com marcas fortes como Piet e outras com público fiel, porém sem lojas próprias, como Egho e Quadro Creations.
Além de ser uma marca de moda alternativa, a Cavalera fez história com seus desfiles em locais inusitados, como às margens do poluído rio Tietê, onde os convidados assistiram ao desfile a bordo de um barco. “A moda é o que vivemos no dia a dia. Não tenho museus e castelos como na Europa. Tenho o rio Tietê, o Museu do Ipiranga, o Minhocão”, diz Hiar, referindo-se a pontos icônicos de São Paulo. “Este lugar é um caos urbano.”
Antes da pandemia, com menos relevância na moda, a Cavalera enfrentou dificuldades financeiras e teve que fechar todas as lojas durante a Covid. Teve de pedir recuperação judicial para se reorganizar. Segundo Hiar, o plano de recuperação está quase completo e as dívidas, incluindo as trabalhistas, foram quase todas quitadas.
Com essa fase difícil superada, a pergunta é: quem compra Cavalera hoje? “O cliente é um fã da marca”, afirma Hiar, lembrando que o símbolo da águia de duas cabeças tem história e um público fiel. “Na juventude, a pessoa quer mostrar a marca. Aos 30 anos, com família e trabalho, não quer mais estampas grandes. Quer a marca, mas de forma discreta. É isso que vende mais.”
LOJA CAVALERA
- Funcionamento: de segunda a sábado, das 11h às 19h
- Endereço: R. Fernão Dias, 551, São Paulo
