BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O número de crianças e jovens que sofrem abuso sexual no Brasil triplicou nos últimos dez anos, segundo dados do Ministério da Justiça. Em 2025, foram reportados 59.366 casos, contra 19.496 em 2015, um aumento de mais de 200%.
Esse número se mantém alto e estável, com registros de 2025 muito próximos aos de 2024, quando foram 59.666 casos.
O dia 18 de maio é lembrado como o Dia Nacional para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e jovens, data estabelecida em 1998.
Entre 2015 e 2025, foram registradas 486.001 vítimas no país, o que representa uma média diária de 121 casos.
Os maiores números aconteceram de 2023 a 2025, mantendo sempre acima de 59 mil registros por ano.
Em 2023, o Brasil teve o maior número de casos da série histórica, com 59.779 registros. Os casos incluem abuso sexual contra pessoas com deficiência e outras vítimas além de menores de idade.
A maioria das vítimas são meninas, que representam 84,7% do total com 412.025 registros. Os meninos somam 68.718 casos, e 5.258 não tiveram o sexo informado.
Em 2025, a taxa nacional foi de 27,82 vítimas para cada 100 mil habitantes.
Os estados com mais registros desde 2015 são: São Paulo (100.571 casos para 46 milhões de habitantes), Paraná (55.809 para 11,8 milhões), Minas Gerais (41.703 para 21,3 milhões), Rio Grande do Sul (40.921 para 11,2 milhões) e Pará (34.969 para 8,7 milhões).
Pará e Paraná têm taxas maiores que a média nacional, com 54,21 e 44,93 vítimas por 100 mil habitantes respectivamente. São Paulo tem uma taxa de 26,56 por 100 mil.
O Ministério da Justiça foi solicitado para comentar as ações contra esse problema, mas não respondeu até sexta-feira (15).
Para a delegada Monique Lima, da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, o aumento dos registros mostra que há tanto mais denúncias quanto maior capacidade das autoridades para identificar esses casos antes ignorados.
Profissionais de saúde, professores, assistentes sociais e policiais estão mais preparados para reconhecer sinais de violência.
“Muitas situações que antes ficavam escondidas dentro de casa agora chegam ao conhecimento das autoridades.”
A maioria dos casos envolve vítimas menores de 14 anos, enquadradas como estupro de vulnerável.
Em 2025, São Paulo registrou mais de 10 mil casos nessa faixa de idade, quase 9.900 como estupro de vulnerável, e 2.600 no primeiro trimestre de 2026.
Monique Lima ressalta que o problema atravessa todas as classes sociais e normalmente os abusadores são pessoas próximas das vítimas, como familiares ou conhecidos. “É uma violência que ocorre em todas as camadas sociais, não é um problema de um bairro ou classe específica, mas uma violência estrutural.”
Embora não haja unidade exclusiva para crimes sexuais contra crianças e jovens, todas as delegacias em São Paulo estão preparadas para atender esses casos, com as Delegacias de Defesa da Mulher tendo experiência particular no atendimento e ações preventivas em escolas.
A delegada Gabriela Segarra, da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, relata que esses casos são parte do trabalho diário da especializada. Ela conta o caso de um menino autista de 5 anos, não verbal, abusado por um amigo da família, que foi preso e confessou o crime.
“Me sinto aliviada em ajudar uma vítima vulnerável, especialmente uma criança autista e não verbal.”
O pesquisador Daniel Cerqueira, do Atlas da Violência, acredita que parte do aumento é devido à maior notificação, resultado de campanhas, mudanças nas leis e melhor preparo das autoridades para investigar e enquadrar crimes.
Ele alerta, porém, que o aumento dos casos reais também pode ser verdadeiro, associado ao crescimento de discursos misóginos e de grupos radicais entre jovens.
“Há um fortalecimento de culturas machistas e radicais, ligado ao ambiente político e cultural atual.” Também cita episódios recentes de abusos sexuais coletivos entre adolescentes como exemplos.
Daniel Cerqueira enfatiza que os números divulgados são apenas a ponta do problema.
Estudos indicam que grande parte dos abusos acontece dentro de casa, cometido por familiares próximos, como pais, padrastos e avós. “O maior perigo para nossas crianças está dentro do próprio lar.”
