FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Os juros pagos pelo Tesouro Nacional para cobrir o déficit do governo e refinanciar a dívida subiram rapidamente após a divulgação das mensagens entre o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Nos títulos mais comuns de longo prazo, que pagam inflação (IPCA) mais uma taxa fixa, os juros começaram a subir já na quarta-feira (13), quando as conversas sobre o financiamento do filme “Dark Horse” vieram à tona.
Por exemplo, os títulos com vencimento em 2032, que pagavam IPCA + 7,63% ao ano na terça (12), fecharam com IPCA + 7,86% na sexta (15). Embora pareça pouco, os juros já eram historicamente altos no início da semana, e ficaram ainda maiores. Outros títulos seguiram o mesmo caminho.
Isso quer dizer que se os juros reais (acima da inflação) no país voltarem ao nível considerado normal, de 5% ao ano, quem comprar esses títulos agora terá um prêmio de risco muito maior do que em períodos normais.
Ao mesmo tempo, o dólar subiu de R$ 4,91 para R$ 5,06 do dia antes do “caso Dark Horse” até sexta, e a Bolsa caiu de 180,3 mil pontos para 177,2 mil pontos.
Especialistas dizem que esse movimento mostra que investidores acreditam que a candidatura de Flávio Bolsonaro pode enfraquecer, o que facilitaria a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As conversas reveladas podem afastar eleitores indecisos e também quem não gosta do governo Lula.
Com Lula, muitos esperam mais gastos públicos, aumento da inflação e dos juros.
Com Flávio Bolsonaro, a expectativa seria de controle maior nesse cenário. Um sinal disso foi em 17 de abril, dois dias depois de uma pesquisa mostrar Flávio na frente de Lula no segundo turno, quando os juros para os mesmos títulos caíram para 7,43% ao ano + IPCA, uma das menores taxas do ano.
Até o momento, pouco se sabe sobre as propostas econômicas dos dois para o próximo governo, mas o histórico de Lula e algumas das ideias de Flávio já são conhecidas.
No governo atual, Lula já contornou regras orçamentárias para aumentar gastos, o que se reflete no crescimento da dívida pública, que está em 80,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
São R$ 10,4 trilhões de dívida que precisam ser refinanciados com títulos públicos vendidos a investidores de todos os tamanhos. Sem controle claro, o mercado exige juros maiores para financiar o governo deficitário.
“O que preocupa investidores agora é o volume de dinheiro que Lula está gastando para tentar se reeleger”, afirma José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos. Segundo reportagem da Folha, os programas do presidente para este ano somam R$ 144 bilhões.
“As taxas atuais são muito altas e mostram que o cenário fiscal é difícil. É como se o mercado dissesse que, desta vez, o ajuste terá que ser muito grande. E quanto mais demorar, mais rigoroso será. É difícil imaginar que Lula fará isso”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.
Livio Ribeiro, sócio-fundador da BRCG e pesquisador do FGV-Ibre, comenta que além do desgaste da candidatura de Flávio pelo caso, a semana passada reforçou no mercado global que a guerra no Oriente Médio será longa e com efeitos duradouros.
“Isso aumenta as expectativas de inflação, especialmente nos EUA, e faz com que vários países precisem de juros altos para controlar as pressões”, ressalta.
Sobre Flávio, sabe-se que seu projeto econômico inclui um ajuste fiscal de cerca de 2% do PIB, aproximadamente R$ 250 bilhões em alguns anos.
Isso seria feito retirando reajustes reais do salário mínimo para benefícios previdenciários e mudando o índice de reajuste para saúde e educação, substituindo crescimento da receita por inflação. A campanha, porém, diz que isso não está definido.
Também há o histórico da gestão do ministro Paulo Guedes no governo Jair Bolsonaro (PL), com privatizações, congelamento de salários do funcionalismo, autonomia do Banco Central e reforma da Previdência, entre medidas liberais.
No mercado, os primeiros três anos sob Guedes foram vistos como positivos e os juros caíram, mas no último ano, com Bolsonaro buscando reeleição, foram criados novos gastos como a PEC Kamikaze, que ampliou benefícios sociais.
