NICOLA PAMPLONA, JÚLIA MOURA E FELIPE MENDES
RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O preço do petróleo caiu após um acordo entre os Estados Unidos e o Irã para tentar acabar com a guerra, mas essa queda deve ser pequena, segundo especialistas. Ainda existem dúvidas sobre a situação no estreito de Hormuz e sobre o que o governo de Israel fará. Além disso, acredita-se que o valor do petróleo não deve voltar logo aos preços de antes da guerra, que eram cerca de US$ 70 o barril.
O estreito de Hormuz é um caminho marítimo importante por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural comercializados no mundo. A guerra bloqueou essa rota, causando falta de combustíveis, alimentos, fertilizantes e afetando o transporte marítimo, o que prejudicou vários produtos globalmente.
Na segunda-feira (15), o preço do barril de petróleo tipo Brent, que é um padrão internacional, atingiu a menor cotação em três meses, caindo 4,55% para US$ 83,36. Durante o conflito, o preço passou de US$ 110.
O ex-diretor-geral da ANP, Décio Oddone, acredita que os preços não vão cair muito, pois ainda há muita incerteza e necessidade de recuperar estoques.
Já o presidente do IBP, Roberto Ardenghy, estima que o preço do barril fique entre US$ 80 e US$ 90 no médio prazo, caso o fim do conflito seja oficializado. Ele ressalta que é preciso confirmar se o acordo é realmente firme e se Israel vai cooperar completamente. Outro ponto importante é o tempo que levará para liberar totalmente o trânsito no estreito de Hormuz, que pode ser complicado e perigoso para grandes navios petroleiros.
Ardenghy também comenta que a alta dos preços do petróleo permitiu que países como os Estados Unidos e Venezuela aumentassem a produção, estabilizando o mercado nesse novo patamar.
O analista de mercado Bruno Cordeiro, da Stonex, vê o acordo como uma solução parcial, pois negociações sobre o programa nuclear iraniano ainda podem causar oscilações no curto prazo. A longo prazo, os preços devem se manter mais firmes.
A consultoria Argus informa que ainda não há melhoria imediata no abastecimento de derivados na Europa e Ásia, que enfrentam dificuldades com querosene de aviação, diesel e petróleo. A liberação total do estreito de Hormuz pode levar de seis a oito semanas para que os produtos cheguem aos destinos, mantendo os estoques baixos e os preços sensíveis a qualquer interrupção.
Apesar da situação incerta, o fim do conflito e a menor oscilação nos preços das commodities são vistos como positivos para a economia e podem ajudar a controlar a inflação no Brasil, segundo especialistas.
A economista Zeina Latif comenta que a queda nos preços pode causar deflação no setor de energia, o que diminuiria a pressão sobre o Banco Central. Ela acredita que o índice oficial de inflação (IPCA) pode terminar 2026 dentro da meta, apesar de o mercado permanecer cauteloso.
Ela lembra que o preço do petróleo pode não voltar ao valor pré-guerra por causa da destruição de infraestrutura e do aumento das exportações de outros países, como o Brasil.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, aponta que a inflação ficaria dentro da meta apenas se os preços caíssem no Brasil, o que ele não espera. Ele destaca que o principal desafio agora é o fenômeno do El Niño, que pode impactar os preços no segundo semestre e no próximo ano, especialmente dos alimentos. O fim da guerra, no entanto, reduz a pressão sobre os preços dos fertilizantes.
O El Niño, confirmado oficialmente na semana passada, ameaça a produção agrícola e pode elevar os preços dos alimentos até o fim do ano.
Nos últimos 12 meses até maio, a inflação acumulada chegou a 4,72%, ultrapassando o teto da meta do Banco Central. Antes do acordo, a expectativa era de 5,30% para a inflação e 13,75% para a taxa básica de juros (Selic) para 2026. Antes do conflito, essas projeções eram de 3,91% para a inflação e 12% para a Selic.
O banco Itaú tinha estimativa de preço do barril entre US$ 60 e US$ 65 antes da guerra, mas agora projeta cerca de US$ 85 para o fim de 2026 e US$ 75 para o fim de 2027, sem ainda ter ajustado a previsão depois do acordo.
Monique Greco, analista de óleo e gás do Itaú BBA, acredita que o fim da guerra poderá manter o preço do petróleo em um nível mais estável e elevado do que o esperado para o final de 2025.
A economista Laura Pitta, do Itaú Unibanco, explica que o excesso de oferta que justificaria preços baixos não ocorreu devido ao conflito, mantendo os preços mais altos.
Mesmo sem grandes quedas, o preço do petróleo tende a se estabilizar, indicando um cenário positivo após recente volatilidade.
No Brasil, o impacto positivo da queda do petróleo depende da Petrobras, que ainda não repassou totalmente a redução no preço do óleo. A estatal controla cerca de 70% do mercado de diesel, entre produção própria e importação, o que pode limitar os benefícios para consumidores.
Segundo o site Global Petrol Prices, o Brasil foi um dos países que menos aumentou os preços da gasolina e diesel após o início da guerra, com alta de 4,9% na gasolina e 13,6% no diesel. Nos Estados Unidos, o aumento foi de 36% para ambos os combustíveis.
Esse cenário se deve ao programa de subsídio criado pelo governo, que ressarce empresas que vendem combustíveis a preços mais baixos. A Petrobras foi a primeira a aderir e repassou os descontos para as distribuidoras, ajudando a conter a alta nas primeiras semanas do conflito.
Segundo o Itaú BBA, o preço do diesel da Petrobras está cerca de 12% abaixo da referência internacional, mesmo considerando os subsídios, indicando que a estatal poderia reajustar os preços para cima.
Monique Greco afirma que, apesar dos subsídios, a Petrobras ainda tem espaço para aumentar o preço do diesel, especialmente por causa da instabilidade internacional.
