JOANA CUNHA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Uma pesquisa do Datafolha feita nos dias 20 e 21 de maio revela que mais brasileiros estão começando a enxergar as apostas e os jogos online como um vício. O estudo também mostra que menos pessoas estão usando economias ou dinheiro emprestado para jogar.
A porcentagem de quem acredita que as apostas esportivas, chamadas bets, e os jogos online podem viciar subiu de 54% em 2024 para 57% na pesquisa mais recente.
Foram consultadas 1.970 pessoas em 139 cidades de todas as regiões do Brasil, incluindo capitais e cidades do interior. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.
Quem acha que apostar é perder dinheiro segue em 30%, mesmo percentual de novembro de 2024. Já quem vê as apostas como diversão caiu de 9% para 6%, o que está dentro da margem de erro.
Apenas 1% considera as apostas uma forma de ganhar dinheiro ou investimento.
Formas de pagamento
O Datafolha também notou mudanças nas fontes de onde os apostadores tiram o dinheiro para jogar. Hoje, menos pessoas usam poupança, cartão de crédito ou dinheiro emprestado para isso.
Quem usava a poupança caiu de 22% para 19%. Quem deixou de comprar algo para apostar passou de 19% para 11%. O uso do cartão de crédito baixou de 15% para 10%, e pedir empréstimo para jogar caiu de 15% para 8%. Também diminuiu quem deixou de pagar contas para apostar, de 13% para 6%.
Lauro Gonzalez, professor da FGV e especialista em microfinanças, diz que esses números podem indicar uma tentativa do governo de dificultar os jogos, com restrições para beneficiários do Bolsa Família, além de maior conscientização e endividamento entre os jogadores.
“O superendividamento está ligado às apostas. Com o aumento das dívidas, alguns jogadores podem ter parado. O fenômeno merece estudo”, afirma Gonzalez.
O governo Lula está preocupado com o impacto das apostas no endividamento, que pode afetar sua popularidade nas eleições. Por isso, a nova versão do programa Desenrola proibiu apostas para quem está inadimplente e inscrito em renegociação de dívidas.
Medo do vício
B.S., dentista de 40 anos que preferiu não revelar o nome completo, conta que parou de apostar por medo do vício e ansiedade. Ele chegou a apostar contra seu próprio time para tentar ganhar dinheiro com o retorno da aposta.
“Eu torcia para meu time perder para ganhar no palpite. Não era saudável emocionalmente. Já faz mais de um ano que não jogo dinheiro”, afirma.
Ele também desconfia da honestidade dos jogos, especialmente após uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as bets, concluída em junho de 2025. Hoje, ele só aposta usando bônus que algumas empresas enviam por e-mail.
“Eles mandam R$ 10 para jogar grátis, mas no geral você perde. Sinto que manipulam resultados. Quem continua é porque está viciado”, diz B.S..
As apostas esportivas foram legalizadas no Brasil em dezembro de 2018, no final do governo de Michel Temer. Jogos de caça-níqueis virtuais foram regulamentados pelo Congresso em dezembro de 2023.
A porcentagem de brasileiros com 18 anos ou mais que apostam em bets ou cassinos online está em 7%, mesma taxa de 2024.
Quem é o apostador
O apostador típico no Brasil é jovem e do sexo masculino. Segundo Datafolha, 11% dos homens apostam em jogos online atualmente, comparado a 3% das mulheres. Entre 18 e 24 anos, 13% já apostaram, e entre 25 e 34 anos, 11%. Acima de 35 anos, o índice cai para 9% e 4%, respectivamente.
Entre apostadores ativos, 36% jogam semanalmente, número estável em relação a 2024. Cerca de 20% apostam todos os dias, 13% a cada quinze dias e 19% por mês. Menos frequente são os 11% que jogam com menor periodicidade.
A margem de erro neste grupo é de 10 pontos percentuais, por isso as frequências são consideradas estáveis.
Quanto ao gasto, a média mensal em apostas online é de R$ 241, e nos cassinos online, R$ 232.
